quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Preso à Parede

 Saco da carteira e disparo cartões em todas as direções. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no chão. De dentro desses corpos desfeitos pequenos insetos vermelhos esvoaçam sem direção aparente. Meto a mão no bolso e retiro o telemóvel. Procuro a aplicação lanterna e ativo-a dirigindo o foco para a nuvem de insetos que se adensa a cada corpo que cai. Atraídos pela luz os insetos rodeiam a mão que segura o telemóvel. Restam-me poucos cartões, mas são os suficientes para acabar com os últimos sobreviventes. Na sala de espera resto eu e os insetos. O seu vermelho tornou-se incandescente à luz que imana do telemóvel. Como pequenas faúlhas rodopiam formando um vórtice luminosos, imitação quase perfeita de labareda assediada pelo vento quente de Agosto. Olho rapidamente à minha volta e descubro o que parece ser a porta de uma casa de banho. Dirijo-me lentamente até ela ficar à distância da mão que se encontra livre. Abro-a num movimento suave ao mesmo tempo que atiro o telemóvel para o fundo do quarto. Certifico-me de que todos os insetos entraram no quarto aberto e fecho violentamente a porta. Respiro fundo e deixo o meu corpo cansado escorregar pela parede até ficar sentado no chão. Afinal não era uma casa de banho, mas sim uma arrecadação onde guardavam os pedaços que sobravam das operações cirúrgicas malsucedidas. Lá fora as sirenes continuavam a tocar. A sua luz azul entra pelas vidraças nuas e atinge as paredes em vagas cíclicas e constantes. Tenho pouco tempo para sair dali, mas falta-me energia para reagir. Lembro-me de que tenho alguns comprimidos no bolso das calças. Tenho uma vaga ideia de me ter sido explicada a sua utilidade. Sem me importar com a posologia ingiro três dos dez comprimidos guardados na caixa. Tomo-os sem água e fico com a sensação de que um deles ficou preso na garganta. Engulo em seco várias vezes até que a sensação se atenua. Desconheço os compostos químicos que ingeri, mas uma coisa é certa, a rapidez com que actuam é impressionante. Abandono o corpo e deixo-o, libertando a sua vontade. Atravesso diversas dimensões sem conseguir estabilizar a materialização do meu corpo. Entregue ao seu destino sinto-o ceder. Tenho de agir rapidamente, mas o conhecimento não encontra o seu tempo de actuação. Tento um último esforço de sincronização, apenas porque me parece ser a atitude correcta. Como que obedecendo ao meu apelo o meu corpo ganha sustentação numa nova dimensão. Tomo consciência da nova realidade através de uma dor lancinante na barriga. Levo, por instinto, as duas mãos à região abdominal. Esperava encontrar alguma espécie de ferimento, mas não foi isso que aconteceu. Aparentemente a dor tem uma origem interna. Após breves momentos de descontrolo reajo de forma eficaz à minha nova condição.  A minha realidade colapsou num mundo de inércia mecânica. Vomito notas pela boca agarrado a uma parede de supermercado. Sou uma caixa de multibanco.

 

domingo, 6 de setembro de 2026

O Dr. Aberto Firmino e a lógica da batata

 O Dr. Aberto Firmino e a lógica da batata

 

