Estória de uma banalidade útil
Estória de uma banalidade útil Sou inventor de estórias avulsas. Como tal, afirmo a minha autoria na estória que se segue. Era uma vez uma mulher. Ainda não tinha quarenta anos, mas andava perto de atingir esse limite simbólico. Não sentia a idade no corpo; no entanto, o espelho causava-lhe calafrios. As imagens reflectidas contavam uma versão da sua vida que ela preferia não recordar. Ainda era uma mulher bonita e com as carnes no sítio, e isso bastava no que à imagem dizia respeito. Quem a quisesse conhecer teria de lhe entender a alma. Mãe solteira do primeiro filho e mãe divorciada do segundo, tornara-se uma mãe independente. Tinha dois homens na sua vida: o seu pai e o filho mais velho. Do primeiro, recebia um apoio incondicional, isento de recriminações. Do filho, o suporte maduro de quem foi obrigado a crescer depressa. Vivia do dinheiro obtido da força dos seus braços e acumulava serviços para comprar o essencial. A sua concepção de essencial reduzia-se ao bem-estar do...