O Último Combate de Vilsa XI (A Final)
Começou o último combate da época. Como sempre, será concedido ao vencedor um desejo. Manda a tradição fabricada que o desejo seja divulgado no final do combate. Assim fez o Presidente quando foi a sua vez. Ele espera que o vencedor escolha a vida no Bairro Corporativo. Poucos são os que optam por regalias na Realidade Virtual. Se o seu lugar fosse cobiçado, ele teria de defender a sua posição num derradeiro combate. Tal nunca aconteceu, e o Presidente espera continuar em funções até ser “desativado”.
O combate esteve renhido, mas, ao fim de uma hora, Vilsa
está em sérias dificuldades. Isval é um lutador poderoso e tem o público do seu
lado. Mesmo os apoiantes de Vilsa estão enfeitiçados pelos golpes de Isval. Os
seus movimentos revelam uma leveza em tudo semelhante a um bailado. Não fossem
os golpes de extrema violência, até Vilsa apreciaria a coreografia do adversário.
Ele está próximo da exaustão. Isval não lhe dá um segundo de descanso e continua
a atingi-lo com precisão. Vilsa sabe que, se a situação se mantiver, irá perder
o combate.
A “Unidade” mexe-se como se fosse o seu corpo a receber os golpes
de Isval. O Secretário permanece indiferente aos acontecimentos na Arena. Para
ele, só interessa o resultado e as consequências que podem advir do mesmo. Saberá,
finalmente, as razões que levam o Protetor Supremo a apoiar um dos lutadores. O
Secretário pressente, mesmo sem ser um entendido, que o final está para breve. Isval
será o vencedor. A Vilsa resta aguardar pelo golpe de misericórdia. É este o
seu pensamento quando, finalmente, Vilsa cai por terra, completamente atordoado.
A “Unidade” deixou que a desilusão lhe escapasse dos lábios, convertida em vernáculo
do mundo anterior à Omnipotente Inteligência.
A Mãe Suprema está satisfeita. Era este o resultado que esperava. Ela sabia que
podia contar com a sua menina para derrotar Vilsa. Restava, agora, esperar pelo
pedido de Isval. Dentro de poucos minutos, o seu desejo seria revelado em
frente da tribuna presidencial.
Ouve-se o zumbido silencioso dos processadores quânticos. O
resultado foi a confirmação de probabilidade previamente computada. Imune a
sentimentos de qualquer espécie, a Omnipotente Inteligência prepara os dados para
a Solução Final.
Vilsa levanta-se com dificuldade, aproveitando uma mão que o
ajuda. A mão pertence a Isval. Enigmático, Isval diz-lhe: “Não será este o teu último
combate.”
Isval dirige-se à tribuna presidencial, acompanhado por
Vilsa, que o segue a curta distância. O público que assistiu ao combate está
ansioso por ouvir o vencedor reclamar o seu prémio. Para isso, é necessário que
o Presidente valide a vitória e lhe dê a palavra. Quando isso acontece, instala-se
um silêncio geral. Todos querem ouvir a declaração de Isval. E foi assim que
ele falou:
— Eu, Isval, guerreiro virtual e vencedor do combate final
desta época, quero saudar o meu adversário, Vilsa. Nunca haverá dignidade num vencedor
sem digno oponente. Reclamo agora o meu prémio ao digníssimo Presidente Virtual,
para ser submetido à vontade do Protetor Supremo, em concordância com os
protocolos da Omnipotente Inteligência Artificial. Eu declaro que deve ser concedido
a Vilsa um lugar no Bairro Corporativo. É esse o meu desejo.
Comentários
Enviar um comentário