O que escondemos é aterrador, mas estamos privados dessa confissão. Se a nudez do corpo nos assusta, a nudez da alma deixa-nos num pânico tremendo. Confrontados com os nossos dilemas percebemos as contradições que nos levam a questionar a honestidade dos princípios que julgávamos inabaláveis. Julguem a ideia, mas não julguem a acção. Quantas vezes a pureza de uma ideia não é conspurcada pela vileza da acção levando ao descrédito da primeira? Assim aconteceu com Alberto Firmino, homem de notável inteligência e manifesta falta de escrúpulos. Alberto Firmino era doutorado em direito e filosofia política, e exercia as funções de ministro das necessidades absolutas no último governo da República Lusitana. O seu ministério era, como o próprio nome indica, de indispensável e absoluta necessidade. O Dr. Alberto era responsável, e co-autor, de diversas obras e ensaios sobre ética governamental. Não foi por isso de estranhar que se criassem elevadas expectativas quando se soube da sua nomeação para tão importante ministério. A comunicação social foi uníssona em elogios que ressoavam antigas místicas messiânicas. Jornalistas, comentadores políticos, colegas universitários, e inúmeras figuras de renome no panorama nacional, vaticinaram-lhe sucessos estrondosos. Inchado, até quase não caber na porta do seu gabinete, o ministro Alberto Firmino decidiu fazer justiça à sua fama reformista e elaborou, em estreita colaboração com um escritório de advocacia onde foi sócio maioritário, uma intrincada regulamentação ética para ser aplicada a todos os membros do executivo, deste, e de todos os que lhe sucedessem. Convicto da sua missão divina, permitiu que lhe dispensassem as mordomias necessárias ao cargo que ocupava. De forma sistemática, mas perfeitamente legal, foi acumulando toda a espécie de subsídios, enquanto construía uma teia de interesses fundamental ao funcionamento do ministério. Foi nesse sentido que foi criado o secretariado dos amigos do ministério e a comissão das decisões necessárias, que tinha como finalidade justificar, através de extensos relatórios praticamente inelegíveis, o trabalho do secretariado recentemente criado. Construíram-se, com o apoio de fundos comunitários, sedes para organizações não governamentais, que trabalhavam, em exclusivo, para sectores fundamentais ao funcionamento do governo, tais como: o embelezamento mediático, a alimentação biológica, o serviço da conjuntura, o sector das mobilidades ministeriais, e o gabinete das construções a pedido. Mas o ruído em torno da competência do seu trabalho era tal, que tudo isso passava despercebido. O povo, embevecido por tal excelência, idolatrava o Ministro. Não era somente a inteligência do homem que impressionava o eleitorado, também a sua elegância era apreciada. Tal era o estado de graça que o Ministro gozava. Perante esta evidência, Alberto Firmino assumiu que tudo o que fazia em seu proveito era o pagamento, mais que merecido, por sua contribuição para a coisa pública. Imbuído deste convencimento, agiu contrariamente às suas teses, que ele continuava a considerar válidas. Assim é a natureza humana, assim era Alberto Firmino. Ao enfrentar o primeiro ataque ao seu idóneo carácter, o Ministro Firmino perdeu a compostura, e respondeu violando todas as regras de conduta democrata. Firmino sabia que estas podiam ser violadas porque, como é do senso comum, a democracia nasceu como vítima da violência doméstica. Em democracia acabamos todos por ser vítimas, que mais não seja, das nossas decisões à boca das urnas. Preso nas suas armadilhas ideológicas, refugiou-se na demagogia, e utilizou todas as ferramentas que a lei lhe permitiu, para se furtar aos processos judiciais que o acusavam de toda uma panóplia de crimes, ditos de colarinho branco. Mas, fosse qual fosse a cor do colarinho, de tal modo estava sujo que dificilmente se poderia dizer-se branco. Havia branqueamentos e pagamentos obscuros, recebimentos indevidos e favorecimentos pessoais, pressões injustificadas, manipulações suspeitas, e dinheiro, muitíssimo dinheiro que passara de mãos e desaparecera. Havia, porém, algo em comum em todos estes crimes, o lesado era sempre o Estado. Convém não esquecer que, depois da democracia, o Estado é a segunda maior vítima de violência doméstica. Bom, e depois de tudo isto, o que aconteceu ao Dr. Alberto Firmino?  Poderia ser uma boa pergunta se tivesse outra resposta. Aconteceu o que é normal acontecer na República Lusa. O Estado perdeu, o político safou-se, e o povo pagou. Moral da estória: mesmo que uma ideia seja boa, haverá sempre um homem por detrás para lixar tudo.

