A rapariga apercebe-se do desconforto dos Deuses. Pensa, talvez seja tarde demais. Gostava de ter poderes de mulher-feiticeira, fazer desaparecer os jovens adolescentes que se aproximam do balcão. Não sendo esse o caso resta-lhe enfrentar a tormenta. Com a vela de tempestade ao vento a rapariga manobra habilmente a situação. Numa jogada de antecipação dirige-se aos machos imberbes adivinhando-lhes o pedido. Com um gesto insinuador digno de prestidigitadora profissional oferece os croissants acabados de fazer. Adiciona-lhes creme de chocolate e uma lata de poção mágica, Cola original sem restrições. A estocada revela-se perfeita. Os dois jovens entregam-se, numa rendição incondicional, às mãos da Deusa precoce. Para a prestidigitação ser completa só falta fazê-los desaparecer. A ordem, mascarada de solicitude, é largada de maneira inocente, três palavras apenas, É para levar? Totalmente enfeitiçados, os príncipes em formação, anuem com jeito bovino. Tudo corre bem. Com o alvoroço controlado, a fúria dos Deuses dissipa-se perante o domínio da situação exercido pela jovem. No mesmo passe de magia a futura Deusa-pagã-maior fornece aos jovens as duas doses hipercalóricas. Entrega com uma mão, recebe com a outra. O valor a pagar também já tinha sido divulgado. Meio aturdidos com a solicitude eficiente da rapariga os jovens abalam, já não preocupados com os seus cetros luminosos, completamente ganhos pelo cheiro adocicado da guloseima disfarçada de pequeno-almoço. A saída dos machos imberbes faz-se silenciosa e apressada. A rapariga lança um último olhar aos jovens. A ingestão calórica ocupa agora as suas mentes irrequietas. Afastam-se de boca cheia e latas na mão. A rapariga-feiticeira, futura Mulher-criadora, está orgulhosa do seu domínio. Este tipo de controlo irá permitir-lhe muitos sucessos num futuro, que assim se adivinha, promissor.
sexta-feira, 28 de maio de 2021
terça-feira, 25 de maio de 2021
Perspetivas (décima abordagem)
Na esplanada os dois Homens-criadores apercebem-se da chegada dos adolescentes. Trocam entre si olhares de suave censura. São Deuses-criadores-menores , como tal, têm conhecimento da poderosa energia que emana dos dois machos imberbes. Invejam-na pelas sensações há muito perdidas. A consolidação do seu poder como Deuses retirou-lhes essa energia primordial. Hoje, sabem que ela existe, sabem que nunca a poderão recuperar. Os cetros que transportam consigo são prolongamentos úteis das suas memórias, dessas construções sedimentares cujas camadas protetoras impedem essa energia de fluir nos seus corpos. Os dois jovens entram no estabelecimento comercial. Demoram-se um pouco à entrada enquanto comentam sobre coisas visionadas. Fazem-no em voz alta, entoação juvenil em formação, modelação periódica com anomalias de descontrolo arrebatado. Após breve período de condescendência os Homens-criadores manifestam agora o seu enfado que rapidamente se converte em desconforto. Os adolescentes são alheios convictos à perturbação provocada. Numa avaliação superficial poder-se-ia facilmente chegar à conclusão de que, primeiro, a perturbação fazia parte dos seus intentos, jogo iniciático de testa limites, segundo, o objetivo da sua visita ao estabelecimento de consumo calórico tinha intenções puramente lúdicas e poderia perfeitamente ter sido evitado e em terceiro lugar que, de acordo com as duas primeiras premissas, os dois jovens imberbes, tendo cumprido os seus desígnios, sairiam pela porta fora rindo satisfeitos, convictos de ter destabilizado o mundo castrador dos Deuses-criadores. Embora racionais e possíveis estas conclusões não se adaptam a este caso concreto.
quinta-feira, 20 de maio de 2021
Perspectivas (nona abordagem)
A mulher sentada à mesa desfruta do sabor ligeiramente
adocicado da torrada acabada de fazer. Permite-se um ligeiro cerrar dos olhos.
