Postal #1 (O Funeral do Vizinho)
Nos confins da alma, o céu não tem cor. É essa a perceção de Vitorino quando se perde em contemplações interiores, o que é raro acontecer. Costuma dizer, meio a sério, meio a brincar, que não tem tempo para essas coisas. O que ele não diz é que a falta de tempo não é a única razão para se furtar a tais divagações. Outras causas existem para que ele evite esses rios tumultuosos onde a vida está sempre em causa. Assim sendo, os tempos livres são passados a trabalhar na pequena quinta junto de sua casa. É um trabalho solitário e que ele não gosta de partilhar com ninguém. Quando absorve os odores que emanam da terra acabada de lavrar, sente-se em comunhão com o universo, e é o mais próximo que consegue estar do Criador. Para ele basta-lhe o mundo visível, e tudo o que não consegue tocar é porque assim deve permanecer. Mas hoje é diferente. A morte, que sempre ceifou longe, começou a levar trigo das searas vizinhas. Hoje, o trigo tem outro nome. O Floriano tinha apenas setenta e dois ano...