Um banho de água quente
Um banho de água quente O sol nasce a oriente e entra-lhe no quarto pela janela mal fechada, mas não é ele que acorda o David. Todos os dias , essa proeza é pertença de um objecto que tem estatuto de indizível importância : o telemóvel. Já pouca gente se lembra de um despertador analógico tradicional. É este o caso de David, que tem vinte cinco anos e é filho deste século. Filho de um mundo que rende homenagem aos algoritmos, ainda depende de pequenos prazeres para se sentir disponível para um dia que acabou de nascer. Um deles é um banho de água quente. David não gosta de tomar banho de água fria e não imagina o mundo sem água quente. Quando a avó lhe conta histórias desses tempos, ele olha para ela como se estivesse perante alguém vindo de um passado distante e inconcebível. A água quente é um direito que vem com o cartão de cidadão e deve ser usufruído sem problemas de consciência perfeitamente inúteis, ainda para mais no começo de um novo dia de trabalho. Esta é uma convi...