Assim embevecida solta um impercetível gemido de prazer. É nos momentos em que liberta os sentidos do
espartilho do dever divino, e só nesses momentos, que a Deusa-pagã-maior se
revela mulher. A sensualidade com que se entrega aos sabores, a plenitude do
estomago saciado, o desligar do mundo ligando-se a si mesma, faz com sinta um
arrepio que lhe desce ao ventre. Agora, com a pessoa certa e as circunstâncias
alinhadas com os astros, deixaria o seu corpo abandonar-se a carícias. Por
momentos imagina mãos hábeis manuseando os seus pontos sensíveis. Imagina essas
mãos demorando-se, espantadas, nesses pontos recém descobertos. Prazer sem
opressão ou domínio, apenas abandono. A Mulher-criadora acorda para a realidade
de forma desconfortável. Dois jovens machos, plenos de vitalidade pós pueril,
avançam ruidosos pelo estabelecimento em direção ao balcão. A Mulher-criadora
reconhece num dos jovens a cria masculina de uma Deusa-pagã-maior sua
conhecida. A mulher-feiticeira não tem dúvidas quando decide usar o seu poder.
quarta-feira, 19 de maio de 2021
Perspetivas (oitava abordagem)
O mundo tem centros desconhecidos. O mundo dos adolescentes
tem centros de grande intensidade. A energia gerada por esses centros pode
mover o mundo assim como o pode destruir. A rapariga, projeto precoce de
Deusa-pagã-maior, tem tremores de vidente incompleta. A leve penugem dos seus
braços desnudados apresenta sinais de arrepio. A premonição capilar não é
descabida e concretiza-se na imagem juvenil de dois machos imberbes em
trejeitos desengonçados. O alarido por eles produzido é algazarra espontânea,
encenação improvisada. Os jovens têm o odor de hormonas em desenvolvimento e
espalham-no testando limites, demarcando terreno. São príncipes em formação,
aprendendo a criar através caos. Os seus
ecrãs luminosos são manipulados com exuberância e desleixada perícia. A
rapariga sabe com o saber de quem já viu, de quem já experienciou. Sabe que os
dois machos imberbes, príncipes em formação, entrarão ruidosos transpirando
juventude, exalando energia mal contida. Antecipa, numa previsão correta e
assertiva, que essa manifestação de vida em crescimento irá incomodar os
Deuses. Olha, como se visse o futuro, a imagem perturbada desses seres
superiores interrompendo o seu visionamento divino. Imagina-os vertendo olhares
reprovadores, primeiro para os machos imberbes, de seguida em sua direção
solicitando a sua intervenção. Como a rapariga sabe, com a mestria de quem
possui esse conhecimento, irá proceder em antecipação. Não irá evitar, antes mitigar, as consequências
antevistas.
terça-feira, 18 de maio de 2021
Perspetivas (sétima abordagem)
A rapariga por detrás do balcão deteta o odor morno do pão torrado. De olho no seu cetro prepara o pedido da Deusa-pagã-maior. Coloca cuidadosamente o chá e as torradas numa bandeja metálica de forma circular. A rapariga examina com pormenor a bandeja assim preparada. A mulher, Deusa-pagã-maior, manipula com destreza o ecrã do seu cetro. O mundo rende-se ao poder calmo e assertivo da mulher feiticeira. A rapariga aproxima-se com a bandeja. Com experiência de saber feito insinua o reflexo da sua imagem no ecrã-cetro da Mulher-criadora. Ligeiramente incomodada a Deusa-pagã levanta o olhar com uma expressão que não transmite nenhuma emoção facilmente percetível. A rapariga insinua a bandeja o que faz a mulher-feiticeira sorrir. De forma cuidada e reverente distribui pela mesa o prato com as torradas e a chávena de chá. A Mulher-criadora pousa o seu cetro e aconchega o pequeno-almoço para perto de si. A rapariga retira-se satisfeita com a sensação de dever cumprido. A Deusa-pagã-maior manipula os hidratos de carbono. Ingere-os com elegância e ajuda a deglutição com delicadas transferências da infusão aromática. A mulher-feiticeira guarda a mão direita para a sua obrigação criadora. A rapariga está novamente por detrás do balcão e tenta, com trejeitos forçados, as poses manipuladoras da Deusa-pagã-maior. Lá fora ouve-se o chilreio da animália voadora.
