Um banho de água quente

 Um banho de água quente

O sol nasce a oriente e entra-lhe no quarto pela janela mal fechada, mas não é ele que acorda o David. Todos os dias, essa proeza é pertença de um objecto que tem estatuto de indizível importância: o telemóvel. Já pouca gente se lembra de um despertador analógico tradicional. É este o caso de David, que tem vinte cinco anos e é filho deste século. Filho de um mundo que rende homenagem aos algoritmos, ainda depende de pequenos prazeres para se sentir disponível para um dia que acabou de nascer. Um deles é um banho de água quente. David não gosta de tomar banho de água fria e não imagina o mundo sem água quente. Quando a avó lhe conta histórias desses tempos, ele olha para ela como se estivesse perante alguém vindo de um passado distante e inconcebível. A água quente é um direito que vem com o cartão de cidadão e deve ser usufruído sem problemas de consciência perfeitamente inúteis, ainda para mais no começo de um novo dia de trabalho. Esta é uma convicção, que em si é inabalável. David gosta de levar o despertar ao limite da sua utilização e desliga-o por diversas vezes, até se render à inevitabilidade da ditadura horária. Consegue chegar até à casa-de-banho sem abrir os olhos, feito que aperfeiçoou desde os tempos de estudante. O primeiro olho a abrir é sempre o esquerdo, não por alguma razão especial, mas apenas pelo reflexo biológico do seu corpo se manifestar desta forma. A água que corre na torneira do lavatório funciona como complemento do despertador. Só agora se encontra em condições de entrar no chuveiro. A roupa ficou pelo caminho. Irá ser a mãe, sentada à sua frente na mesa da cozinha, que o irá lembrar do seu lugar na hierarquia familiar. Por enquanto, o tempo é de deixar a água quente escorrer pelo corpo maltratado por uma devassa nocturna que lhe é habitual aos fins de semana. Este é um momento de renascimento que ele prolonga até ouvir um berro da mãe. Só nessa altura o corpo é ensaboado. O banho acaba com um último aviso da mãe, cuja paciência é levada ao limite. De nada lhe têm servido os alertas financeiros, que identificam os perigos económicos de um banho prolongado. O que é que há de fazer, agora que o filho ajuda, com o salário mínimo, para as contas da casa? Vive sozinha com ele e o João, que ainda está a estudar e tem quinze anos. Sim, o filho merecia cada gota daquele banho. O que seria deles sem aquela rotina? Enquanto puderem usufruir de um banho quente, podem dar-se por satisfeitos.

Comentários

Mensagens populares