O NAPERON DE ESTALINE
Na imensidão da
estepe russa o inverno tem por hábito pintar a paisagem de branco. Aí iremos
encontrar dois complexos habitacionais. Quem os veja ao longe não conseguirá
distingui-los no horizonte. Mais ao perto percebemos que nos encontramos na presença
de uma construção militar a poucos quilómetros de uma habitação austera. Essa
habitação está cercada por um muro branco com cerca de três metros de altura. A
única abertura existente nesse muro está obstruída por uma cancela e uma
guarita onde três soldados se encontram de sentinela. Uma extensa língua preta
de asfalto percorre a distância entre o complexo militar e a habitação. Essa
língua vai até à porta da habitação onde encontramos dois sentinelas imaculadamente
vestidos.
Todos os dias uma
limousine desloca-se desde o complexo militar até a habitação. Esta deslocação
acontece sempre à mesma hora com a precisão de um relógio. Quando se imobiliza
saem de lá dois oficiais. Um traz na mão uma pasta e o outro um ramo de flores.
Dirigem-se à porta onde os soldados se colocam em sentido. No interior do edifício
deslocam-se até uma secretária onde o oficial de dia lhes indica com um sinal
de cabeça que podem subir. Estes, seguindo a indicação do camarada ascendem ao
segundo andar do edifício onde um enorme corredor os leva até uma porta de
madeira maciça sem ornamentos. Um deles, geralmente o que leva as flores, bate
com os nós dos dedos na porta e ambos esperam por resposta. Do outro lado
ouve-se um grunhido que lhes dá autorização para entrarem. Lá dentro o oficial
das flores dirige-se a uma mesa-redonda onde um naperon de linho branco debruado
com uma renda de crochet vermelha e bordado com uma foice e um martelo na mesma
cor serve de base a uma jarra de cristal com flores murchas. Este substitui as
flores murchas pelo ramo que leva na mão. Ao mesmo tempo que isto acontece o
outro oficial entrega a Estaline a pasta que trazia debaixo do braço. Após
terem cumprido a sua função retiram-se silenciosamente fechando a porta de
forma cuidada e ficam a aguardar no corredor.
Estaline pega na
pasta, levanta-se e dirige-se à mesa-redonda
sentando-se numa modesta cadeira de madeira. Arreda suavemente o naperon e a
jarra. Após este gesto abre a pasta de onde retira treze folhas preenchidas com
nomes. Analisa cuidadosamente cada uma das folhas sublinhando com lápis
vermelho alguns dos nomes. Por cada nome sublinhado esboça um sorriso. Esta ação
decorre invariavelmente durante cerca de meia hora. Quando termina volta a
colocar as treze folhas dentro da pasta. As folhas com os nomes selecionados
serão entregues aos dois oficiais que se encontram no corredor, mas só após um
grunhido de comando que os faz aparecer solícitos e obedientes. Retiram-se de
cabeça curvada deixando Estaline embrenhado nos seus pensamentos. Enquanto pensa
volta a colocar o naperon e a jarra no centro da mesa. A sua mão direita, a
mesma com que sublinhou os nomes, coloca-se agora sobre a renda deixando deslizar
suavemente os dedos sobre o seu trabalho do mês passado. Estaline sofre de
insónias e todas as noites, sentado à secretária, faz renda em crochet até a sonolência
o atingir. O seu oficial de dia, invariavelmente, por volta das cinco da manhã
verifica o estado do crochet para averiguar da sua finalização. Quando esta acontece
borda um pano de linho com a foice e um martelo e coloca a renda à volta.
Distribui estes naperons pela mobília do edifício o que muito agrada a
Estaline.
Ao mesmo tempo
que Estaline passa os dedos pela renda vermelha um dos prisioneiros evadidos de
uma prisão na Sibéria está a ser retalhado pelos seus parceiros de fuga.
Calhou-lhe a ele ser a fonte de alimento para os outros três. Na neve imaculada
restam agora pedaços humanos ensanguentados… ~
P. Guerreiro
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