O Último Combate de Vilsa VI (O Protetor Supremo)

 

O Protetor Supremo habita nos aposentos superiores da torre espelhada, mas nem sempre se encontra no edifício. Somente o seu secretário pessoal e a omnipotente IA sabem a localização exata do Protetor Supremo. As suas deslocações são efetuadas através de aeronaves autônomas, e a sua segurança também é automatizada. Cabe à OIA (Omnipotente IA) a gestão e programação dos protocolos que permitem estas viagens. Embora exista um Conselho Superior, que tem a responsabilidade de supervisionar a governação do Protetor, na prática isso não acontece, porque a escolha é efetuada pela OIA segundo critérios que ninguém pensaria em pôr em causa. Sendo assim, o Protetor Supremo foi apelidado de “A Unidade”, por nele convergirem todos os poderes que governam a Metrópole Federativa, uma união de diversas metrópoles espalhadas por todo o globo.

O secretário da “Unidade” é conhecido como “O Servidor”, mas ninguém se atreve a dirigir-se nesses modos à sua pessoa. Na sua presença, todos o tratam por Sr. Secretário. É, aliás, esse o nome gravado numa singela placa de madeira por cima da sua porta. O seu gabinete é antiquado, e tudo nele apela a um imaginário pré-OIA. Podemos afirmar, com certeza, que só a ele o Protetor Supremo permite esta tão flagrante lembrança de um passado analógico. A secretária de mogno impõe-se pela sobriedade de linhas, e a cadeira, com o assento e o espaldar forrados de couro negro, afina pelo mesmo diapasão. Os cortinados de veludo estão colocados num falso reposteiro e são apenas um apontamento decorativo, pois a visibilidade e a iluminação são controladas por sensores que detetam a vontade do usuário. O gabinete está ligado aos aposentos do Protetor Supremo através de uma porta dissimulada por detrás de uma pintura abstrata de autor desconhecido. O chão, de madeira, encontra-se coberto por um enorme tapete representando uma batalha medieval. É neste cenário que encontramos o Secretário. Há vários dias que passa parte do seu tempo observando um estranho mapa. Quer ter a resposta para uma série de questões relacionadas com uma possível conspiração. De tal maneira está desconfiado, que solicitou à IAC (Inteligência Artificial de Controlo) uma inspeção a todos os protocolos de manutenção da biodiversidade. Ele sabe que é uma área sensível, pois dela depende o equilíbrio biológico do planeta. Sabe também que é uma das principais tarefas da OIA. Foi graças à necessidade de controlar a demografia que a OIA se instalou como poder supremo, e a partilha desse poder é fictícia. O Protetor Supremo tem consciência desse fato. Mais, o Secretário não sabe.

A Unidade está inquieta. Sentada na sua poltrona sensorial, observa o bairro corporativo. Ao longe, os BRV (Bairros de Realidade Virtual) abrigam parte do excedente populacional. Os dedos da mão direita brincam com uma moeda de ouro, recordação de outros tempos. A mão esquerda agarra num símbolo com dois triângulos que usa pendurado ao pescoço. Os combates desta época estão a acabar, e ele tem seguido com particular atenção um dos lutadores. Aguarda, com alguma ansiedade, o início de uma das meias-finais. Esta irá começar em breve, e A Unidade não é indiferente ao seu resultado.

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