segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa VI (O Protetor Supremo)

 

O Protetor Supremo habita nos aposentos superiores da torre espelhada, mas nem sempre se encontra no edifício. Somente o seu secretário pessoal e a omnipotente IA sabem a localização exata do Protetor Supremo. As suas deslocações são efetuadas através de aeronaves autônomas, e a sua segurança também é automatizada. Cabe à OIA (Omnipotente IA) a gestão e programação dos protocolos que permitem estas viagens. Embora exista um Conselho Superior, que tem a responsabilidade de supervisionar a governação do Protetor, na prática isso não acontece, porque a escolha é efetuada pela OIA segundo critérios que ninguém pensaria em pôr em causa. Sendo assim, o Protetor Supremo foi apelidado de “A Unidade”, por nele convergirem todos os poderes que governam a Metrópole Federativa, uma união de diversas metrópoles espalhadas por todo o globo.

O secretário da “Unidade” é conhecido como “O Servidor”, mas ninguém se atreve a dirigir-se nesses modos à sua pessoa. Na sua presença, todos o tratam por Sr. Secretário. É, aliás, esse o nome gravado numa singela placa de madeira por cima da sua porta. O seu gabinete é antiquado, e tudo nele apela a um imaginário pré-OIA. Podemos afirmar, com certeza, que só a ele o Protetor Supremo permite esta tão flagrante lembrança de um passado analógico. A secretária de mogno impõe-se pela sobriedade de linhas, e a cadeira, com o assento e o espaldar forrados de couro negro, afina pelo mesmo diapasão. Os cortinados de veludo estão colocados num falso reposteiro e são apenas um apontamento decorativo, pois a visibilidade e a iluminação são controladas por sensores que detetam a vontade do usuário. O gabinete está ligado aos aposentos do Protetor Supremo através de uma porta dissimulada por detrás de uma pintura abstrata de autor desconhecido. O chão, de madeira, encontra-se coberto por um enorme tapete representando uma batalha medieval. É neste cenário que encontramos o Secretário. Há vários dias que passa parte do seu tempo observando um estranho mapa. Quer ter a resposta para uma série de questões relacionadas com uma possível conspiração. De tal maneira está desconfiado, que solicitou à IAC (Inteligência Artificial de Controlo) uma inspeção a todos os protocolos de manutenção da biodiversidade. Ele sabe que é uma área sensível, pois dela depende o equilíbrio biológico do planeta. Sabe também que é uma das principais tarefas da OIA. Foi graças à necessidade de controlar a demografia que a OIA se instalou como poder supremo, e a partilha desse poder é fictícia. O Protetor Supremo tem consciência desse fato. Mais, o Secretário não sabe.

A Unidade está inquieta. Sentada na sua poltrona sensorial, observa o bairro corporativo. Ao longe, os BRV (Bairros de Realidade Virtual) abrigam parte do excedente populacional. Os dedos da mão direita brincam com uma moeda de ouro, recordação de outros tempos. A mão esquerda agarra num símbolo com dois triângulos que usa pendurado ao pescoço. Os combates desta época estão a acabar, e ele tem seguido com particular atenção um dos lutadores. Aguarda, com alguma ansiedade, o início de uma das meias-finais. Esta irá começar em breve, e A Unidade não é indiferente ao seu resultado.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa V (Memórias)

