O Último Combate de Vilsa X (Expetativas)
A responsabilidade pela gestão do setor da procriação não artificial estava entregue a uma das últimas grávidas consensuais. Assim eram apelidadas as mulheres cuja gravidez provinha de uma relação baseada no livre-arbítrio. Depois da exterminação seletiva, nunca mais foi possível procriar dessa forma. Era conhecida como a “Ceifeira”, mas o seu nome institucional era outro. A Mãe Suprema era a pioneira de uma ideia inovadora de sustentabilidade humana. Por cada nascimento, uma morte. O coito ocorria segundo parâmetros muito restritos de compatibilidade biológica e merecimento. Quando a mulher engravidava retiravam-na dos bairros periféricos e era encaminhada para o setor da procriação. Quando a criança nascia, cabia à “Ceifeira” revelar o nome do indivíduo cessante.
A Mãe Suprema aguarda pelo último combate sentada em frente da sua secretária
de trabalho. Abomina a Realidade Virtual e só coloca o capacete quando as suas
obrigações o exigem. Não é este o caso. Outra razão existe, que forçou esta
utilização. Espera passar as próximas duas horas sentada, por esse motivo faz
pequenos ajustes ao seu corpo que lhe permitam manter-se confortável.
O Protetor Supremo solicitou a presença do Secretário. Quer
partilhar com o seu “Servidor” o visionamento deste último combate. Preparou
duas bebidas, que colocou numa mesa equidistante das cadeiras onde ambos se irão
sentar. O Secretário anuiu, agradado pelo convite da “Unidade”. Esta manifestação
de confiança apaziguava o seu espírito receoso. Sentaram-se e colocaram os
capacetes. Apenas foram ditas as palavras necessárias para que o ato se
realizasse. O Secretário estava calmo, mas da “Unidade” emanava uma enorme tensão.
A Omnipotente Inteligência computa os dados recebidos. Estão
acima do valor calculado, mas dentro do intervalo de incerteza. Estão ligados à
Realidade Virtual a quase totalidade dos seres humanos. Este ano, a final será
entre dois lutadores da mesma cidade. Fosse ela humana e, sentiria o simbolismo
por detrás deste pormenor. Sabe da sua
existência, da importância daquela metrópole, a primeira entre as primeiras,
origem da renovação salvadora. A Omnipotente Inteligência computou as probabilidades
de interferência e acionou os respetivos meios de contingência.
O outro lutador é uma mulher. Responde pelo nome andrógeno de
Isval. O seu capacete está decorado com motivos que evocam os jardins romanos,
mas a sua imagem virtual é assustadora. Isval não é nova, no entanto, está bem
preparada fisicamente. Irá lutar de pé, como sempre fez.
Vilsa já tem o capacete colocado. Algo lhe diz que este combate
não será tão fácil como o anterior. Esta impressão não é originada pelo fato de
ser o último combate. É um desconforto profundo que não o deixa respirar, mas
não é esta a altura para premonições nefastas, está para muito breve o início
do combate, o seu último combate.
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