Não me lembro dos meus olhos
A cidade adormeceu no silêncio
típico da província. Há muito que as ruas se encontram desertas. Dormitório de
uma zona industrial, tem no descanso a sua maior riqueza, e quem nela vive
procura preservar esse sossego. Assim acontece com o Felisberto, trabalhador
por turnos numa das empresas da região. Neste momento ele encontra-se em casa a
dormir. Teve um longo dia de trabalho e uma boa noite de sono é a única forma
de o fazer recuperar. A semana ainda agora começou e já se encontra saturado do
serviço. Com o passar dos anos a frustração aumentou, e já não vê qualquer
utilidade na sua vida. No outro dia, desfolhando um velho álbum de fotografias,
quase não se reconheceu. Desde esse dia que ele tem sentido dificuldades em
fazer a barba. O espelho transcendeu a sua utilidade prática, e é hoje um
instrumento de tortura psicológica. Mas ainda não chegou a hora desse
confronto. Por enquanto debate-se com outros demónios. A noite, outrora uma
afável amiga, tornou-se uma parceira insuportável. Foi uma transformação lenta,
mas inexorável, até se tornar um martírio. É com contra esses demónios que o
Felisberto se bate. Por cinco vezes adormeceu, e por cinco vezes provou o sabor
da derrota. Encontra-se neste momento com uma difícil decisão entre mãos. Ou
tenta adormecer outra vez, com a certeza da brevidade desse instante, ou aceita
a derrota, e vai sentar-se no sofá da sala a ver séries na televisão até de
manhã. Infelizmente, tem sido esta a sua rotina nos últimos anos, e teve
tendência para piorar desde que a sua última relação amorosa falhou.
Já se sentou no sofá e navega
entre as opções dos canais sem tomar uma decisão. Faz um esforço para se
recordar de qualquer coisa, mas não consegue lembrar-se de quê. Não é a
primeira vez que isto lhe acontece, mas ultimamente estes momentos têm-se
repetido com mais frequência. Geralmente este estado de confusão dura alguns
minutos e depois passa, mas, desta vez, o momento teima em prolongar-se. Ao fim
de uma hora ainda se debate com a memória. Quem olhasse para ele não podia deixar
de reparar no terror que transparecia no do seu semblante. Continua sentado, e uma
das suas mãos ainda segura o comando da televisão. Os canais sucedem-se no ecrã
sem que se descortine a intenção de uma escolha. O movimento surge rápido e inesperado.
A mão que segura o comando vai atrás do corpo e, semelhante a um chicote,
projecta o objecto que detinha na direcção da parede à sua frente. O comando deixa
sair do seu interior duas pilhas e mais algumas peças que se perdem na
escuridão da sala. Felisberto esconde o rosto entre as mãos, e deixa-a tombar
no seu colo. Chora copiosamente, e soluça em convulsões rápidas e ritmadas. O desespero
é evidente e só irá acalmar quando os primeiros raios de sol entrarem pelas
frestas da janela. Felisberto olha-se no espelho com estranheza, e pergunta:
Quem és tu?