O Relojoeiro II
Do outro lado da porta, a casa prolongava a loja como se fosse o seu avesso. Ali o ar era mais frio e cheirava a verniz antigo, óleo fino e madeira encerrada há demasiado tempo. Marcelino acendeu um candeeiro de mesa com abat-jour verde, pousou a fotografia junto de um torno de precisão e abriu o papel dobrado com a morada. Leu-a duas vezes, não por desconfiança, mas por respeito. Havia nomes e ruas que exigiam uma segunda leitura, como se só à segunda vez consentissem em existir. A oficina das traseiras não recebia clientes. Era um compartimento estreito, sem janelas, onde os relógios que não pertenciam inteiramente a este mundo repousavam em gavetas baixas, etiquetados por datas, iniciais ou pequenos sinais que só ele compreendia. Sobre a bancada, alinhavam-se pinças, lupas, molas, chaves minúsculas e três caixas de metal sem inscrição. Marcelino tirou o colete, arregaçou as mangas e ficou por instantes imóvel diante da fotografia do velho senhor, como um médico que escuta um silên...