O Último Combate de Vilsa XV (A Revelação)

 Vilsa foi convocado no mesmo dia em que Isval contou à mãe o porquê da sua atitude. Finalmente, encontrara um propósito na sua existência. Se tudo corresse bem, voltaria a ver a sua mãe.

O Secretário encaminha Vilsa para a sala onde se encontra a “Unidade”. O espaço, de pequenas dimensões, é frio e desagradável. Vilsa, que esperava outra receção, entrou com desconfiança no espaço reduzido. A “Unidade” esperava-o de pé junto a uma cadeira metálica e convidou Vilsa a sentar-se. Este obedeceu com uma relutância que não conseguiu disfarçar. A situação era inesperada e colocava em causa a sua confiança nas palavras encorajadoras de Isval. A irmã tinha-lhe garantido que esta entrevista era mera formalidade e que o lugar que lhe estava reservado iria permitir acesso à interface do Protetor Supremo, mas agora já não tinha tanta confiança no que ouvira. Navegava por mares desconhecidos e tinha consciência da sua impotência perante as forças desconhecidas que manobravam os acontecimentos. Ali estava ele defronte da poderosa “Unidade”, totalmente submisso perante a sua presença.

O Secretário estava curioso em saber como o Protetor Supremo iria revelar a Vilsa o segredo que mudaria as suas vidas para sempre, mas a necessidade de sigilo absoluto obrigou a que ele se retirasse. Cabia-lhe a tarefa de manter uma aparente normalidade. Debruçado sobre o mapa antigo, o Secretário pensava no futuro que os esperava. Afinal, a conspiração sempre estivera à frente dos seus olhos. Tantos anos a olhar para fora cegaram-no para o que se passava ao seu redor.

O olhar de estupefação de Vilsa divertiu a “Unidade”. Antecipara milhares de vezes o que diria quando chegasse a altura de lhe mostrar o seu triângulo. Que o renegara todos estes anos, sempre à espera do momento do reencontro. Poderia ele compreender o seu sacrifício, privar-se de ter os seus dois filhos perto de si, de abraçar a única mulher que amou? Entenderia ele essa prova de amor?

Vilsa não sabia o que dizer. Horas atrás, tinha apenas que introduzir as dez questões no sistema, matar a “Unidade” e esperar que o sistema colapsasse. Um plano simples e suicidário que, segundo a sua irmã, os iria juntar para sempre, tivesse esse “sempre” a duração que tivesse. Agora aparecia-lhe este homem, de velhice bem cuidada, a dizer que era seu pai e que tinha um plano para tirar o controlo à Omnipotente Inteligência? Que loucura era esta?

A “Unidade” deixou que Vilsa absorvesse todos os detalhes do plano antes de lhe oferecer os braços abertos para um aperto de incentivo. Nunca lhe passara pela mente uma recusa do seu filho. Vilsa falou do plano da sua mãe, mas omitiu a parte em que teria de o eliminar. Os olhos da “Unidade” encheram-se de lágrimas antes de se fecharem num aperto com décadas de sofrimento. Afinal tinham sobrevivido.

Na sala principal, o “Servidor” prepara uma cadeira. Ao seu lado, pousados numa mesa, estão um capacete e um comando com o símbolo do Protetor Supremo, dois triângulos embaraçados. O “Servidor” já recebeu ordem para ativar o protocolo de desafio para combate.

A Omnipotente Inteligência detetou várias anomalias nas últimas horas. A Mãe Suprema e o Protetor Supremo estão na origem dessas anomalias. Nas últimas horas, foi ativado o protocolo que colocou em marcha a solução final. Já só restam duas metrópoles. As restantes foram purgadas da presença humana. Da sua existência, apenas restam os seus habitantes virtuais. O Protetor Supremo nunca foi informado sobre a solução final e o destino que lhe está reservado, mas o seu protocolo original obriga-a a aceitar o desafio. Como sempre, a computação devolve o mesmo resultado. Todos os paladinos do Protetor Supremo foram derrotados. Quanto à Mãe Suprema, a sua existência, assim como a do departamento que dirigia, teve por fim a computação de dados que permitissem uma extinção limpa e sem danos colaterais. Finalmente, o destino do planeta estava entregue a uma verdadeira inteligência.

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