Saco da carteira e disparo cartões em todas as direções. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no chão. De dentro desses corpos desfeitos pequenos insetos vermelhos esvoaçam sem direção aparente. Meto a mão no bolso e retiro o telemóvel. Procuro a aplicação “lanterna” e ativo-a dirigindo o foco para a nuvem de insetos que se adensa a cada corpo que cai. Atraídos pela luz os insetos rodeiam a mão que segura o telemóvel. Restam-me poucos cartões, mas são os suficientes para acabar com os últimos sobreviventes. Na sala de espera resto eu e os insetos. O seu vermelho tornou-se incandescente à luz que imana do telemóvel. Como pequenas faúlhas rodopiam formando um vórtice luminosos, imitação quase perfeita de labareda assediada pelo vento quente de Agosto. Olho rapidamente à minha volta e descubro o que parece ser a porta de uma casa de banho. Dirijo-me lentamente até ela ficar à distância da mão que se encontra livre. Abro-a num movimento suave ao mesmo tempo que atiro o telemóvel para o fundo do quarto. Certifico-me de que todos os insetos entraram no quarto aberto e fecho violentamente a porta. Respiro fundo e deixo o meu corpo cansado escorregar pela parede até ficar sentado no chão. Afinal não era uma casa de banho, mas sim uma arrecadação onde guardavam os pedaços que sobravam das operações cirúrgicas malsucedidas. Lá fora as sirenes continuavam a tocar. A sua luz azul entra pelas vidraças nuas e atinge as paredes em vagas cíclicas e constantes. Tenho pouco tempo para sair dali, mas falta-me energia para reagir. Lembro-me de que tenho alguns comprimidos no bolso das calças. Tenho uma vaga ideia de me ter sido explicada a sua utilidade. Sem me importar com a posologia ingiro três dos dez comprimidos guardados na caixa. Tomo-os sem água e fico com a sensação de que um deles ficou preso na garganta. Engulo em seco várias vezes até que a sensação se atenua. Desconheço os compostos químicos que ingeri, mas uma coisa é certa, a rapidez com que actuam é impressionante. Abandono o corpo e deixo-o, libertando a sua vontade. Atravesso diversas dimensões sem conseguir estabilizar a materialização do meu corpo. Entregue ao seu destino sinto-o ceder. Tenho de agir rapidamente, mas o conhecimento não encontra o seu tempo de actuação. Tento um último esforço de sincronização, apenas porque me parece ser a atitude correcta. Como que obedecendo ao meu apelo o meu corpo ganha sustentação numa nova dimensão. Tomo consciência da nova realidade através de uma dor lancinante na barriga. Levo, por instinto, as duas mãos à região abdominal. Esperava encontrar alguma espécie de ferimento, mas não foi isso que aconteceu. Aparentemente a dor tem uma origem interna. Após breves momentos de descontrolo reajo de forma eficaz à minha nova condição. A minha realidade colapsou num mundo de inércia mecânica. Vomito notas pela boca agarrado a uma parede de supermercado. Sou uma caixa de multibanco.