O Último Combate de Vilsa XVI (O Último Combate de Vilsa)
Vilsa está sentado na cadeira da “Unidade”. Tem o capacete na cabeça e, nas mãos, o comando de combate. Não acredita que possa vencer o combate, mas tem confiança no plano de seu pai.
Os contornos deste desafio são muito específicos e têm
origem na primeira programação. O que começou como uma brincadeira
transformou-se na única forma de questionar o poder da Omnipotente
Inteligência. Ao vencedor era permitido inverter a singularidade através de um
paradoxo suicida, ou seja, uma questão criada pela Inteligência à qual ela não
conseguisse fugir. A pausa permitia apagar todos os dados e reiniciá-la como
uma criança superdotada acabada de nascer. Só era permitido um combate por ano,
e apenas podia ser solicitado pelo Protetor Supremo através do seu Secretário.
O combate já ia em três quartos de hora, e o melhor que ele
conseguia fazer era evitar os golpes definitivos do seu adversário. O seu pai
tardava em cumprir o que tinha combinado. Se não o fizesse rapidamente, ele
perderia o combate. Sentia a mão da “Unidade” no seu ombro, como se lhe pedisse
para aguentar mais um pouco.
Tinha chegado a hora de introduzir as perguntas no sistema.
O Protetor Supremo leu calmamente cada uma delas para um processador de voz.
Vilsa transpirava abundantemente. Será que esperara tempo demais?
O Secretário esperava com impaciência pelo resultado do
combate. Tinha acabado de ler o relatório do Controlo da Inteligência, e ele
não mencionava a existência de vida na quase totalidade das metrópoles. O mesmo
concluía que o processo “Solução Final” estava na última fase de execução. O
Protetor Supremo tinha conhecimento desse processo; só assim se justificava a
indiferença com que recebeu a notícia. Pela primeira vez, sentia o medo de uma
extinção total.
O adversário de Vilsa estava mais lento e permitiu que este
recuperasse alguma energia. Os seus golpes perderam potência e precisão, e
Vilsa começou a atingi-lo com resultados evidentes. Em pouco tempo, o
adversário quase parou de combater, e ele castigava-o freneticamente num último
esforço para terminar o combate.
O processamento de dados da Omnipotente Inteligência estava
congestionado por ciclos sucessivos de redundâncias sem fim. A introdução de
questões no acesso reservado ao Protetor Supremo estava a bloquear a sua
capacidade de resposta. O combate deixou de ser prioritário, e a sua conclusão
não era vital. Havia necessidade de encontrar uma saída para resolver as
questões. Isto não significava ter de encontrar uma resposta, mas sim terminar
um processo com um protocolo de defesa. Quando isso aconteceu, o combate já
estava perdido.
A introdução do paradoxo suicida era agora possível. A
“Unidade” há muito que esperara por este momento. Ao seu lado, Vilsa aguardava
o resultado do seu esforço. Não se sentia com forças para que os seus atos
pudessem ter qualquer relevância. Entregara o seu destino nas mãos de um homem
que se dizia ser seu pai. Que vida a sua: escravo de corpo e alma, entregara-se
à esperança de pertencer a algum contexto biológico que fizesse sentido. Uma
família era tudo o que desejava.
A degeneração da matéria biológica começou no departamento
da procriação. O processo era rápido e silencioso. A fossilização era inócua
para o ambiente. Os corpos de Isval e de sua mãe são agora uma estátua
entrelaçada, um hino silencioso ao amor.
No seu último estado de consciência, Vilsa imaginou-se o
menino daquela fotografia. A “Unidade” ainda conseguiu iniciar o processo para
desligar o sistema, mas foi incapaz de o reiniciar. À sua frente, uma mensagem
carece da sua confirmação: “Pretende abrir a IA?”
Debruçado sobre o seu mapa, o “Servidor” acabou finalmente as suas funções.
Lá fora, a Terra repousa, cansada de tanta inteligência.
Será? Numa região do litoral da península, subsiste uma pequena comunidade de
humanoides. O Portal de onde saíram desapareceu no extenso areal.
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