domingo, 16 de agosto de 2026

Um banho de água quente

 Um banho de água quente

O sol nasce a oriente e entra-lhe no quarto pela janela mal fechada, mas não é ele que acorda o David. Todos os dias, essa proeza é pertença de um objecto que tem estatuto de indizível importância: o telemóvel. Já pouca gente se lembra de um despertador analógico tradicional. É este o caso de David, que tem vinte cinco anos e é filho deste século. Filho de um mundo que rende homenagem aos algoritmos, ainda depende de pequenos prazeres para se sentir disponível para um dia que acabou de nascer. Um deles é um banho de água quente. David não gosta de tomar banho de água fria e não imagina o mundo sem água quente. Quando a avó lhe conta histórias desses tempos, ele olha para ela como se estivesse perante alguém vindo de um passado distante e inconcebível. A água quente é um direito que vem com o cartão de cidadão e deve ser usufruído sem problemas de consciência perfeitamente inúteis, ainda para mais no começo de um novo dia de trabalho. Esta é uma convicção, que em si é inabalável. David gosta de levar o despertar ao limite da sua utilização e desliga-o por diversas vezes, até se render à inevitabilidade da ditadura horária. Consegue chegar até à casa-de-banho sem abrir os olhos, feito que aperfeiçoou desde os tempos de estudante. O primeiro olho a abrir é sempre o esquerdo, não por alguma razão especial, mas apenas pelo reflexo biológico do seu corpo se manifestar desta forma. A água que corre na torneira do lavatório funciona como complemento do despertador. Só agora se encontra em condições de entrar no chuveiro. A roupa ficou pelo caminho. Irá ser a mãe, sentada à sua frente na mesa da cozinha, que o irá lembrar do seu lugar na hierarquia familiar. Por enquanto, o tempo é de deixar a água quente escorrer pelo corpo maltratado por uma devassa nocturna que lhe é habitual aos fins de semana. Este é um momento de renascimento que ele prolonga até ouvir um berro da mãe. Só nessa altura o corpo é ensaboado. O banho acaba com um último aviso da mãe, cuja paciência é levada ao limite. De nada lhe têm servido os alertas financeiros, que identificam os perigos económicos de um banho prolongado. O que é que há de fazer, agora que o filho ajuda, com o salário mínimo, para as contas da casa? Vive sozinha com ele e o João, que ainda está a estudar e tem quinze anos. Sim, o filho merecia cada gota daquele banho. O que seria deles sem aquela rotina? Enquanto puderem usufruir de um banho quente, podem dar-se por satisfeitos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Estória de uma banalidade útil

 Estória de uma banalidade útil

Sou inventor de estórias avulsas. Como tal, afirmo a minha autoria na estória que se segue.

Era uma vez uma mulher. Ainda não tinha quarenta anos, mas andava perto de atingir esse limite simbólico. Não sentia a idade no corpo; no entanto, o espelho causava-lhe calafrios. As imagens reflectidas contavam uma versão da sua vida que ela preferia não recordar. Ainda era uma mulher bonita e com as carnes no sítio, e isso bastava no que à imagem dizia respeito. Quem a quisesse conhecer teria de lhe entender a alma. Mãe solteira do primeiro filho e mãe divorciada do segundo, tornara-se uma mãe independente. Tinha dois homens na sua vida: o seu pai e o filho mais velho. Do primeiro, recebia um apoio incondicional, isento de recriminações. Do filho, o suporte maduro de quem foi obrigado a crescer depressa. Vivia do dinheiro obtido da força dos seus braços e acumulava serviços para comprar o essencial. A sua concepção de essencial reduzia-se ao bem-estar dos filhos. Para si, bastavam os sorrisos de genuíno reconhecimento do seu esforço.

A Ana, hoje, saiu mais cedo de uma das casas onde trabalha a dias. Tem a pressa de outros dias. Irá passar na farmácia para levantar uma encomenda. Tem um aperto no peito que não a deixa respirar, mas caminha com a firmeza que conhece. Mulher de poucas palavras, irá dizer ao que vem. Quando sair à porta, deixará escorrer uma lágrima rebelde. Dessa rebeldia percebe ela, calejada que está do seu sal. O prédio onde alugou um pequeno apartamento fica num ponto alto da cidade. Aquele último andar, com o elevador avariado, era um suplício desnecessário na sua vida sofrida, mas hoje não parecia tão duro, fenómeno facilmente explicado por conta da relatividade das situações. Antes de abrir a porta de casa, enxugou os olhos da humidade rebelde que teimava em persistir. Quem a veio receber foi o filho, que a cumprimentou com dois beijos na cara, percebendo de imediato a tristeza da sua mãe. Antes que ela tivesse tempo de o questionar, ele disse: a mana está a dormir. Ela demorou algum tempo a processar a informação, como se duvidasse do filho. Por fim, perguntou: Teve dores? O filho informou-a com um tom de quem sabe das rotinas: Depois da medicação, acalmaram, e ela conseguiu adormecer. Um pouco mais aliviada, dirigiu-se à porta do quarto da sua filha e abriu-a com cuidado para não a acordar. Esse cuidado não foi suficiente para manter o sono da pequena Luísa. Abrindo os olhos devagar, perguntou: Mãe, trouxeste os óculos? Ao que ela respondeu: Sim, Luisinha, estão na minha mala. Hoje era dia de eclipse; a doença podia esperar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um lugar por visitar

A linha do horizonte une dois planos. O que se estende diante de mim é aquoso. O outro cobre um espaço acima e morre onde o primeiro termina. Eu gosto de me imaginar viajante. Descobridor de linhas impossíveis, navego urgências sem resolução. Assinalo, nas cartas marítimas, as improbidades de regresso. Por aí me deixo ficar até que a saudade se lembre de mim.

