sábado, 12 de agosto de 2023

OS OLHOS DO GATO III

Sob a estrutura metálica o animal observa o feixe de luz. No seu olhar a curiosidade e o receio misturam-se. O seu corpo, totalmente imóvel, apresenta a postura de uma estátua decorativa. Para além do zumbido metálico omnipresente ouvem-se esparsos estalidos vindos dos escombros amontoados no interior dos edifícios em redor. No meio da aparente ausência de vida estes sons são testemunho da existência clandestina, raramente visível, de seres menores habituados a ocupar a obscuridade do mundo. Entretanto, o deslizar corpóreo de uma silhueta nocturna percorre o céu em círculos de epicentro indefinido. A imobilidade do animal é finalmente quebrada. Saído de uma reentrância na parede de um dos edifícios, o animal felino, agora revelado na sua plenitude, avança silencioso em direção ao feixe de luz. Cuidadosamente, circunda o circulo luminoso desenhado no chão até que se imobiliza sentando-se junto dele e permanecendo na penumbra. Experimenta-o, à vez, com ambas as patas dianteiras, retirando-as de imediato e aguardando expectante pelo efeito provocado. Parecendo satisfeito com o resultado ergue-se e penetra totalmente no circulo luminoso, deixando-se banhar pela luz o que o leva a cerrar os olhos ao mesmo tempo que cessa o movimento. Após esse breve momento de hesitação abre os olhos e percorre o interior do circulo até se imobilizar no seu centro. Senta-se, e ai permanece numa pose natural de felino satisfeito. Lá no alto, por cima dos mais altos edifícios da cidade, algo se agita. Da janela do meu quarto observo a silhueta da mulher que permanece aparentemente imóvel. Num repente apercebo-lhe um ligeiro movimento de cabeça que não consigo confirmar. Nos meus ouvidos uma frase não ouvida, aparentemente sugerida, traduz-se em qualquer coisa de perceptível...é agora...rápido minha guardiã alada...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

sábado, 5 de agosto de 2023

OS OLHOS DO GATO II

 Por entre os escombros da cidade vazia a sombra furtiva procura uma vítima. O raio de luz atrai a presa e o predador. Na noite, um zumbido eléctrico embala o ar tépido. A presa aproxima-se lentamente do circulo luminoso traçado no chão. Pequenos objectos mecânicos dispersam os seus fragmentos ao acaso. A integridade comprometida não reage, inanimada que é, rende-se ao ser vivo que caminha entre as suas partes. Um emaranhado de cabos pende de uma janela vizinha derramando-se pelo chão. Pressente-se neles uma ligeira vibração. De pelo negro, a figura animalesca funde-se na noite, atenta aos sinais de perigo. Do seu focinho saem pequenas antenas que procuram no ar a dimensão de todas as coisas. O seu movimento não provoca o mais pequeno ruído e funde-se na essência dimensional do que existe. A sua pequena cabeça surge por detrás de uma esquina gerando uma sombra que se funde na parede, provocando a ilusão de estarmos na presença de uma única entidade, simbiose perfeita entre a matéria viva e a matéria inanimada. Lá em cima, outro ser se dilui na escuridão. Dele apenas a presunção de movimento, a ligeira deslocação do ar camuflada de brisa nocturna. A vida esconde-se no meio do caos silencioso e da destruição consumada. O acto fica registado na memória do observador que no entanto nada viu para além da silhueta da janela. A negra figura permanece imóvel obrigando-me a suspender a respiração. Quanto tempo poderei aguentar suspenso no tempo, preso na teia da imobilidade visualizada? Entretanto a cabeça do felino mantém-se estática e eu, tal como ele, perfilo-me em estátua tentando-me invisível. 

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...