sábado, 15 de maio de 2021
Perspetivas (sexta abordagem)
Os dois Homens-criadores, Deuses-criadores-menores, sorriem
complacentes. As suas ligações revelam-se competentes permitindo um fluxo
continuo de informação. O manuseamento dos seus cetros pessoais é executado com
mestria por dedos treinados cuja memória
muscular permite uma simbiose perfeita entre o Homem-criador e o éter digital.
Alguns seres vivos voadores tentam a concentração destes Deuses-criadores-menores.
Fazem-no de forma orgânica e animal com tiques de intuição evolutiva. Chilreiam
comunicações numa cifra aparentemente abstrata intercalando vibrações sonoras
com deslocações aéreas de elevada intensidade. Um dos Homens é atraído pela
animália esvoaçante. Tenta identificá-la mas não tem certezas. Com um movimento
ágil e competente dirige o seu cetro para a matéria duvidosa e capta a sua
imagem. Com o animal assim guardado pode agora dissecá-lo. O semblante do Homem-criador
revela satisfação. Está na presença de
um Passer Domesticus. Olha para o segundo homem e comenta, pardal do
telhado. Este repete as palavras do primeiro deixando no ar uma interrogação,
pardal do telhado? Assim interrogado o primeiro homem executa algumas manobras
digitais fazendo fluir a informação do seu cetro para o do segundo homem. Devidamente
esclarecido o segundo homem murmura embevecido, pardal do telhado. Em total
sincronia ambos inspiram profundamente. A expiração, também ela sincronizada,
termina num suspiro coral. A ação conclui-se simultânea. O movimento dos órgãos
da visão faz com que eles repousem serenamente nos respetivos cetros.
sexta-feira, 14 de maio de 2021
Perspetivas (quinta abordagem)
Uma mulher aproxima-se do balcão. De mala a tiracolo e com o
braço ligeiramente fletido, leva na mão o cetro de Deusa-pagã-maior. A cabeça
da mulher encontra-se ligeiramente inclinada na direção do cetro. O cetro
brilha e reflete imagens indefinidas nos olhos da mulher. A rapariga por detrás
do balcão tenta adivinhar a direção visual que os olhos da mulher irão escolher
quando esta levantar a cabeça. Ambas permanecem imóveis durante alguns
segundos. A mulher junto do balcão levanta a cabeça e encontra o olhar da
rapariga. A rapariga sorri com o olhar ao qual acrescenta uma ligeira curvatura
dos lábios. Sente-se agradada com a sua intuição. A mulher também acrescenta uma pequena
curvatura à sua boca enquanto ergue o seu cetro, impingindo-o, de forma
amigável, à rapariga. Esta observa o trabalho realizado pela Mulher-criadora
recém chegada e sorri mostrando uns bonitos dentes brancos. A ligação foi
estabelecida. A mulher pode agora sentar-se e despejar a mala na outra cadeira
da mesa sem largar de vista o seu cetro. Por sua vez a rapariga prepara um chá
e torradas. Enquanto espera, passa suavemente com a ponta do dedo indicador no
ecrã do seu cetro, tentando-se Mulher-criadora.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
Perspetivas (quarta abordagem)
A rapariga não está ligada. Tem ímpetos de Mulher-criadora.
