O Último Combate de Vilsa (O Sonho)

 O Secretário esperou que a “Unidade” acabasse a bebida. Entrou nos aposentos do Supremo Protetor, e aproximou-se silenciosamente.  Era um hábito a que a “Unidade” estava habituada e, por esse motivo, anteviu a presença do Secretário mesmo antes deste aparecer. Recebeu o Servidor com uma pergunta:

-Assististe ao combate?

Este respondeu como se esperasse ser interpelado,

-Sim, assisti.

-E gostaste do que viste?

-Eu não aprecio os “Jogos”.

-Sim, eu sei. Mas os últimos combates são sempre interessantes.

-Não me parece ter sido o caso.

Este comentário incomodou a “Unidade”, que deixou transparecer algum azedume quando perguntou de forma seca:

-Porquê?

O Secretário ignorou o incomodo da “Unidade”, e continuou com serena ironia,

-Porque o combate foi desigual. Um dos lutadores estava mais bem apetrechado e dominou o outro sem lhe dar a mínima hipótese de sucesso. Ao fim de cinco minutos já se sabia o resultado.

-O que queres tu dizer com “mais bem apetrechado”?

Percebendo a irritação da “Unidade”, o Secretário tentou emendar a mão na esperança de apaziguar o estado de espírito do Protetor Supremo.

-Eu estava a referir-me à competência técnica e à preparação do lutador que se dá pelo nome de “Vilsa”.

A referência ao nome de Vilsa fez a “Unidade” levantar-se bruscamente. Encaminhou-se para a parede envidraçada onde se deixou ficar, por breves instantes, de costas voltadas para o Secretário. Este esperou Imóvel que a “Unidade” se dirigisse novamente à sua pessoa. Ele sabia que a pergunta acabaria por surgir A quem mais o Protetor Supremo a poderia colocar?

A “Unidade” acabou por se virar para o Secretário. Tinha recuperado a compostura, e a pergunta surgiu com natural cumplicidade;

-Achas que o combate foi manipulado?

O Secretário respondeu mais do que lhe haviam perguntado,

-A manipulação não foi subtil. Só um capacete alterado permitiria um resultado tão desnivelado. O adversário de Vilsa só aguentou tanto tempo porque é um lutador formidável.

-Achas que o Mundo Virtual desconfiou?

-O Mundo Virtual desconfia de tudo o que o contraria. Faz parte da sua natureza desconfiar. Mas, assim como desconfia, também crê sem limites quando a cegueira é aprazível. Vilsa conquistou os corações do Mundo Virtual. Nada mais interessa para eles. Por outro lado…

-Por outro lado?

-O mesmo não acontece com a Omnipotente Inteligência. Por esta altura já assinalou esta anomalia. Se a permite, é porque existe uma lógica que devolve um resultado favorável.

-Desconfias de alguma coisa?

-A vida destruiu as minhas crenças e só me deixou desconfianças.

-Também desconfias de mim?

-Terei razões para isso?

Havia algo de provocador nas palavras do Secretário que levou a “Unidade” a pensar que ainda não tinha sido tudo dito.

-Quero acreditar que sou merecedor de uma exceção da parte do meu Secretário.

-Até agora você tem merecido esse direito. Espero que isso se mantenha.

Embora a resposta do Secretário pudesse ser interpretada como uma ameaça, assim não o entendeu a “Unidade”.  O “Servidor” estava preocupado, disso não tinha dúvidas.

-Não me queres dizer o que te aflige?

O Secretário pensou uns instantes antes de responder:

-Tenho receio que você não veja?

-O quê?

-Não me faça essa pergunta.

-Tens medo que eu não veja, ou que o meu sonho não se concretize?

-Tenho medo de que o seu sonho o deixe cego.

A “Unidade” sorriu. Era bom poder confiar em alguém que não dependesse de chips para pensar. O Secretário fazia jus ao cognome. Ele era, efetivamente, um leal servidor. A conversa seguira o curso que ele desejara.  Logo que o Secretário saiu,  a “Unidade” sentou-se e desligou o emissor de interferências que permitira o secretismo daquela conversa.

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