quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Não me lembro dos meus olhos

Não me lembro dos meus olhos

 

A cidade adormeceu no silêncio típico da província. Há muito que as ruas se encontram desertas. Dormitório de uma zona industrial, tem no descanso a sua maior riqueza, e quem nela vive procura preservar esse sossego. Assim acontece com o Felisberto, trabalhador por turnos numa das empresas da região. Neste momento ele encontra-se em casa a dormir. Teve um longo dia de trabalho e uma boa noite de sono é a única forma de o fazer recuperar. A semana ainda agora começou e já se encontra saturado do serviço. Com o passar dos anos a frustração aumentou, e já não vê qualquer utilidade na sua vida. No outro dia, desfolhando um velho álbum de fotografias, quase não se reconheceu. Desde esse dia que ele tem sentido dificuldades em fazer a barba. O espelho transcendeu a sua utilidade prática, e é hoje um instrumento de tortura psicológica. Mas ainda não chegou a hora desse confronto. Por enquanto debate-se com outros demónios. A noite, outrora uma afável amiga, tornou-se uma parceira insuportável. Foi uma transformação lenta, mas inexorável, até se tornar um martírio. É com contra esses demónios que o Felisberto se bate. Por cinco vezes adormeceu, e por cinco vezes provou o sabor da derrota. Encontra-se neste momento com uma difícil decisão entre mãos. Ou tenta adormecer outra vez, com a certeza da brevidade desse instante, ou aceita a derrota, e vai sentar-se no sofá da sala a ver séries na televisão até de manhã. Infelizmente, tem sido esta a sua rotina nos últimos anos, e teve tendência para piorar desde que a sua última relação amorosa falhou.

Já se sentou no sofá e navega entre as opções dos canais sem tomar uma decisão. Faz um esforço para se recordar de qualquer coisa, mas não consegue lembrar-se de quê. Não é a primeira vez que isto lhe acontece, mas ultimamente estes momentos têm-se repetido com mais frequência. Geralmente este estado de confusão dura alguns minutos e depois passa, mas, desta vez, o momento teima em prolongar-se. Ao fim de uma hora ainda se debate com a memória. Quem olhasse para ele não podia deixar de reparar no terror que transparecia no do seu semblante. Continua sentado, e uma das suas mãos ainda segura o comando da televisão. Os canais sucedem-se no ecrã sem que se descortine a intenção de uma escolha. O movimento surge rápido e inesperado. A mão que segura o comando vai atrás do corpo e, semelhante a um chicote, projecta o objecto que detinha na direcção da parede à sua frente. O comando deixa sair do seu interior duas pilhas e mais algumas peças que se perdem na escuridão da sala. Felisberto esconde o rosto entre as mãos, e deixa-a tombar no seu colo. Chora copiosamente, e soluça em convulsões rápidas e ritmadas. O desespero é evidente e só irá acalmar quando os primeiros raios de sol entrarem pelas frestas da janela. Felisberto olha-se no espelho com estranheza, e pergunta: Quem és tu?

Não me lembro dos meus olhos

Não me lembro dos meus olhos   A cidade adormeceu no silêncio típico da província. Há muito que as ruas se encontram desertas. Dormitóri...