O Último Combate de Vilsa VIII (Omnipotente Inteligência)
O Protetor Supremo só se sente verdadeiramente livre quando coloca o capacete de Realidade Virtual. O seu capacete permite-lhe navegar por esse universo fictício em segurança. As modificações operadas na sua conceção são da sua autoria.
A Omnipotente Inteligência não mantém um controlo especial
sobre posicionamentos específicos, desde que estes sigam o propósito para o
qual existem. Ela tem conhecimento da presença da “Unidade” nas bancadas da
Arena. Considera um capricho humano a admiração que esta sente por aquele
lutador em final de carreira. Permitindo-se um pequeno desvio ao protocolo,
ajudou aquele ser biológico em situações que podiam ditar a sua derrota. Claro
está que essa ajuda não teve origem em sentimentos, mas numa lógica de manutenção
e controlo sobre a “Unidade”. Agora que o equilíbrio biológico foi atingido, é
necessário passar à fase seguinte, e o Protetor Supremo tem um papel importante
nesse processo. Embora o seu papel seja importante, não é fundamental, mas o
algoritmo assim definiu. Este pequeno incentivo é apenas um estímulo para o
rato se manter focado e terminar o labirinto. Os Servidores encontram-se
totalmente operacionais, e o controlo biológico sobre o planeta é completo.
Quanto à existência da Realidade Virtual, tudo depende da sua utilidade.
Vilsa começou o combate sabendo que iria defrontar um dos
principais candidatos à final. No entanto, sentia os seus movimentos com uma
precisão invulgar e desviava-se com facilidade dos golpes do adversário. Além
disso, os seus golpes atingiam o alvo com uma força que ele não conhecia na sua
personagem. Ao fim de meia hora, o combate terminou. Os espectadores nas
bancadas estavam surpreendidos com a facilidade da vitória de Vilsa, e a sua
reação disso deu conta. Um grito de espanto ecoou na Arena quando se
aperceberam de que um dos lutadores não se levantava e de que o combate tinha
terminado. Nunca, na história destes duelos, houvera uma meia-final assim.
Vilsa dirigiu-se à tribuna presidencial para cumprir o protocolo, mas o resto
da cerimónia decorreu como que adormecida pelo acontecimento inusitado. Quando
retirou o capacete, ainda não estava em si. Só falta mais um, pensou. Mas o que
o perturbava era a decisão a tomar se vencesse o último combate.
O Protetor Supremo saiu rapidamente do recinto e refugiou-se
no quarto virtual. Quando retirou o capacete, as suas feições não conseguiam
esconder a satisfação que sentia. Tinha vontade de partilhar a sua alegria, mas
sabia que isso não lhe era permitido. Que se lixe, ninguém me vai impedir um
luxo do velho mundo. Foi com este pensamento que abriu uma garrafa de
aguardente envelhecida em carvalho novo. Este néctar estava destinado a outra
ocasião, mas o seu estado de espírito levou-o a tomar outra decisão. Sentou-se
confortavelmente e desfrutou, com nostalgia, aquele sabor antigo que lhe trazia
memórias tão agradáveis.
A Omnipotente IA processou os dados do combate e calculou as
hipóteses do que aconteceu. A probabilidade obtida foi cruzada com um número
incalculável de informações. Numa fração de segundo, o nome do Protetor Supremo
surgiu como causa imediata para o desfecho improvável do combate. A questão que
se colocava era facilmente computável. Poderia esta interferência colocar em
perigo a execução da Solução Definitiva?
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