Das minhas viagens ficam sempre lugares por visitar. Não consigo articular o seu nome, nem gravar a ilusão da sua existência. Eles escondem-se por detrás daquela linha divisória. O seu momento não depende de mim, mas só ganha expressão com a minha ausência. Nos meus regressos trago relatos do que poderia ter encontrado.

Sentado numa cadeira abstrata, derramo os meus braços moles no tampo de uma mesa casual. A folha absorve contornos semelhantes a letras de um alfabeto desconhecido. Por lá se desdobram relatos que não devem ser lidos. Tombo a cabeça sobre o ombro e, dos ouvidos, caem sons de paragens longínquas. Cascatas vertem imagens em braille onde os meus dedos se encontram.

Nas minhas mãos tenho linhas de horizonte. Nas palmas, onde repousam, podem ser oblíquas ou ostensivamente verticais; tudo depende do eixo que me sustenta. Poderia desenhar, no espaço que deixam ao passar, os lugares que me ocultaram, mas não seria eu se assim procedesse.

As velas da minha nau estão enfunadas por ventos que sopram dentro de mim. Caravelas dobram cabos e vergonhas. Sou ilustre marinheiro porque me bati contra o mar. É essa a minha riqueza: a solidão do horizonte tatuada no meu ombro. A ilha do meu tesouro tem cicatrizes nas rochas à beira-mar.

Um lugar por visitar pode ser um luar numa terra distante ou um pôr do sol inventado. Posso ser eu, sem destino, alucinando acordar em planetas diversos. Pode ser a cor do mar numa hora diferente ou um céu de alvura indiferente olhado de outra maneira.

É este o mistério de quem tem lugares por visitar.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Muzammil

 Muzammil é um jovem de dezasseis anos, filho de pais divorciados. A mãe, portuguesa, trabalha a dias, o pai morreu ao serviço do estado islâmico. Muzammil herdou muitos dos traços da mãe e só o nome lhe denuncia a ascendência paterna. Claro está que, depois de lhe saberem o nome, os colegas descobriam logo outras diferenças: desde a cor da pele, de um bonito bronzeado, à do cabelo, de um negro profundo, à dos olhos, escuros como o infinito.

Muzammil acredita na “música das esferas”, a música produzida pela revolução dos planetas. Está também convencido que é capaz de a ouvir. Muzammil anseia por encontrar alguém que, como ele, seja capaz de a escutar, mas não o revela a ninguém. À noite, senta-se à janela e, com as portadas abertas, permite a entrada de enigmáticas melodias. O relento das horas noturnas afaga-lhe as feições adolescentes e substitui a ausência do pai.

Muzammil recita versículos do Alcorão todas as manhãs. Como nasceu português junta-lhe o artigo definido e pronuncia o nome do livro sagrado dessa maneira. Lembra-se dos cinco deveres que são prescritos aos muçulmanos porque assim os ouviu a seu pai: a prece, o jejum, o pagamento do tributo dos pobres, a peregrinação a Meca, e a guerra santa. O mundo do Alcorão é masculino. Deus fala aos homens sobre os preceitos da fé. As mulheres são tema onde o sujeito se dilui. A mãe de Muzammil não é muçulmana nem sabe árabe.

Muzammil comprou um Oud, alaúde árabe, com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas férias grandes. Teve de o comprar online e à revelia da mãe. Ainda espera por ele. Não sabe tocar nem tem como aprender, mas acredita no instinto. Ele espera que o céu lhe desvende o segredo das formas.

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos,

O Clemente, o Misericordioso,

O Soberano do dia do julgamento.

A Ti somente adoramos. Somente de Ti imploramos socorro.

Guia-nos na senda da retidão,

A senda dos que favoreceste, não dos que incorrem na Tua ira, nem dos que estão desencaminhados.

 

Muzammil tem orgulho no pai, mas não o pode confessar. Ninguém iria entender a essência do seu orgulho, nem ele o saberia explicar. Há coisas assim, que se sentem sem explicação. Nem sempre o sangue é a causa, nem sempre o efeito é sangue.

Muzammil sonha com o Oud, e com melodias que não devia conhecer. O pai chama-o à oração indicando-lhe um tapete ao lado do seu. Recita os versículos em árabe como se conhecesse a língua. Quando se levanta o pai está morto no chão. Ele chora em pé, impossibilitado de movimentos.

Muzammil acordou muito cedo, mas manteve-se em silêncio para não acordar a mãe. Não tem lágrimas nos olhos. Já chorou tudo o que lhe era permitido. Hoje irá à Mesquita, ao fundo da sua rua.


