O Último Combate de Vilsa V (Memórias)
Deitado na cama, Vilsa tenta recordar os pais. Leva a mão debaixo do colchão regenerador e retira de lá uma pequena fotografia. Nela, encontra-se entre dois jovens adultos. Vem-lhe à recordação a última vez que viu o mar. Não chegou a aprender a nadar; o evento tecnológico tirou-lhe a família antes que isso pudesse acontecer. Mas a imagem daquela imensidão azul nunca desapareceu da sua memória. Nos dias mais difíceis, imaginava-se num extenso areal, construindo figuras na areia húmida. Era sempre a mãe que brincava com ele e lhe dava atenção. O pai estava sempre ocupado, com um ecrã à frente dos olhos. Recorda os olhos castanhos da mãe, assim como o seu cheiro. Lembra-se das noites abrigado no seu corpo, da sua voz meiga e reconciliadora, dos dedos longos, de pele macia, que lhe acariciavam os caracóis do cabelo, que a idade lhe roubou — a idade e o pente dois a que se obrigou. Já do pai pouco se lembra e, se não fosse aquela velha fotografia, tê-lo-ia esquecido completamente, ou quase. Na memória, continua a ecoar aquele vulto sempre escondido por detrás de ecrãs digitais.
Só depois de adulto é que teve acesso àquela fotografia. Conquistou esse acesso
por mérito próprio, contribuindo com uma presença de máxima assiduidade no
mundo virtual. Isso e os favores sexuais que dispensou a uma funcionária
permanente da corporação. Nessa altura, ele ainda era um macho bem-parecido e
cheio de vitalidade, e a velha senhora condoeu-se do seu desassossego obsessivo
pela figura da mãe e conseguiu-lhe uma cópia física retirada dos arquivos
centrais, não sendo sua a decisão de terminar com a relação. Esta continuou até
a funcionária se fartar dele e escolher outro jovem mancebo para satisfazer as
suas necessidades. Desta ambígua relação sobejou aquilo que hoje é o seu maior tesouro:
a fotografia com a imagem da mãe. Seria de esperar que, estando de posse de tão
valioso artigo, a sua inquietação desaparecesse, mas não foi esse o caso. A sua
reação, quando observou a fotografia com mais atenção, foi de surpresa e
perplexidade. Não havia dúvidas: a sua mãe estava grávida na altura em que a
foto tinha sido tirada. Teria um irmão? Estaria vivo? Seria homem ou mulher?
Onde estaria neste momento? E a sua mãe? Ele tinha ouvido dizer que muitas
mulheres grávidas tinham sido requalificadas e integradas no setor de
procriação não artificial. Teria a sua mãe sido requalificada? Desde esse dia,
a sua inquietação não parou de aumentar. Finalmente, tinha um propósito na
vida. É nisto que pensa enquanto coloca novamente a foto debaixo do colchão.
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