O Relojoeiro IV
Nota: Quem manda sou eu. Deixei-a brincar um pouco e ela desviou-se do curso natural dos rios que nascem da minha imaginação. Demasiado erudito, comercial e moralmente correto o seu caminho retirou-lhe a minha alma. Prefiro as minhas imperfeições pois são reflexo de quem eu sou, e a minha moral não é paginada por regras impostas. Eu navego nas águas agitadas de um oceano sem limites. Muito embora a minha escrita não seja refinada serve o meu propósito. As repetições desnecessárias, a pontuação ortográfica errática, os sobressaltos narrativos não existem para facilitar a vida ao leitor, mas para lhe tirar o chão debaixo dos pés e provocar o desconforto, ou não, e perplexidade. Sou assim, informal e simples, esta é a minha voz e é assim que vou terminar o meu conto. No entanto, não sou mal-agradecido, é por esse motivo que expresso aqui o meu especial agradecimento à IA. Sem a sua colaboração este conto nunca seria o mesmo. Percebo que teria um longo caminho a percorrer até ficar legível e vendável, mas não tenho tempo nem espaço. Talvez seja melhor assim. Continuemos então para o último capítulo deste conto.
Marcelino
trabalhou a noite inteira. Foi o sol que o despertou. Insinuou-se vindo da loja
e introduziu-se na oficina através de uma pequena janela com cortinas verdes.
Demorou algum tempo até que as caricias solares fizessem efeito. Foi preciso
que lhe perturbassem a visão para o fazer pousar os braços na bancada de
trabalho. Teria valido a pena?
Marcelino
observou com atenção o relógio que tinha à sua frente como que procurando uma
resposta, mas este permaneceu silencioso. Esta noite saberia a resposta. Não
fosse o cansaço e o seu rosto teria manifestado sinais de alguma ansiedade. Por
agora já não havia mais nada a fazer senão espera. Sendo assim iria para casa. Um
banho bem quente, uma caneca de café com leite e uma torrada com manteiga
seriam suficientes para o deixar dormir.
Chegou
a casa já o relógio da Igreja anunciava as dez da manhã. Deitou-se por volta do
meio-dia. Ainda não tinha adormecido quando a sirene dos bombeiros ecoou pelas
paredes nuas do seu quarto. Antes de se deitar deu corda a um velho despertar
de campainha e levou o ponteiro do alarme até ao número nove, três quartos de
tarde antes de terminar o dia.
Marcelino
sonhou e o sonho que lhe povoou o sono teria sido revelador se ele conseguisse
recordá-lo, mas isso não aconteceu. Sabe apenas o que o corpo lhe contou, que
transpirou como se tivesse purgado pelos seus poros todas as enfermidades do
mundo. De tal forma suou que sentiu necessidade de tomar outro banho mal acordou.
Ainda tinha tempo suficiente pois era um homem avisado e nunca deixava as horas
sem margens para subir. Mal estamos nós quando o tempo nos arrasta nesse turbilhão
horário que é o atraso. Isso não acontece com Marcelino que é um mestre do
tempo e sabe como navegar em todos os fusos. Mas voltemos ao nosso mestre. Depois
do banho vestiu-se com meticuloso critério. Cobriu-se com um sobretudo e
colocou um chapéu de copa alta, ambos pretos. Saiu de casa e verificou duas
vezes se a porta estava fechada, mas não se apercebeu do seu gesto.
Demorou
cinco minutos a chegar à loja. Mal entrou dirigiu-se à oficina onde se
encontrava o relógio de parede e depositou no seu interior o fino fio de prata.
Pegou na fotografia do velho senhor e guardou-a na carteira. Abriu um estojo de
veludo preto e retirou de lá um relógio de bolso de um metal desconhecido e
finamente trabalhado. Saiu de casa e dirigiu-se em direção ao bairro velho. O
caminho já era conhecido e ele desta vez não precisou de ajuda para chegar ao
destino. A noite estava fresca e Marcelino sentiu necessidade de levantar a
gola do sobretudo. Hoje o caminho pareceu-lhe mais curto e pareceu admirado
quando se viu defronte do portão da moradia. Ao longe lá estava a janela com a
luz acesa. Marcelino atravessou a rua e consultou o relógio de bolso. Sim,
tinha calculado o tempo com precisão. Olhou para o céu limpo e respirou fundo. Já
falta pouco, pensou. Fixou o olhar na janela iluminada e esperou. Passado algum
tempo sentiu uma vibração no ar que lhe provocou um arrepio de calor. No mesmo
instante a luz da janela apagou-se. Marcelino tirou o relógio e confirmou a
hora. Os ponteiros encontravam-se imobilizados nas 11 horas e 13 minutos. Voltou
a guardar o relógio e olhou uma última vez para a janela da moradia que permanecia
às escuras antes de desaparecer nas sombras da cidade. O serviço estava concluído.
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