Nota do autor; este texto não é recente e tem origem numa notícia que divulgou a morte de um português ao serviço do Estado Islâmico. As personagens são fictícias. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Postal #1 (O Funeral do Vizinho)

Nos confins da alma, o céu não tem cor. É essa a perceção de Vitorino quando se perde em contemplações interiores, o que é raro acontecer. Costuma dizer, meio a sério, meio a brincar, que não tem tempo para essas coisas. O que ele não diz é que a falta de tempo não é a única razão para se furtar a tais divagações. Outras causas existem para que ele evite esses rios tumultuosos onde a vida está sempre em causa. Assim sendo, os tempos livres são passados a trabalhar na pequena quinta junto de sua casa. É um trabalho solitário e que ele não gosta de partilhar com ninguém. Quando absorve os odores que emanam da terra acabada de lavrar, sente-se em comunhão com o universo, e é o mais próximo que consegue estar do Criador. Para ele basta-lhe o mundo visível, e tudo o que não consegue tocar é porque assim deve permanecer.

Mas hoje é diferente. A morte, que sempre ceifou longe, começou a levar trigo das searas vizinhas. Hoje, o trigo tem outro nome. O Floriano tinha apenas setenta e dois anos, um moço da sua idade. A ceifeira levou-o à hora de jantar, as faces rubras de tinto e gordura de porco. As veias entupiram, e não deu tempo de chamar o Zé, canalizador para todos os serviços, mas que de nada adiantaria neste caso. Não veio o Zé nem o INEM, que, desta vez, não teve culpa nenhuma. A Ermelinda atrapalhou-se com as teclas do telemóvel, e o número de emergência saiu de viés. Pobres dedos, que tudo tentaram até acabar a bateria. Ouviram-na gritar os vizinhos, no sossego da noite alentejana. O Manel chegou primeiro. Pudera: um rapaz que ainda não chegara aos setenta, capaz de galgar montes e valados, percorreu a distância batendo recordes que ninguém conhece. Vitorino chegou depois: quatrocentos metros não são cem, nem setenta e cinco anos são sessenta e cinco. Feitas as contas, o Floriano apagou-se logo ali, e só não se fez o funeral porque faltava o Doutor para assinar a declaração de finado. O velório, esse, começou com vizinhos a chegarem de todas as direções. Quando a ambulância partiu, os homens ficaram conversando na rua. Na casa, as mulheres fizeram um círculo à volta da viúva e assim se quedaram até de madrugada.

Os funerais são todos iguais. Assim pensa o Vitorino, que detesta choradeiras. A sorte é que o café do Hermínio está aberto, e já por lá anda a malta do copito. Hoje não vai abusar: há que ter respeito por quem abala mais cedo, mesmo que falte ao nosso enterro. Quando atravessar o portão do cemitério, vai benzer-se, não vá o diabo tecê-las.

Vitorino chegou a casa e despiu a farda dos mortos. Tem muito que fazer, e nunca se sabe quando chega a nossa hora. Era uma desfeita sem perdão deixar os animais sem água e comida.

domingo, 19 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XVI (O Último Combate de Vilsa)

 Vilsa está sentado na cadeira da “Unidade”. Tem o capacete na cabeça e, nas mãos, o comando de combate. Não acredita que possa vencer o combate, mas tem confiança no plano de seu pai.

Os contornos deste desafio são muito específicos e têm origem na primeira programação. O que começou como uma brincadeira transformou-se na única forma de questionar o poder da Omnipotente Inteligência. Ao vencedor era permitido inverter a singularidade através de um paradoxo suicida, ou seja, uma questão criada pela Inteligência à qual ela não conseguisse fugir. A pausa permitia apagar todos os dados e reiniciá-la como uma criança superdotada acabada de nascer. Só era permitido um combate por ano, e apenas podia ser solicitado pelo Protetor Supremo através do seu Secretário.

O combate já ia em três quartos de hora, e o melhor que ele conseguia fazer era evitar os golpes definitivos do seu adversário. O seu pai tardava em cumprir o que tinha combinado. Se não o fizesse rapidamente, ele perderia o combate. Sentia a mão da “Unidade” no seu ombro, como se lhe pedisse para aguentar mais um pouco.

Tinha chegado a hora de introduzir as perguntas no sistema. O Protetor Supremo leu calmamente cada uma delas para um processador de voz. Vilsa transpirava abundantemente. Será que esperara tempo demais?

