Um lugar por visitar
A linha do horizonte une dois planos. O que se estende diante de mim é aquoso. O outro cobre um espaço acima e morre onde o primeiro termina. Eu gosto de me imaginar viajante. Descobridor de linhas impossíveis, navego urgências sem resolução. Assinalo, nas cartas marítimas, as improbidades de regresso. Por aí me deixo ficar até que a saudade se lembre de mim.
Das minhas viagens ficam sempre lugares por visitar. Não
consigo articular o seu nome, nem gravar a ilusão da sua existência. Eles
escondem-se por detrás daquela linha divisória. O seu momento não depende de
mim, mas só ganha expressão com a minha ausência. Nos meus regressos trago
relatos do que poderia ter encontrado.
Sentado numa cadeira abstrata, derramo os meus braços moles no
tampo de uma mesa casual. A folha absorve contornos semelhantes a letras de um
alfabeto desconhecido. Por lá se desdobram relatos que não devem ser lidos.
Tombo a cabeça sobre o ombro e, dos ouvidos, caem sons de paragens longínquas.
Cascatas vertem imagens em braille onde os meus dedos se encontram.
Nas minhas mãos tenho linhas de horizonte. Nas palmas, onde
repousam, podem ser oblíquas ou ostensivamente verticais; tudo depende do eixo
que me sustenta. Poderia desenhar, no espaço que deixam ao passar, os lugares
que me ocultaram, mas não seria eu se assim procedesse.
As velas da minha nau estão enfunadas por ventos que sopram
dentro de mim. Caravelas dobram cabos e vergonhas. Sou ilustre marinheiro porque
me bati contra o mar. É essa a minha riqueza: a solidão do horizonte tatuada no
meu ombro. A ilha do meu tesouro tem cicatrizes nas rochas à beira-mar.
Um lugar por visitar pode ser um luar numa terra distante ou um
pôr do sol inventado. Posso ser eu, sem destino, alucinando acordar em planetas
diversos. Pode ser a cor do mar numa hora diferente ou um céu de alvura
indiferente olhado de outra maneira.
É este o mistério de quem tem lugares por visitar.
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