O Relojoeiro

 Marcelino é relojoeiro. Tem estabelecimento montado numa rua escondida da Amadora. Marcelino trata das ferrugens do tempo. É arqueólogo de raridades temporais. Ele dá vida ao testemunho que perdura nas rodas dentadas dos mecanismos alheios. Não falta trabalho a Marcelino que se encontra sempre ocupado a reparar o tempo dos outros. Um de cada vez para não os misturar, para isso já basta o destino. Neste momento está ocupado a reparar um relógio de bolso que pertenceu ao avô de uma cliente. O trabalho está quase concluído e ele encontra-se satisfeito com a sua execução, para além disso irá cumprir o prazo de entrega. Uma velha senhora, quase tão velha quanto ele, entra na loja e dirige-se ao balcão. O espanta-espíritos de bambu assinalou a sua chegada e o relojoeiro veio recebê-la, solícito. A velha senhora tem uns óculos escuros postos e não os retira. O relojoeiro regista esse pormenor e faz uma avaliação rápida da sua cliente. Com um sorriso educado dirige-se à velha senhora e pergunta:

-Em que posso ajudá-la, minha senhora?

A mulher respondeu:

-Preciso dos seus serviços.

Ao que o relojoeiro retorquiu:

-Tem consigo o artefacto que pretende reparar?

A velha senhora respondeu sem hesitar:

- Não é desse serviço que eu necessito.

Então a velha senhora tirou os óculos escuros revelando dois olhos negros. O relojoeiro, sem desviar o olhar, perguntou:

-Podia fazer o favor de me dizer quem lhe falou nos meus serviços?

Ela respondeu que tinha sido uma amiga comum a sugerir o seu nome. De seguida revelou a identidade da amiga comum. O relojoeiro, após um breve silêncio, perguntou:

-Pretende, pelo que eu percebo, um serviço Idêntico?

Ao que a velha senhora respondeu:

-O caso é em tudo igual.

E o relojoeiro respondeu:

-O serviço será efetuado até ao final da semana, só então eu receberei os meus honorários.

A velha senhora despediu-se deixando no balcão a fotografia de um velho senhor. Junto com a fotografia deixou também um papel com uma morada. O relojoeiro pegou na fotografia e no papel, e dirigiu-se à porta da loja encerrando-a. Após virar uma tabuleta desapareceu por uma porta que se encontrava por detrás do balcão. 


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