Postal #1 (O Funeral do Vizinho)

Nos confins da alma, o céu não tem cor. É essa a perceção de Vitorino quando se perde em contemplações interiores, o que é raro acontecer. Costuma dizer, meio a sério, meio a brincar, que não tem tempo para essas coisas. O que ele não diz é que a falta de tempo não é a única razão para se furtar a tais divagações. Outras causas existem para que ele evite esses rios tumultuosos onde a vida está sempre em causa. Assim sendo, os tempos livres são passados a trabalhar na pequena quinta junto de sua casa. É um trabalho solitário e que ele não gosta de partilhar com ninguém. Quando absorve os odores que emanam da terra acabada de lavrar, sente-se em comunhão com o universo, e é o mais próximo que consegue estar do Criador. Para ele basta-lhe o mundo visível, e tudo o que não consegue tocar é porque assim deve permanecer.

Mas hoje é diferente. A morte, que sempre ceifou longe, começou a levar trigo das searas vizinhas. Hoje, o trigo tem outro nome. O Floriano tinha apenas setenta e dois anos, um moço da sua idade. A ceifeira levou-o à hora de jantar, as faces rubras de tinto e gordura de porco. As veias entupiram, e não deu tempo de chamar o Zé, canalizador para todos os serviços, mas que de nada adiantaria neste caso. Não veio o Zé nem o INEM, que, desta vez, não teve culpa nenhuma. A Ermelinda atrapalhou-se com as teclas do telemóvel, e o número de emergência saiu de viés. Pobres dedos, que tudo tentaram até acabar a bateria. Ouviram-na gritar os vizinhos, no sossego da noite alentejana. O Manel chegou primeiro. Pudera: um rapaz que ainda não chegara aos setenta, capaz de galgar montes e valados, percorreu a distância batendo recordes que ninguém conhece. Vitorino chegou depois: quatrocentos metros não são cem, nem setenta e cinco anos são sessenta e cinco. Feitas as contas, o Floriano apagou-se logo ali, e só não se fez o funeral porque faltava o Doutor para assinar a declaração de finado. O velório, esse, começou com vizinhos a chegarem de todas as direções. Quando a ambulância partiu, os homens ficaram conversando na rua. Na casa, as mulheres fizeram um círculo à volta da viúva e assim se quedaram até de madrugada.

Os funerais são todos iguais. Assim pensa o Vitorino, que detesta choradeiras. A sorte é que o café do Hermínio está aberto, e já por lá anda a malta do copito. Hoje não vai abusar: há que ter respeito por quem abala mais cedo, mesmo que falte ao nosso enterro. Quando atravessar o portão do cemitério, vai benzer-se, não vá o diabo tecê-las.

Vitorino chegou a casa e despiu a farda dos mortos. Tem muito que fazer, e nunca se sabe quando chega a nossa hora. Era uma desfeita sem perdão deixar os animais sem água e comida.

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