O Dr. Aberto Firmino e a lógica da batata

 O Dr. Aberto Firmino e a lógica da batata

 

O que escondemos é aterrador, mas estamos privados dessa confissão. Se a nudez do corpo nos assusta, a nudez da alma deixa-nos num pânico tremendo. Confrontados com os nossos dilemas percebemos as contradições que nos levam a questionar a honestidade dos princípios que julgávamos inabaláveis. Julguem a ideia, mas não julguem a acção. Quantas vezes a pureza de uma ideia não é conspurcada pela vileza da acção levando ao descrédito da primeira? Assim aconteceu com Alberto Firmino, homem de notável inteligência e manifesta falta de escrúpulos. Alberto Firmino era doutorado em direito e filosofia política, e exercia as funções de ministro das necessidades absolutas no último governo da República Lusitana. O seu ministério era, como o próprio nome indica, de indispensável e absoluta necessidade. O Dr. Alberto era responsável, e co-autor, de diversas obras e ensaios sobre ética governamental. Não foi por isso de estranhar que se criassem elevadas expectativas quando se soube da sua nomeação para tão importante ministério. A comunicação social foi uníssona em elogios que ressoavam antigas místicas messiânicas. Jornalistas, comentadores políticos, colegas universitários, e inúmeras figuras de renome no panorama nacional, vaticinaram-lhe sucessos estrondosos. Inchado, até quase não caber na porta do seu gabinete, o ministro Alberto Firmino decidiu fazer justiça à sua fama reformista e elaborou, em estreita colaboração com um escritório de advocacia onde foi sócio maioritário, uma intrincada regulamentação ética para ser aplicada a todos os membros do executivo, deste, e de todos os que lhe sucedessem. Convicto da sua missão divina, permitiu que lhe dispensassem as mordomias necessárias ao cargo que ocupava. De forma sistemática, mas perfeitamente legal, foi acumulando toda a espécie de subsídios, enquanto construía uma teia de interesses fundamental ao funcionamento do ministério. Foi nesse sentido que foi criado o secretariado dos amigos do ministério e a comissão das decisões necessárias, que tinha como finalidade justificar, através de extensos relatórios praticamente inelegíveis, o trabalho do secretariado recentemente criado. Construíram-se, com o apoio de fundos comunitários, sedes para organizações não governamentais, que trabalhavam, em exclusivo, para sectores fundamentais ao funcionamento do governo, tais como: o embelezamento mediático, a alimentação biológica, o serviço da conjuntura, o sector das mobilidades ministeriais, e o gabinete das construções a pedido. Mas o ruído em torno da competência do seu trabalho era tal, que tudo isso passava despercebido. O povo, embevecido por tal excelência, idolatrava o Ministro. Não era somente a inteligência do homem que impressionava o eleitorado, também a sua elegância era apreciada. Tal era o estado de graça que o Ministro gozava. Perante esta evidência, Alberto Firmino assumiu que tudo o que fazia em seu proveito era o pagamento, mais que merecido, por sua contribuição para a coisa pública. Imbuído deste convencimento, agiu contrariamente às suas teses, que ele continuava a considerar válidas. Assim é a natureza humana, assim era Alberto Firmino. Ao enfrentar o primeiro ataque ao seu idóneo carácter, o Ministro Firmino perdeu a compostura, e respondeu violando todas as regras de conduta democrata. Firmino sabia que estas podiam ser violadas porque, como é do senso comum, a democracia nasceu como vítima da violência doméstica. Em democracia acabamos todos por ser vítimas, que mais não seja, das nossas decisões à boca das urnas. Preso nas suas armadilhas ideológicas, refugiou-se na demagogia, e utilizou todas as ferramentas que a lei lhe permitiu, para se furtar aos processos judiciais que o acusavam de toda uma panóplia de crimes, ditos de colarinho branco. Mas, fosse qual fosse a cor do colarinho, de tal modo estava sujo que dificilmente se poderia dizer-se branco. Havia branqueamentos e pagamentos obscuros, recebimentos indevidos e favorecimentos pessoais, pressões injustificadas, manipulações suspeitas, e dinheiro, muitíssimo dinheiro que passara de mãos e desaparecera. Havia, porém, algo em comum em todos estes crimes, o lesado era sempre o Estado. Convém não esquecer que, depois da democracia, o Estado é a segunda maior vítima de violência doméstica. Bom, e depois de tudo isto, o que aconteceu ao Dr. Alberto Firmino?  Poderia ser uma boa pergunta se tivesse outra resposta. Aconteceu o que é normal acontecer na República Lusa. O Estado perdeu, o político safou-se, e o povo pagou. Moral da estória: mesmo que uma ideia seja boa, haverá sempre um homem por detrás para lixar tudo.

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