Muzammil é um jovem de dezasseis anos, filho de pais divorciados. A mãe, portuguesa, trabalha a dias, o pai morreu ao serviço do estado islâmico. Muzammil herdou muitos dos traços da mãe e só o nome lhe denuncia a ascendência paterna. Claro está que, depois de lhe saberem o nome, os colegas descobriam logo outras diferenças: desde a cor da pele, de um bonito bronzeado, à do cabelo, de um negro profundo, à dos olhos, escuros como o infinito.
Muzammil acredita na
“música das esferas”, a música produzida pela revolução dos planetas. Está
também convencido que é capaz de a ouvir. Muzammil anseia por encontrar alguém
que, como ele, seja capaz de a escutar, mas não o revela a ninguém. À noite, senta-se
à janela e, com as portadas abertas, permite a entrada de enigmáticas melodias.
O relento das horas noturnas afaga-lhe as feições adolescentes e substitui a
ausência do pai.
Muzammil recita versículos
do Alcorão todas as manhãs. Como nasceu português junta-lhe o artigo definido e
pronuncia o nome do livro sagrado dessa maneira. Lembra-se dos cinco deveres
que são prescritos aos muçulmanos porque assim os ouviu a seu pai: a prece, o
jejum, o pagamento do tributo dos pobres, a peregrinação a Meca, e a guerra santa.
O mundo do Alcorão é masculino. Deus fala aos homens sobre os preceitos da fé. As
mulheres são tema onde o sujeito se dilui. A mãe de Muzammil não é muçulmana
nem sabe árabe.
Muzammil comprou um Oud, alaúde
árabe, com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas férias grandes. Teve de o
comprar online e à revelia da mãe. Ainda espera por ele. Não sabe tocar nem tem
como aprender, mas acredita no instinto. Ele espera que o céu lhe desvende o
segredo das formas.
Em nome de Deus, o Clemente,
o Misericordioso.
Louvado seja Deus, o
Senhor dos mundos,
O Clemente, o Misericordioso,
O Soberano do dia do
julgamento.
A Ti somente adoramos.
Somente de Ti imploramos socorro.
Guia-nos na senda da
retidão,
A senda dos que
favoreceste, não dos que incorrem na Tua ira, nem dos que estão desencaminhados.
Muzammil tem orgulho no
pai, mas não o pode confessar. Ninguém iria entender a essência do seu orgulho,
nem ele o saberia explicar. Há coisas assim, que se sentem sem explicação. Nem
sempre o sangue é a causa, nem sempre o efeito é sangue.
Muzammil sonha com o Oud,
e com melodias que não devia conhecer. O pai chama-o à oração indicando-lhe um
tapete ao lado do seu. Recita os versículos em árabe como se conhecesse a língua.
Quando se levanta o pai está morto no chão. Ele chora em pé, impossibilitado de
movimentos.
Muzammil acordou muito
cedo, mas manteve-se em silêncio para não acordar a mãe. Não tem lágrimas nos
olhos. Já chorou tudo o que lhe era permitido. Hoje irá à Mesquita, ao fundo da
sua rua.
Nota do autor; este texto não é recente e tem origem numa notícia que divulgou a morte de um português ao serviço do Estado Islâmico. As personagens são fictícias.
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