sábado, 16 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO V

A ave de rapina levanta voo, carregando consigo, nas garras, dois pequenos objectos redondos. De cada um destes objectos pende um fio. A ave eleva-se no ar por cima dos edifícios mais elevados. No seu voo circular parece procurar algo. O vulto na janela agita-se em convulsões. Como que respondendo a esse frenético movimento, a ave início um movimento descendente em direção à janela onde se encontra o vulto. Da minha janela observo a cena apreensivo. Tento um grito de aviso que me morre na garganta, um aceno de urgência que não se concretiza. Tudo em mim é imobilidade, à excepção do meu olhar. Por duas vezes a ave circunda a janela numa avaliação criteriosa. De repente, um gesto convidativo do vulto provoca a investida da ave que recolhe as asas na sua aproximação ao parapeito. Pouco antes de poisar, larga, à vez, cada um dos objectos redondos na mão da silhueta que parece agradecer-lhe. A ave volta a erguer-se nos ares. Pairando a pouca altitude, parece aguardar instruções. Entretanto, o vulto parece colocar os dois objectos no lugar dos seus olhos. Num primeiro movimento de cabeça parece olhar para mim como se há muito me tivesse pressentido. Sinto-me tentado a ocultar a minha presença por detrás do cortinado, mas desisto dessa intenção quando o vulto, num movimento brusco, se coloca de costas voltadas. Assim permanece durante alguns segundos até que, num repente, começa uma espécie de dança. De braços no ar, agita-os freneticamente, enquanto rodopia o corpo, fazendo-o dobrar de forma pouco natural. "Consigo ver-te. Agora sei quem tu és.". Ouço esta voz e, sem saber porquê, tenho a noção exata da sua origem. Sem abrir a boca sinto que lhe respondo, "Também eu consigo ver-te, mas não sei quem és". Assim como começou, o vulto termina bruscamente a sua dança. Leva as duas mãos ao rosto e lança dois objectos na escuridão. Retoma a sua posição inicial no mesmo instante que a ave de rapina, interrompendo o seu movimente circular, se lança aos céus por cima dos edifícios mais altos. "Procura Ártemis, trás-me um outro olhar, um olhar de criança". Quero ir-me embora e fechar a janela, mas não sou capaz. "...um olhar de criança...de criança...criança". Procuro a ave no céu e espero...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 2 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO IV

 Na penumbra algo se agita. A silhueta furtiva de um corpo alado desloca-se no ar morno da noite deixando um rasto de ausência. Percorre os espaços vazios, deixados pelos prédios abandonados, deslizando silenciosa na direção do feixe de luz. O gato, totalmente iluminado, permanece imóvel. Exibe a sua pose com orgulho felino. Os seus olhos, repletos de luz, revelam-se verdes. Liberto de receios contrai as pupilas até que estas se reduzam a dois riscos negros. A silhueta alada revela-se aos poucos. Dois metros de envergadura suportam um corpo preparado para matar. Num repente, e após uma curva apertada, inicia um voo picado em direção ao gato que permanece inerte. Num último instante mostra as suas garras afiadas que penetram no corpo do felino. Aproveitando o impulso assassino, a água disfere violentas bicadas na cabeça do animal capturado até que este se queda, imóvel, espalhado no chão. Junto dele a águia ergue-se juntando as asas ao corpo. O vulto feminino, que permanece na janela, solta um grito de satisfação. É um grito solitário e que não originou qualquer movimento a quem o soltou. Apenas a ave de rapina reagiu ao apelo e, como que agradecendo, baixou a cabeça por três vezes antes de se debruçar sobre o cadáver do felino. Tento perceber o que se passa, mas sem sucesso. Apercebo-me de que efetua um trabalho minucioso com o seu bico afiado. São gestos delicados que tentam retirar qualquer coisa da cabeça do gato. Ambos permanecem sob o intenso feixe de luz. Não consigo evitar a comparação com uma mesa de operações. A analogia causa-me desconforto pelas memórias que me induziu. Tento libertar-me do sufoco, causado por essas imagens do passado, procurando a silhueta feminina na janela. Sem perceber porquê, visto que ela permanece imóvel, a sua visão revela-se sinistra. Novamente uma frase me é sugerida...o que achas de Ártemis? Incapaz de responder desvio o olhar para a ave de rapina. Novamente levantada,  segura no seu bico um fio com uma pequena bola na ponta.  Olha para mim? Não sei...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...