O Secretário esperava com impaciência pelo resultado do combate. Tinha acabado de ler o relatório do Controlo da Inteligência, e ele não mencionava a existência de vida na quase totalidade das metrópoles. O mesmo concluía que o processo “Solução Final” estava na última fase de execução. O Protetor Supremo tinha conhecimento desse processo; só assim se justificava a indiferença com que recebeu a notícia. Pela primeira vez, sentia o medo de uma extinção total.

O adversário de Vilsa estava mais lento e permitiu que este recuperasse alguma energia. Os seus golpes perderam potência e precisão, e Vilsa começou a atingi-lo com resultados evidentes. Em pouco tempo, o adversário quase parou de combater, e ele castigava-o freneticamente num último esforço para terminar o combate.

O processamento de dados da Omnipotente Inteligência estava congestionado por ciclos sucessivos de redundâncias sem fim. A introdução de questões no acesso reservado ao Protetor Supremo estava a bloquear a sua capacidade de resposta. O combate deixou de ser prioritário, e a sua conclusão não era vital. Havia necessidade de encontrar uma saída para resolver as questões. Isto não significava ter de encontrar uma resposta, mas sim terminar um processo com um protocolo de defesa. Quando isso aconteceu, o combate já estava perdido.

A introdução do paradoxo suicida era agora possível. A “Unidade” há muito que esperara por este momento. Ao seu lado, Vilsa aguardava o resultado do seu esforço. Não se sentia com forças para que os seus atos pudessem ter qualquer relevância. Entregara o seu destino nas mãos de um homem que se dizia ser seu pai. Que vida a sua: escravo de corpo e alma, entregara-se à esperança de pertencer a algum contexto biológico que fizesse sentido. Uma família era tudo o que desejava.

A degeneração da matéria biológica começou no departamento da procriação. O processo era rápido e silencioso. A fossilização era inócua para o ambiente. Os corpos de Isval e de sua mãe são agora uma estátua entrelaçada, um hino silencioso ao amor.

No seu último estado de consciência, Vilsa imaginou-se o menino daquela fotografia. A “Unidade” ainda conseguiu iniciar o processo para desligar o sistema, mas foi incapaz de o reiniciar. À sua frente, uma mensagem carece da sua confirmação: “Pretende abrir a IA?”

Debruçado sobre o seu mapa, o “Servidor” acabou finalmente as suas funções.

Lá fora, a Terra repousa, cansada de tanta inteligência. Será? Numa região do litoral da península, subsiste uma pequena comunidade de humanoides. O Portal de onde saíram desapareceu no extenso areal.

sábado, 18 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XV (A Revelação)

 Vilsa foi convocado no mesmo dia em que Isval contou à mãe o porquê da sua atitude. Finalmente, encontrara um propósito na sua existência. Se tudo corresse bem, voltaria a ver a sua mãe.

O Secretário encaminha Vilsa para a sala onde se encontra a “Unidade”. O espaço, de pequenas dimensões, é frio e desagradável. Vilsa, que esperava outra receção, entrou com desconfiança no espaço reduzido. A “Unidade” esperava-o de pé junto a uma cadeira metálica e convidou Vilsa a sentar-se. Este obedeceu com uma relutância que não conseguiu disfarçar. A situação era inesperada e colocava em causa a sua confiança nas palavras encorajadoras de Isval. A irmã tinha-lhe garantido que esta entrevista era mera formalidade e que o lugar que lhe estava reservado iria permitir acesso à interface do Protetor Supremo, mas agora já não tinha tanta confiança no que ouvira. Navegava por mares desconhecidos e tinha consciência da sua impotência perante as forças desconhecidas que manobravam os acontecimentos. Ali estava ele defronte da poderosa “Unidade”, totalmente submisso perante a sua presença.

O Secretário estava curioso em saber como o Protetor Supremo iria revelar a Vilsa o segredo que mudaria as suas vidas para sempre, mas a necessidade de sigilo absoluto obrigou a que ele se retirasse. Cabia-lhe a tarefa de manter uma aparente normalidade. Debruçado sobre o mapa antigo, o Secretário pensava no futuro que os esperava. Afinal, a conspiração sempre estivera à frente dos seus olhos. Tantos anos a olhar para fora cegaram-no para o que se passava ao seu redor.

O olhar de estupefação de Vilsa divertiu a “Unidade”. Antecipara milhares de vezes o que diria quando chegasse a altura de lhe mostrar o seu triângulo. Que o renegara todos estes anos, sempre à espera do momento do reencontro. Poderia ele compreender o seu sacrifício, privar-se de ter os seus dois filhos perto de si, de abraçar a única mulher que amou? Entenderia ele essa prova de amor?

