sábado, 30 de abril de 2022

CICLO II (Linear)

 

Miguel está reformado há dois anos e ainda não se habituou às novas rotinas. Os primeiros meses passaram como uma agradável disrupção perante uma rotina que o ocupava, mas mantinha infeliz. Os últimos anos tinham-lhe arruinado o casamento levando-o a um divórcio sem traições mas com muitos ressentimentos. Das partilhas amigáveis ficou com o suficiente para o ajudar na compra de um pequeno apartamento, em segunda mão, no centro da cidade. A filha, com vida feita e curso acabado, decidiu emigrar e divide as duas semanas que passa em Portugal entre a praia, Lisboa e a casa da mãe. Para ele sobram dois dias, dois dias para despedidas ou para algum pedido de última hora. Têm uma relação cordial, mas a filha nunca lhe perdoou o abandono do casamento e a mãe foi sempre muito mais que uma mãe, enquanto ele, limitou-se a ser um pai. Faltaram as cumplicidades que criam os verdadeiros laços de amizade. Agora, sozinho, arranjou a companhia de um rafeiro que lhe preenche as rotinas em falta. Assim sendo, a vida de Miguel é monótona e solitária. Hoje, em particular, o dia apresenta-se como um longo calvário onde as rotinas se comportam como sedativos ecológicos, atenuadores do espaço e do tempo. Tomou o pequeno-almoço seguindo todas as regras a que se impôs e arrumou a cozinha com um perfecionismo exagerado que quase roça a paranoia. O rafeiro de pelo curto, a única imposição que fez quando o foi buscar ao canil municipal, segue sem trela e ao seu lado. Dir-se-ia que adaptou a personalidade melancólica do dono e que a sua presença nada mais é do que a versão canina do homem. Miguel nunca chegou a dar-lhe um nome. Passou duas semanas remoendo entre nomes absurdamente humanos e nomes estupidamente animais. Ao fim de um mês apercebeu-se que não precisava deles para se fazer entender, no fim de contas o cachorro também não se incomodava com a ausência identificadora, muito embora, e para fins de registo legal, o animal tivesse ficado com o nome de “Cão”. A relação entre estes dois seres não é sustentada em palavras mas sim em afetos silenciosos. Os passeios matinais são expurgações da alma para o dono e alívio para o animal, no entanto, o dia de hoje trouxe algo diferente à rotina de Miguel. Ele não saberá explicar o porquê de ter olhado para a saída daquele prédio amarelo de três andares precisamente no momento em que aquela mulher, extremamente magra, vagamente desalinhada e com uma criança pela mão, descia as escadas vagarosa e de cabeça baixa. Isso ele não saberá explicar assim como o fascínio que esta aparição exerceu sobre ele no momento em que ela levantou a cabeça e a imagem de fragilidade desapareceu por completo. Dir-se-ia que estava na presença de outra pessoa. Até a criança, inicialmente tão submissa, parecia ganhar outra vida. O Miguel não era homem de assombros e muito menos de deixar transparecer as suas emoções perante algo que o deixasse verdadeiramente perturbado mas, esta visão de poder numa mulher aparentemente tão frágil, fez com que permanecesse parado e sem conseguir afastar o olhar. O próprio cachorro, alma gémea do dono, sentou-se e de forma cúmplice uniu-se à contemplação de Miguel. Ficou a observá-las enquanto elas desciam a rua. Mesmo sem as conhecer pessoalmente sabia um pouco da sua vida, devido às conversas que ouvia no café que ambos frequentavam. Eram vidas banais, daquelas que só têm importância para quem as vive. As vizinhas, que viam na história daquela mulher um alívio para as suas próprias desgraças, falavam de toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica, infidelidade, dificuldade em manter um emprego e um sem número de outros problemas que ornamentavam com comentários, algumas vezes abonatórios e muitas vezes acusatórios, numa versão deturpada da justiça Salomónica. Miguel pensava em tudo isto enquanto as via afastarem-se até que, sem uma razão para a qual encontrasse uma explicação, decidiu segui-las. A explicação irá encontra-la mais tarde, quando dela precisar para justificar as suas ações.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Cíclo I (descendente)

