O Relojoeiro II
Do outro lado da porta, a casa prolongava a loja como se fosse o seu avesso. Ali o ar era mais frio e cheirava a verniz antigo, óleo fino e madeira encerrada há demasiado tempo. Marcelino acendeu um candeeiro de mesa com abat-jour verde, pousou a fotografia junto de um torno de precisão e abriu o papel dobrado com a morada. Leu-a duas vezes, não por desconfiança, mas por respeito. Havia nomes e ruas que exigiam uma segunda leitura, como se só à segunda vez consentissem em existir.
A
oficina das traseiras não recebia clientes. Era um compartimento estreito, sem
janelas, onde os relógios que não pertenciam inteiramente a este mundo
repousavam em gavetas baixas, etiquetados por datas, iniciais ou pequenos
sinais que só ele compreendia. Sobre a bancada, alinhavam-se pinças, lupas,
molas, chaves minúsculas e três caixas de metal sem inscrição. Marcelino tirou
o colete, arregaçou as mangas e ficou por instantes imóvel diante da fotografia
do velho senhor, como um médico que escuta um silêncio antes de diagnosticar a
doença.
Pegou
então num relógio sem mostrador, liso como uma pedra de rio, e pousou-o ao lado
da fotografia. Era com aquele instrumento que se verificava se um caso estava
apenas atrasado ou se, pelo contrário, já tinha entrado na zona das perdas
definitivas. Marcelino encostou dois dedos ao metal, fechou os olhos e esperou.
Ao fim de alguns segundos, sentiu um estremecimento breve, quase uma pulsação envergonhada, e soube
que ainda restava margem. O velho senhor não estava perdido; estava apenas
desencontrado do seu próprio tempo.
Sem
surpresa, Marcelino abriu uma das caixas de metal e retirou dela uma bússola de
ponteiro escurecido, um relógio de pulso parado nas onze e treze, e uma
corrente de prata tão fina que parecia feita de cabelo branco. Colocou os três
objetos dentro dos bolsos interiores do casaco. Depois tornou a pegar na
fotografia. O retratado tinha a rigidez dos homens que, durante toda a vida, se
habituaram a ser pontuais por medo do caos. Marcelino reconheceu logo esse
género de gente: quando desapareciam, nunca era por acaso.
Apagou
o candeeiro, regressou à loja e saiu para a rua já deserta. A noite descera
sobre a Amadora com um calor imóvel, de trovoada adiada, e as fachadas pareciam
guardar a respiração. Marcelino caminhou sem pressa, mas sem hesitar, como quem
obedece a um itinerário antigo. A cada esquina, confirmava o rumo com a mão
dentro do bolso, sentindo a vibração surda da bússola. Só parou quando chegou
diante da morada escrita no papel: uma vivenda baixa, recuada da estrada, com o
portão entreaberto e todas as janelas apagadas, exceto uma, no andar de cima,
onde um relógio batia as horas com um atraso impossível.
Nota do autor: este capítulo foi entregue à IA segundo instruções do autor.
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