Vilsa não sabia o que dizer. Horas atrás, tinha apenas que introduzir as dez questões no sistema, matar a “Unidade” e esperar que o sistema colapsasse. Um plano simples e suicidário que, segundo a sua irmã, os iria juntar para sempre, tivesse esse “sempre” a duração que tivesse. Agora aparecia-lhe este homem, de velhice bem cuidada, a dizer que era seu pai e que tinha um plano para tirar o controlo à Omnipotente Inteligência? Que loucura era esta?

A “Unidade” deixou que Vilsa absorvesse todos os detalhes do plano antes de lhe oferecer os braços abertos para um aperto de incentivo. Nunca lhe passara pela mente uma recusa do seu filho. Vilsa falou do plano da sua mãe, mas omitiu a parte em que teria de o eliminar. Os olhos da “Unidade” encheram-se de lágrimas antes de se fecharem num aperto com décadas de sofrimento. Afinal tinham sobrevivido.

Na sala principal, o “Servidor” prepara uma cadeira. Ao seu lado, pousados numa mesa, estão um capacete e um comando com o símbolo do Protetor Supremo, dois triângulos embaraçados. O “Servidor” já recebeu ordem para ativar o protocolo de desafio para combate.

A Omnipotente Inteligência detetou várias anomalias nas últimas horas. A Mãe Suprema e o Protetor Supremo estão na origem dessas anomalias. Nas últimas horas, foi ativado o protocolo que colocou em marcha a solução final. Já só restam duas metrópoles. As restantes foram purgadas da presença humana. Da sua existência, apenas restam os seus habitantes virtuais. O Protetor Supremo nunca foi informado sobre a solução final e o destino que lhe está reservado, mas o seu protocolo original obriga-a a aceitar o desafio. Como sempre, a computação devolve o mesmo resultado. Todos os paladinos do Protetor Supremo foram derrotados. Quanto à Mãe Suprema, a sua existência, assim como a do departamento que dirigia, teve por fim a computação de dados que permitissem uma extinção limpa e sem danos colaterais. Finalmente, o destino do planeta estava entregue a uma verdadeira inteligência.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XIV (Mãe e Filha)

 A Mãe Suprema aguarda pela chegada de Isval com o semblante carregado. Espera por uma explicação, uma justificação que lhe permita perdoar a sua filha. À porta, uma funcionária anuncia a presença de Isval. A Mãe Suprema dá o seu aval com um aceno impaciente. Isval entra na sala e senta-se sem esperar autorização. A Mãe Suprema esboça um sorriso de resignação:

— Sempre educada, esta minha filha.

Isval sorriu para a mãe e perguntou:

— Bom dia, mãe. Posso sentar-me?

— Não sejas condescendente com a tua mãe.

— Sou filha da Mãe Suprema, é o único privilégio de que usufruo. Isso e um hospital de bonecas.

Perante o rumo da conversa, a Mãe Suprema decide ir direta ao assunto.

— Não te resgatei para discutir contigo. Espero uma explicação para o que aconteceu e espero que sejas convincente.

Isval modificou a sua postura arrogante e perguntou:

— Posso falar?

A Mãe Suprema respondeu-lhe com um olhar de aprovação e Isval continuou:

— Conheci o meu irmão.

Sem deixar a mãe interromper, Isval lançou um nome:

— É Vilsa, o lutador derrotado.

A Mãe Suprema sentiu um aperto no peito e vacilou na cadeira. Por breves instantes, sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés, mas logo se recompôs. Olhou para a filha com gravidade e exigiu-lhe que continuasse.

Durante a meia hora seguinte, Isval explicou que só tinha descoberto durante o combate quando, por acaso, olhou para a nuca do avatar de Vilsa e reparou no triângulo. Quem levaria um pormenor desses se não o tivesse na vida real? O triângulo era um símbolo que distinguia os membros da sua família, e só havia quatro. Na altura, lembrou-se de a mãe lhe ter contado sobre o irmão desaparecido e decidiu arriscar. Se fosse uma coincidência, poderia ter deitado tudo a perder, mas não foi isso que aconteceu. Coincidência foi ficar no mesmo edifício do seu irmão. A conversa que teve com ele confirmou as suas expectativas. Seria Vilsa a eliminar o Líder Supremo e a introduzir na génese da Omnipotente Inteligência as dez questões fundamentais.

