O Último Combate de Vilsa VII (O Capacete)
Vilsa prepara o corpo para o próximo combate. Tem os pulsos ligados a uns elétrodos, e a corrente que lhe percorre o corpo provoca-lhe sensações agradáveis. Está absorto em pensamentos que mais parecem memórias implantadas. Um pequeno triângulo tatuado na nuca de sua mãe surge com uma nostalgia inusitada. Ele também tem um pequeno triângulo tatuado na nuca, mas não pode afirmar se a sua mãe ostenta semelhante marca. O passado é difuso e depende mais de convicções do que de factos que ele possa identificar. Procura lembrar pormenores da fotografia e fica admirado por ter memorizado tantos. Vilsa acaba por adormecer e não se apercebe de que alguém entrou no quarto.
Só a fome o acordou. Desligou os pulsos da máquina e
procurou o capacete de Realidade Virtual. Encontrou-o onde o havia deixado, na
mesa junto à janela. Colocou-o cuidadosamente e deixou que ele o reconhecesse. Enquanto
estivesse em combate, apareceria na Arena. Saiu dos aposentos que lhe estavam destinados
e viu-se imediatamente cercado por apoiantes. Cada vez eram mais e, lá fora,
devia piorar. Fez o que pôde para agradar à multidão que o aguardava, mas tinha
pressa. Rapidamente se dirigiu à taberna, onde o agraciaram com suculento repasto.
O seu oponente também lá se encontrava. O olhar virtual que trocaram transpareceu
a agressividade necessária para acicatar os ânimos dos adeptos. Os confrontos entre
eles não perturbaram a refeição de ambos os lutadores. Vilsa acabou a sua e regressou
à Arena. O seu passo firme não deixou perceber a pressa que o movia.
Tirou o capacete e ficou a
observá-lo por breves instantes. A hora do combate aproximava-se, e uma boa
refeição era imprescindível para conseguir ultrapassar o seu adversário. O
suplemento alimentício tinha um sabor apurado, que o fez recordar comidas há
muito esquecidas. Mais uma vez, a imagem da mãe ocupou o seu pensamento. Acabou
a refeição mais depressa do que esperava. Tinha duas horas livres até ao início
do confronto. Sentou-se com o capacete no colo. Enquanto olhava pela janela imersiva,
passou os dedos pelo relevo de um símbolo no interior do capacete e fechou os
olhos.
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