terça-feira, 28 de julho de 2026

Muzammil

 Muzammil é um jovem de dezasseis anos, filho de pais divorciados. A mãe, portuguesa, trabalha a dias, o pai morreu ao serviço do estado islâmico. Muzammil herdou muitos dos traços da mãe e só o nome lhe denuncia a ascendência paterna. Claro está que, depois de lhe saberem o nome, os colegas descobriam logo outras diferenças: desde a cor da pele, de um bonito bronzeado, à do cabelo, de um negro profundo, à dos olhos, escuros como o infinito.

Muzammil acredita na “música das esferas”, a música produzida pela revolução dos planetas. Está também convencido que é capaz de a ouvir. Muzammil anseia por encontrar alguém que, como ele, seja capaz de a escutar, mas não o revela a ninguém. À noite, senta-se à janela e, com as portadas abertas, permite a entrada de enigmáticas melodias. O relento das horas noturnas afaga-lhe as feições adolescentes e substitui a ausência do pai.

Muzammil recita versículos do Alcorão todas as manhãs. Como nasceu português junta-lhe o artigo definido e pronuncia o nome do livro sagrado dessa maneira. Lembra-se dos cinco deveres que são prescritos aos muçulmanos porque assim os ouviu a seu pai: a prece, o jejum, o pagamento do tributo dos pobres, a peregrinação a Meca, e a guerra santa. O mundo do Alcorão é masculino. Deus fala aos homens sobre os preceitos da fé. As mulheres são tema onde o sujeito se dilui. A mãe de Muzammil não é muçulmana nem sabe árabe.

Muzammil comprou um Oud, alaúde árabe, com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas férias grandes. Teve de o comprar online e à revelia da mãe. Ainda espera por ele. Não sabe tocar nem tem como aprender, mas acredita no instinto. Ele espera que o céu lhe desvende o segredo das formas.

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos,

O Clemente, o Misericordioso,

O Soberano do dia do julgamento.

A Ti somente adoramos. Somente de Ti imploramos socorro.

Guia-nos na senda da retidão,

A senda dos que favoreceste, não dos que incorrem na Tua ira, nem dos que estão desencaminhados.

 

Muzammil tem orgulho no pai, mas não o pode confessar. Ninguém iria entender a essência do seu orgulho, nem ele o saberia explicar. Há coisas assim, que se sentem sem explicação. Nem sempre o sangue é a causa, nem sempre o efeito é sangue.

Muzammil sonha com o Oud, e com melodias que não devia conhecer. O pai chama-o à oração indicando-lhe um tapete ao lado do seu. Recita os versículos em árabe como se conhecesse a língua. Quando se levanta o pai está morto no chão. Ele chora em pé, impossibilitado de movimentos.

Muzammil acordou muito cedo, mas manteve-se em silêncio para não acordar a mãe. Não tem lágrimas nos olhos. Já chorou tudo o que lhe era permitido. Hoje irá à Mesquita, ao fundo da sua rua.


Nota do autor; este texto não é recente e tem origem numa notícia que divulgou a morte de um português ao serviço do Estado Islâmico. As personagens são fictícias. 

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