O Relojoeiro III

 Nota: parceria entre o autor e a IA


Marcelino ficou imóvel diante do portão entreaberto, escutando. Da janela do andar de cima vinha mais do que o atraso de um relógio: vinha uma desordem miúda, insistente, como se os segundos ali dentro tropeçassem uns nos outros antes de cair. Levou a mão ao bolso do casaco e sentiu, sob os dedos, a corrente de prata estremecer como um nervo vivo. Erguer os olhos para o céu foi um gesto antigo, quase involuntário. As nuvens passavam baixas, espessas, deixando entre si apenas breves clareiras onde as estrelas surgiam e desapareciam com a impaciência de quem não deseja ser vista. Marcelino não precisou de pensar muito para compreender que chegara tarde demais para uma simples avaliação. Havia casas onde o tempo adoecia devagar; naquela, porém, alguma coisa começara já a desfazer-se. O tremor subiu-lhe pelas pernas sem aviso, obrigando-o a apoiar-se ao poste mais próximo. À luz baça do candeeiro, o seu rosto pareceu subitamente mais velho, como se a noite lhe tivesse acrescentado anos. Passou a língua pelos lábios secos, fechou por um instante os olhos e deixou que o corpo recuperasse a obediência. Depois tornou a fitar a janela acesa, com a atenção austera de quem reconhece, antes de lhe ver o nome, a natureza de um perigo.

Marcelino voltou à loja incapaz de regressar a casa. No bolso interior do casaco, o fio de prata brilhava com uma intensidade febril, como se tivesse recolhido alguma coisa da tempestade. Só agora o trabalho começaria verdadeiramente. Entrou sem acender a luz e atravessou a loja às escuras, guiado apenas por aquele fulgor ténue e persistente. Na oficina, deixou-se cair numa cadeira de madeira diante da bancada, mais vencido do que sentado. Fechou os olhos por um instante, sentindo nos ossos o peso da noite e daquilo que ainda faltava fazer. Depois murmurou para si, sem ironia nem queixa, como quem reconhece uma verdade antiga: já estou velho para isto.

 


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