domingo, 16 de agosto de 2026

Um banho de água quente

 Um banho de água quente

O sol nasce a oriente e entra-lhe no quarto pela janela mal fechada, mas não é ele que acorda o David. Todos os dias, essa proeza é pertença de um objecto que tem estatuto de indizível importância: o telemóvel. Já pouca gente se lembra de um despertador analógico tradicional. É este o caso de David, que tem vinte cinco anos e é filho deste século. Filho de um mundo que rende homenagem aos algoritmos, ainda depende de pequenos prazeres para se sentir disponível para um dia que acabou de nascer. Um deles é um banho de água quente. David não gosta de tomar banho de água fria e não imagina o mundo sem água quente. Quando a avó lhe conta histórias desses tempos, ele olha para ela como se estivesse perante alguém vindo de um passado distante e inconcebível. A água quente é um direito que vem com o cartão de cidadão e deve ser usufruído sem problemas de consciência perfeitamente inúteis, ainda para mais no começo de um novo dia de trabalho. Esta é uma convicção, que em si é inabalável. David gosta de levar o despertar ao limite da sua utilização e desliga-o por diversas vezes, até se render à inevitabilidade da ditadura horária. Consegue chegar até à casa-de-banho sem abrir os olhos, feito que aperfeiçoou desde os tempos de estudante. O primeiro olho a abrir é sempre o esquerdo, não por alguma razão especial, mas apenas pelo reflexo biológico do seu corpo se manifestar desta forma. A água que corre na torneira do lavatório funciona como complemento do despertador. Só agora se encontra em condições de entrar no chuveiro. A roupa ficou pelo caminho. Irá ser a mãe, sentada à sua frente na mesa da cozinha, que o irá lembrar do seu lugar na hierarquia familiar. Por enquanto, o tempo é de deixar a água quente escorrer pelo corpo maltratado por uma devassa nocturna que lhe é habitual aos fins de semana. Este é um momento de renascimento que ele prolonga até ouvir um berro da mãe. Só nessa altura o corpo é ensaboado. O banho acaba com um último aviso da mãe, cuja paciência é levada ao limite. De nada lhe têm servido os alertas financeiros, que identificam os perigos económicos de um banho prolongado. O que é que há de fazer, agora que o filho ajuda, com o salário mínimo, para as contas da casa? Vive sozinha com ele e o João, que ainda está a estudar e tem quinze anos. Sim, o filho merecia cada gota daquele banho. O que seria deles sem aquela rotina? Enquanto puderem usufruir de um banho quente, podem dar-se por satisfeitos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Estória de uma banalidade útil

 Estória de uma banalidade útil

Sou inventor de estórias avulsas. Como tal, afirmo a minha autoria na estória que se segue.

Era uma vez uma mulher. Ainda não tinha quarenta anos, mas andava perto de atingir esse limite simbólico. Não sentia a idade no corpo; no entanto, o espelho causava-lhe calafrios. As imagens reflectidas contavam uma versão da sua vida que ela preferia não recordar. Ainda era uma mulher bonita e com as carnes no sítio, e isso bastava no que à imagem dizia respeito. Quem a quisesse conhecer teria de lhe entender a alma. Mãe solteira do primeiro filho e mãe divorciada do segundo, tornara-se uma mãe independente. Tinha dois homens na sua vida: o seu pai e o filho mais velho. Do primeiro, recebia um apoio incondicional, isento de recriminações. Do filho, o suporte maduro de quem foi obrigado a crescer depressa. Vivia do dinheiro obtido da força dos seus braços e acumulava serviços para comprar o essencial. A sua concepção de essencial reduzia-se ao bem-estar dos filhos. Para si, bastavam os sorrisos de genuíno reconhecimento do seu esforço.

A Ana, hoje, saiu mais cedo de uma das casas onde trabalha a dias. Tem a pressa de outros dias. Irá passar na farmácia para levantar uma encomenda. Tem um aperto no peito que não a deixa respirar, mas caminha com a firmeza que conhece. Mulher de poucas palavras, irá dizer ao que vem. Quando sair à porta, deixará escorrer uma lágrima rebelde. Dessa rebeldia percebe ela, calejada que está do seu sal. O prédio onde alugou um pequeno apartamento fica num ponto alto da cidade. Aquele último andar, com o elevador avariado, era um suplício desnecessário na sua vida sofrida, mas hoje não parecia tão duro, fenómeno facilmente explicado por conta da relatividade das situações. Antes de abrir a porta de casa, enxugou os olhos da humidade rebelde que teimava em persistir. Quem a veio receber foi o filho, que a cumprimentou com dois beijos na cara, percebendo de imediato a tristeza da sua mãe. Antes que ela tivesse tempo de o questionar, ele disse: a mana está a dormir. Ela demorou algum tempo a processar a informação, como se duvidasse do filho. Por fim, perguntou: Teve dores? O filho informou-a com um tom de quem sabe das rotinas: Depois da medicação, acalmaram, e ela conseguiu adormecer. Um pouco mais aliviada, dirigiu-se à porta do quarto da sua filha e abriu-a com cuidado para não a acordar. Esse cuidado não foi suficiente para manter o sono da pequena Luísa. Abrindo os olhos devagar, perguntou: Mãe, trouxeste os óculos? Ao que ela respondeu: Sim, Luisinha, estão na minha mala. Hoje era dia de eclipse; a doença podia esperar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um lugar por visitar

A linha do horizonte une dois planos. O que se estende diante de mim é aquoso. O outro cobre um espaço acima e morre onde o primeiro termina. Eu gosto de me imaginar viajante. Descobridor de linhas impossíveis, navego urgências sem resolução. Assinalo, nas cartas marítimas, as improbidades de regresso. Por aí me deixo ficar até que a saudade se lembre de mim.

Das minhas viagens ficam sempre lugares por visitar. Não consigo articular o seu nome, nem gravar a ilusão da sua existência. Eles escondem-se por detrás daquela linha divisória. O seu momento não depende de mim, mas só ganha expressão com a minha ausência. Nos meus regressos trago relatos do que poderia ter encontrado.

Sentado numa cadeira abstrata, derramo os meus braços moles no tampo de uma mesa casual. A folha absorve contornos semelhantes a letras de um alfabeto desconhecido. Por lá se desdobram relatos que não devem ser lidos. Tombo a cabeça sobre o ombro e, dos ouvidos, caem sons de paragens longínquas. Cascatas vertem imagens em braille onde os meus dedos se encontram.

Nas minhas mãos tenho linhas de horizonte. Nas palmas, onde repousam, podem ser oblíquas ou ostensivamente verticais; tudo depende do eixo que me sustenta. Poderia desenhar, no espaço que deixam ao passar, os lugares que me ocultaram, mas não seria eu se assim procedesse.

As velas da minha nau estão enfunadas por ventos que sopram dentro de mim. Caravelas dobram cabos e vergonhas. Sou ilustre marinheiro porque me bati contra o mar. É essa a minha riqueza: a solidão do horizonte tatuada no meu ombro. A ilha do meu tesouro tem cicatrizes nas rochas à beira-mar.

Um lugar por visitar pode ser um luar numa terra distante ou um pôr do sol inventado. Posso ser eu, sem destino, alucinando acordar em planetas diversos. Pode ser a cor do mar numa hora diferente ou um céu de alvura indiferente olhado de outra maneira.

É este o mistério de quem tem lugares por visitar.

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...