O Último Combate de Vilsa XII (O Encontro)

  Vilsa tirou o capacete e encontra-se sentado na cama. As palavras que Isval lhe dirigiu ainda ecoam nos seus ouvidos, e não as consegue dissociar da sua proclamação final. Antes do combate, tudo o que ele desejava era sair da periferia cubicular. A vida corporativa iria permitir-lhe procurar a sua mãe e, ao mesmo tempo, retirá-lo da Realidade Virtual. Porém, à luz dos últimos acontecimentos, o que objetivara para o seu futuro ganhara novos contornos. Qual seria, então, o seu último combate, e com que objetivo? Uma coisa era óbvia: este ocorreria nos Bairros Corporativos.

Isval despiu-se mal tirou o capacete e ofereceu a si mesma um banho de água quente. Ela sabe que a sua decisão a aprisionou nos Bairros Cubiculares e que a Mãe Suprema não lhe irá perdoar a insolente desobediência. Mas cada questão terá o seu tempo. Agora que garantiu o regresso de Vilsa, precisa de falar com ele. Para isso, tem um plano arriscado, que depende do amor que a Mãe Suprema tem pela filha. Espero que ela ainda goste de mim; é este o seu pensamento enquanto se limpa.

Agora que terminaram os combates, Vilsa veste o seu velho uniforme pela última vez. Amanhã, quando o vierem buscar, irão trazer-lhe uma nova indumentária, condizente com as novas funções. Vilsa não sabe qual será a função que lhe está reservada, mas, aparentemente, essa será a menor das suas preocupações, porque, juntamente com a roupa limpa, o responsável pela distribuição ordenou-lhe, num murmúrio, que solicitasse imediatamente a sua hora no exterior.

Nos Bairros Cubiculares, todos tinham direito a uma hora por dia no exterior. Essa hora deveria ser gozada fora do período do recolher obrigatório, que ocorria entre as 7h00 e as 21h00. Como o número de pessoas no exterior era restrito, o requerente solicitava a sua saída e esperava por autorização. Depois de confirmado que o número era inferior ao permitido, um sinal sonoro anunciava a contagem do tempo. O acesso ao cubículo individual durava uma hora. Se este se fechasse sem ninguém no seu interior, era emitido um alerta de reeducação. Ninguém queria sujeitar-se a uma temporada na reeducação.

Isval recebeu a confirmação de que a sua mensagem fora entregue. De seguida, solicitou a sua hora. Sabia que o seu cubículo estava localizado no mesmo edifício em que Vilsa tinha o seu. Se tudo corresse como esperava, conseguiria estabelecer um contacto de, pelo menos, vinte minutos. Mesmo que ele saísse primeiro, nunca poderia ir para muito longe. Cada edifício tinha o seu próprio perímetro, devidamente controlado por automatismos de dor por indução elétrica.

A curiosidade continua a ser uma das mais importantes características do ser humano. Vilsa navegava em águas desconhecidas desde que perdera o combate, mas isso, aparentemente, não o incomodava; antes pelo contrário. Sentia-se vivo, algo que já tinha esquecido. O acesso ao exterior ocorreu poucos minutos após o seu pedido, mas não atenuou a ansiedade que o consumia. Desceu as escadas para desentorpecer as pernas e rapidamente chegou ao exterior. Respirou fundo e olhou em redor. Não havia muitas pessoas no exterior, e nenhuma delas lhe prestou especial atenção. Vilsa avançou lentamente até à periferia e sentou-se num dos bancos metálicos virados para um pequeno jardim. Estava desiludido. Esperara, estupidamente, que alguém o aguardasse. Sim, estar vivo também era sentir esta impaciência, esta vontade do que é imediato. Perdido nas suas ansiedades, não reparou que alguém se aproximara.

— Olá, o meu nome é Isval. Posso fazer-te companhia?

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