Estória de uma banalidade útil
Estória de uma banalidade útil
Sou inventor de
estórias avulsas. Como tal, afirmo a minha autoria na estória que se segue.
Era uma vez uma
mulher. Ainda não tinha quarenta anos, mas andava perto de atingir esse limite
simbólico. Não sentia a idade no corpo; no entanto, o espelho causava-lhe
calafrios. As imagens reflectidas contavam uma versão da sua vida que ela
preferia não recordar. Ainda era uma mulher bonita e com as carnes no sítio, e
isso bastava no que à imagem dizia respeito. Quem a quisesse conhecer teria de
lhe entender a alma. Mãe solteira do primeiro filho e mãe divorciada do segundo,
tornara-se uma mãe independente. Tinha dois homens na sua vida: o seu pai e o
filho mais velho. Do primeiro, recebia um apoio incondicional, isento de
recriminações. Do filho, o suporte maduro de quem foi obrigado a crescer
depressa. Vivia do dinheiro obtido da força dos seus braços e acumulava serviços
para comprar o essencial. A sua concepção de essencial reduzia-se ao bem-estar
dos filhos. Para si, bastavam os sorrisos de genuíno reconhecimento do seu
esforço.
A Ana, hoje,
saiu mais cedo de uma das casas onde trabalha a dias. Tem a pressa de outros
dias. Irá passar na farmácia para levantar uma encomenda. Tem um aperto no
peito que não a deixa respirar, mas caminha com a firmeza que conhece. Mulher
de poucas palavras, irá dizer ao que vem. Quando sair à porta, deixará escorrer
uma lágrima rebelde. Dessa rebeldia percebe ela, calejada que está do seu sal.
O prédio onde alugou um pequeno apartamento fica num ponto alto da cidade.
Aquele último andar, com o elevador avariado, era um suplício desnecessário na
sua vida sofrida, mas hoje não parecia tão duro, fenómeno facilmente explicado por
conta da relatividade das situações. Antes de abrir a porta de casa, enxugou os
olhos da humidade rebelde que teimava em persistir. Quem a veio receber foi o
filho, que a cumprimentou com dois beijos na cara, percebendo de imediato a
tristeza da sua mãe. Antes que ela tivesse tempo de o questionar, ele disse: a
mana está a dormir. Ela demorou algum tempo a processar a informação, como se
duvidasse do filho. Por fim, perguntou: Teve dores? O filho informou-a com um
tom de quem sabe das rotinas: Depois da medicação, acalmaram, e ela conseguiu
adormecer. Um pouco mais aliviada, dirigiu-se à porta do quarto da sua filha e
abriu-a com cuidado para não a acordar. Esse cuidado não foi suficiente para
manter o sono da pequena Luísa. Abrindo os olhos devagar, perguntou: Mãe,
trouxeste os óculos? Ao que ela respondeu: Sim, Luisinha, estão na minha mala. Hoje
era dia de eclipse; a doença podia esperar.
Comentários
Enviar um comentário