A Mulher-criadora é Deusa-pagã-maior, o Deus único sempre circuncisou a mulher.
A rapariga coloca-se estrategicamente por detrás do balcão. A sua visão
abrangente domina a esplanada, o interior do café e a bancada do balcão onde, em
local programado, o seu objeto comunicacional repousa num apelo silencioso. A
Mulher-criadora, experiente na execução de diferentes tarefas simultâneas, acaricia
o ecrã de forma subtil. O contato das unhas com o vidro do objeto devolve um
som intermitente. A Mulher-criadora, Deusa-pagã-maior, exerce o seu poder com delicadeza
e rapidez. Há urgência no seu ato criador, aproveitamento de uma pausa,
consciência da natureza breve de que é feita a sua conexão.
terça-feira, 11 de maio de 2021
Perspectivas (terceira abordagem)
Dois homens encontram-se sentados junto a uma mesa numa
esplanada. São dois Homens-criadores, Deuses-criadores-menores desempenhando as
suas funções. A rapariga que serve às mesas aproxima-se do segundo homem. Insinua
a sua presença colocando-se de modo a diminuir a luminosidade solar disponível.
O ecrã do segundo homem não compensou de forma satisfatória a alteração luminosa.
O semblante do segundo homem transmutou-se de sereno para incomodado. Dirigiu o
olhar para o presumível local da obstrução e encontrou o rosto sorridente,
porventura mecânico, da rapariga. O transtorno causado pela quebra de ligação
levou-o a ser rápido no pedido. Reposta a luminosidade o semblante do segundo
homem serenou. A rapariga voltou à mesa com uma chávena de café. Desta vez teve
cuidado para não se interpor entre o sol
e a mesa. Encontra-se entre os dois homens sem que a sua presença seja notada. Retira-se
deixando que o movimento do seu braço provoque uma ligeira sombra por cima da
cabeça do segundo homem, sombra essa que se prolonga até à chávena de café. O segundo homem dirige um
olhar satisfeito para a chávena. A rapariga desapareceu.
segunda-feira, 10 de maio de 2021
Perspectivas (segunda abordagem)
O homem que está na esplanada tem o ar sereno enquanto desempenha as suas funções de Deus-criador-menor. As suas funções de Deus-criador-menor escondem-lhe a alma. Um segundo homem aproxima-se, também ele Homem-criação, também ele entregue a tarefas de Deus-criador-menor. O homem que se aproxima imobiliza-se junto da mesa onde o primeiro homem se encontra e cumprimenta-o de forma comedida. O homem que se encontra sentado responde ao cumprimento e convida o segundo homem a sentar-se junto dele. O segundo homem aceita o convite e senta-se a uma distância socialmente aceitável. O primeiro homem mostra algo do seu ecrã ao segundo homem e o segundo homem retribui com a exibição ampliada do seu ecrã. Ambos sorriem, a comunicação está definitivamente estabelecida.
domingo, 9 de maio de 2021
Perspetivas (uma primeira abordagem)
Um homem está sentado numa cadeira. À sua frente tem uma mesa onde repousa uma chávena com resíduos de café. O homem está numa esplanada e o seu ar sereno esconde-lhe a alma. Tem nas mãos um objeto cujo objetivo comunicacional se dispersa por infindáveis vertentes. O homem liga-se ao universo reduzido. O “servidor" garante-lhe essa ligação, ao mesmo tempo abrangente e castradora. O olhar do homem muta-se intermitente, presente e ausente, numa sucessão de arritmias visuais. Neste momento o homem recebe informação, com um dedo faz deslizar as imagens do ecrã. O Homem-criação é o Deus-criador numa edição com limitações sujeitas a upgrades e permissões. O Homem-criação é Deus-criador-menor. O Deus-criador-menor é o expoente do Homem-criação. O homem tem consciência do seu poder e usufrui dele com prodigalidade.
Preso à Parede
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