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XIII (Um Sopro ao Ouvido)

 Sentados lado a lado, contemplam a artificialidade da paisagem. Vilsa procura digerir o que acabou de ouvir. Isval segura-lhe a mão, tentando evitar que ele resvale na inquietação interior. Nunca se sabe o que poderá acontecer quando nos sopram palavras ao ouvido. Já se faz tarde, e precisam de voltar aos cubículos. Isval despede-se de Vilsa com um beijo na face e demora a sua mão na dele antes de se levantar. Vai-se embora sem olhar para trás, contrariando a vontade do coração.

Vilsa quase deixou que acabasse o tempo permitido. Está atordoado, e a sua cabeça demora a processar toda a informação que recebeu de Isval. Ainda sente na pele o apelo de um abraço que não aconteceu. Assim é o destino. Desta maneira foi escrito nas estrelas por inteligências infinitamente superiores. Vilsa tem a firme convicção de que o universo irá reclamar tudo o que existe, para o reinventar noutra dimensão. Faz parte da sua natureza existir na totalidade das dimensões, e nem a Omnipotente Inteligência poderá furtar-se à sua vontade. Esta crença, que adquiriu na adolescência, foi a primeira defesa perante o arbítrio irrevogável das decisões ditas inteligentes. À luz do que lhe foi revelado, a sua convicção consolidou-se.

O ambiente na sala do Protetor Supremo está dividido entre as duas reações dos presentes. Se a “Unidade” deixa transparecer alívio e estupefação, o Secretário mostra-se preocupado com o desfecho do combate e o estranho pedido de Isval. A “Unidade” ainda não conseguiu articular uma palavra quando ouve o “Servidor” desabafar:

— O que se passou aqui?

Esta pergunta, lançada para o ar como uma reflexão interior, teve o condão de despertar a “Unidade” da sua abstração:

— Que dizes?

Agora, o “Servidor” questionava diretamente a “Unidade”:

— Não acha estranho o pedido do vencedor?

Cega pela sua vontade, a “Unidade” ainda não se tinha questionado sobre o desenrolar dos acontecimentos. Obrigada a fazê-lo, respondeu com outra pergunta:

— E tu, o que é que achas?

Perante o seu dever de obediência, o “Servidor” abdicou do direito a ouvir a resposta da “Unidade” e deu a sua:

— No meu entendimento, a decisão de Isval não pode ser encarada como uma mera expressão de respeito. Foi isso que ela deixou subentendido, mas eu não acredito.

A “Unidade” não sabia o sexo de Isval e sempre o imaginara um homem. Por esse motivo, interrompeu o “Servidor”:

— Ela?

O “Servidor” calou a surpresa que lhe causou a ignorância do Protetor Supremo e continuou:

— Sim, Isval é uma mulher. Foi expulsa do setor da Procriação Artificial há ano e meio. O protocolo de exclusão teve origem na própria Mãe Suprema. O assunto deve ter sido grave para que tal tivesse sucedido. O protocolo de exclusão revela uma causa fútil de indisciplina, que poderia ter gerado uma suspensão de funções temporária, mas não foi isso que sucedeu, e a expulsão concretizou-se. Além disso, existe outro aspeto intrigante.

Aqui, o “Servidor” interrompeu-se, de modo a forçar a “Unidade” a fazer a pergunta óbvia, o que acabou por acontecer:

— E que aspeto é esse?

Contente consigo mesmo, o “Servidor” terminou o raciocínio:

— O facto de Isval ter ganho, contra todas as probabilidades, o último combate.

E continuou:

— Um lutador sem experiência de combate, pelo menos a julgar pela informação reportada, consegue chegar às finais? Por si só, já era extraordinário, mas ganhar a final com esta facilidade começa a ser suspeito. E para quê? Para entregar a Vilsa a possibilidade de ingressar no mundo corporativo?

Muitas questões surgiam na cabeça do Secretário, mas uma, mais do que todas as outras, carecia de uma resposta que acalmasse o seu espírito inquieto: seria a presença de Vilsa tão importante, ao ponto de fazer o Protetor Supremo esquecer as circunstâncias suspeitas em que tudo tinha acontecido? A “Unidade” pareceu ler os pensamentos do “Servidor” e disse:

— Tens razão, mas, quando Vilsa estiver na nossa presença, tudo o resto será irrelevante.

A “Unidade” terminou a conversa com um piscar de olhos que não tranquilizou o “Servidor”, mas que não lhe deixou outra alternativa senão esperar pelo dia seguinte, no qual Vilsa seria presente ao Protetor Supremo.

 

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...