O Último Combate de Vilsa XIII (Um Sopro ao Ouvido)

 Sentados lado a lado, contemplam a artificialidade da paisagem. Vilsa procura digerir o que acabou de ouvir. Isval segura-lhe a mão, tentando evitar que ele resvale na inquietação interior. Nunca se sabe o que poderá acontecer quando nos sopram palavras ao ouvido. Já se faz tarde, e precisam de voltar aos cubículos. Isval despede-se de Vilsa com um beijo na face e demora a sua mão na dele antes de se levantar. Vai-se embora sem olhar para trás, contrariando a vontade do coração.

Vilsa quase deixou que acabasse o tempo permitido. Está atordoado, e a sua cabeça demora a processar toda a informação que recebeu de Isval. Ainda sente na pele o apelo de um abraço que não aconteceu. Assim é o destino. Desta maneira foi escrito nas estrelas por inteligências infinitamente superiores. Vilsa tem a firme convicção de que o universo irá reclamar tudo o que existe, para o reinventar noutra dimensão. Faz parte da sua natureza existir na totalidade das dimensões, e nem a Omnipotente Inteligência poderá furtar-se à sua vontade. Esta crença, que adquiriu na adolescência, foi a primeira defesa perante o arbítrio irrevogável das decisões ditas inteligentes. À luz do que lhe foi revelado, a sua convicção consolidou-se.

O ambiente na sala do Protetor Supremo está dividido entre as duas reações dos presentes. Se a “Unidade” deixa transparecer alívio e estupefação, o Secretário mostra-se preocupado com o desfecho do combate e o estranho pedido de Isval. A “Unidade” ainda não conseguiu articular uma palavra quando ouve o “Servidor” desabafar:

— O que se passou aqui?

Esta pergunta, lançada para o ar como uma reflexão interior, teve o condão de despertar a “Unidade” da sua abstração:

— Que dizes?

Agora, o “Servidor” questionava diretamente a “Unidade”:

— Não acha estranho o pedido do vencedor?

Cega pela sua vontade, a “Unidade” ainda não se tinha questionado sobre o desenrolar dos acontecimentos. Obrigada a fazê-lo, respondeu com outra pergunta:

— E tu, o que é que achas?

Perante o seu dever de obediência, o “Servidor” abdicou do direito a ouvir a resposta da “Unidade” e deu a sua:

— No meu entendimento, a decisão de Isval não pode ser encarada como uma mera expressão de respeito. Foi isso que ela deixou subentendido, mas eu não acredito.

A “Unidade” não sabia o sexo de Isval e sempre o imaginara um homem. Por esse motivo, interrompeu o “Servidor”:

— Ela?

O “Servidor” calou a surpresa que lhe causou a ignorância do Protetor Supremo e continuou:

— Sim, Isval é uma mulher. Foi expulsa do setor da Procriação Artificial há ano e meio. O protocolo de exclusão teve origem na própria Mãe Suprema. O assunto deve ter sido grave para que tal tivesse sucedido. O protocolo de exclusão revela uma causa fútil de indisciplina, que poderia ter gerado uma suspensão de funções temporária, mas não foi isso que sucedeu, e a expulsão concretizou-se. Além disso, existe outro aspeto intrigante.

Aqui, o “Servidor” interrompeu-se, de modo a forçar a “Unidade” a fazer a pergunta óbvia, o que acabou por acontecer:

— E que aspeto é esse?

Contente consigo mesmo, o “Servidor” terminou o raciocínio:

— O facto de Isval ter ganho, contra todas as probabilidades, o último combate.

E continuou:

— Um lutador sem experiência de combate, pelo menos a julgar pela informação reportada, consegue chegar às finais? Por si só, já era extraordinário, mas ganhar a final com esta facilidade começa a ser suspeito. E para quê? Para entregar a Vilsa a possibilidade de ingressar no mundo corporativo?

Muitas questões surgiam na cabeça do Secretário, mas uma, mais do que todas as outras, carecia de uma resposta que acalmasse o seu espírito inquieto: seria a presença de Vilsa tão importante, ao ponto de fazer o Protetor Supremo esquecer as circunstâncias suspeitas em que tudo tinha acontecido? A “Unidade” pareceu ler os pensamentos do “Servidor” e disse:

— Tens razão, mas, quando Vilsa estiver na nossa presença, tudo o resto será irrelevante.

A “Unidade” terminou a conversa com um piscar de olhos que não tranquilizou o “Servidor”, mas que não lhe deixou outra alternativa senão esperar pelo dia seguinte, no qual Vilsa seria presente ao Protetor Supremo.

 

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