 A janela aberta deixa entrar os aromas da primavera. Lá dentro o quarto fede a odores humanos, excreções noturnas, produtos resultantes das reações químicas que mantém a vida. Na cama um corpo nu e desarticulado repousa como um despojo, marionete largada depois de um espetáculo milhentas vezes repetido. Breves espasmos intermitentes emprestam um movimento inusitado ao corpo naufragado nesta serena letargia onde o pensamento é ausência. A porta do quarto abre-se muito lentamente e da fresta escura surge o rosto de uma mulher. Os seus olhos negros percorrem o corpo do homem numa espécie de avaliação. A mulher baixa a cabeça e talvez feche os olhos em resignação. Pudesse o seu cabelo longo deixar antever o gesto e teríamos a confirmação. Certo é que a porta, ainda agora aberta, acaba por se fechar. Pressentem-se passos que se afastam, passos leves de alguém leve ou então de alguém com total controlo sobre a sua leveza. Existem pessoas assim, existem sem existir e mesmo que a sua volumetria as imponha visualmente, acabam por passar totalmente despercebidas. Entretanto o corpo adormecido, como que afetado pela presença fugaz da mulher, começa a despertar. O espreguiçar lento e sofrido é acompanhado de gemidos indecifráveis, lamentos de coisas esquecidas, resquícios de uma noite etilizada. O sol entra radiante pela janela aberta e o chilrear dos pássaros junta-se aos aromas atrás referidos. O homem encontra-se agora sentado na cama. De cabeça baixa e de costas voltadas para a janela pragueja baixinho. Da boca saem-lhe palavras renovadoras, o “foda-se” redentor, o “cona da mãe” como local de refúgio, o “caralhos ma fodam” como penitência para confissões não assumidas e por fim um “puta que pariu a merda da luz” como justificação para a cegueira e a inércia. Sem forças para se levantar procura na memória uma âncora, uma referência que possa servir de ponto de partida, mas os pontos de partida são sempre os mesmos e as chegadas também. A saída do trabalho como momento libertador, a mesa da cervejaria como desculpa, os que chegam e os que partem e ele que fica e resiste. Alguém o leva para uma última ronda e depois o esquecimento, o corpo cansado e sem forças, o enjoo constante, pronuncio de lesões graves no fígado. O homem tem um nome, João. Poderia ser Paulo, Pedro, Tiago, José, mas não, o seu nome é João, João de Jesus Batista. João não batizou Jesus mas levou a sua filha à pia batismal onde lhe concedeu o nome de Maria e Maria, que não ficou Jesus, ficou Batista. Tem também o nome de família da mãe, mas a mãe encontra-se na cozinha a chorar e por respeito vamos deixar a descendente dos Pereira com a sua mágoa, até porque, quando o João entrar na cozinha, já não a encontrará. Aliás poderia afirmar, com grandes hipóteses de acertar, que o ruido seco ainda agora percebido foi provocado pelo fechar cuidadoso de uma porta, mais concretamente a porta da rua. João não tem ouvidos para tamanhas subtilezas. O João tem o estomago azedo, a garganta seca, a cabeça num eco perpétuo e a bexiga cheia que o obriga a uma ida apressada à casa de banho. A trajetória enviesada leva-o a embater nalguns obstáculos inocentes entre os quais se encontram, uma cómoda, uma cadeira e o cesto da roupa, último entrave para o acesso à sanita. O João está nu e num último arremedo de decisão decide aliviar-se dentro da banheira ao mesmo tempo que liga a água quente. O banho foi demorado. Não foi um banho higiénico com pormenores de limpeza dignos desse nome. Foi antes um deixar escorrer a água quente pelo corpo entorpecido, um acordar aquoso, um expurgar de suores. Saiu da banheira e mal se secou. Largou a toalha ao acaso no chão do corredor e dirigiu-se à cozinha. Não estranhou o silêncio, não estranhou a louça por lavar, não reparou no bilhete preso na porta do frigorífico por um íman-Mickey sorridente. Limitou-se a abrir a porta do frigorífico e a retirar do seu interior uma das inúmeras garrafas de cerveja espalhadas por todas as prateleiras. Largou-se numa das cadeiras junto da mesa e aproveitando um talher desarrumado abriu a garrafa levando-a à boca. Despejou-a pela metade e pousou-a com alguma violência, mais provocada pelo desmazelo do que por outro motivo qualquer. Depois debruçou-se sobre a mesa e adormeceu.

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...