 Deitado na cama, Vilsa tenta recordar os pais. Leva a mão debaixo do colchão regenerador e retira de lá uma pequena fotografia. Nela, encontra-se entre dois jovens adultos. Vem-lhe à recordação a última vez que viu o mar. Não chegou a aprender a nadar; o evento tecnológico tirou-lhe a família antes que isso pudesse acontecer. Mas a imagem daquela imensidão azul nunca desapareceu da sua memória. Nos dias mais difíceis, imaginava-se num extenso areal, construindo figuras na areia húmida. Era sempre a mãe que brincava com ele e lhe dava atenção. O pai estava sempre ocupado, com um ecrã à frente dos olhos. Recorda os olhos castanhos da mãe, assim como o seu cheiro. Lembra-se das noites abrigado no seu corpo, da sua voz meiga e reconciliadora, dos dedos longos, de pele macia, que lhe acariciavam os caracóis do cabelo, que a idade lhe roubou — a idade e o pente dois a que se obrigou. Já do pai pouco se lembra e, se não fosse aquela velha fotografia, tê-lo-ia esquecido completamente, ou quase. Na memória, continua a ecoar aquele vulto sempre escondido por detrás de ecrãs digitais.


Só depois de adulto é que teve acesso àquela fotografia. Conquistou esse acesso por mérito próprio, contribuindo com uma presença de máxima assiduidade no mundo virtual. Isso e os favores sexuais que dispensou a uma funcionária permanente da corporação. Nessa altura, ele ainda era um macho bem-parecido e cheio de vitalidade, e a velha senhora condoeu-se do seu desassossego obsessivo pela figura da mãe e conseguiu-lhe uma cópia física retirada dos arquivos centrais, não sendo sua a decisão de terminar com a relação. Esta continuou até a funcionária se fartar dele e escolher outro jovem mancebo para satisfazer as suas necessidades. Desta ambígua relação sobejou aquilo que hoje é o seu maior tesouro: a fotografia com a imagem da mãe. Seria de esperar que, estando de posse de tão valioso artigo, a sua inquietação desaparecesse, mas não foi esse o caso. A sua reação, quando observou a fotografia com mais atenção, foi de surpresa e perplexidade. Não havia dúvidas: a sua mãe estava grávida na altura em que a foto tinha sido tirada. Teria um irmão? Estaria vivo? Seria homem ou mulher? Onde estaria neste momento? E a sua mãe? Ele tinha ouvido dizer que muitas mulheres grávidas tinham sido requalificadas e integradas no setor de procriação não artificial. Teria a sua mãe sido requalificada? Desde esse dia, a sua inquietação não parou de aumentar. Finalmente, tinha um propósito na vida. É nisto que pensa enquanto coloca novamente a foto debaixo do colchão.

sábado, 13 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa IV (O Presidente)

 Na tribuna presidencial, o representante do Líder Protetor acomoda-se na poltrona almofadada. Espera que o combate seja ganho por Petrov, pois apostou muito dinheiro nesse lutador, mas espera, acima de tudo, que o combate agrade ao Líder Protetor, também conhecido como “A Unidade”. A organização desta época está a seu cargo. Se os jogos forem bem-sucedidos, ele terá grandes possibilidades de continuar como responsável pela sua organização. A posição que hoje ocupa deve-se ao seu sucesso como lutador nas três últimas épocas. Poderia ter saído da Realidade Virtual e ocupado uma qualquer função na estrutura da corporação, mas escolheu ficar onde sempre viveu. O seu estatuto permite-lhe diversas regalias do mundo corporativo e continuar a exercer a mais elevada função na Realidade Virtual. Nem sempre a liberdade é o bem mais desejado. Na sua opinião, não havia ninguém que pudesse afirmar ser totalmente livre. A verdadeira questão é saber de quanta liberdade estamos dispostos a abdicar para atingir os objetivos a que nos propomos. Ele tinha a convicção de que “A Unidade” também fora obrigada a responder a esta questão.

Entretanto, o combate principiara, e as bancadas fervilhavam de excitação. Na arena, o frenesim era intenso e justificava os gritos histéricos da multidão. Ao fim de uma hora, o combate deu sinais de abrandamento, mas, mesmo assim, continuava intenso. Ambos os lutadores se encontravam muito maltratados, exibindo diversos cortes no rosto e inchaços nas pernas, devido à extrema violência dos golpes. O lutador da túnica púrpura estava em pior estado, mas o da túnica vermelha encontrava-se mais cansado, o que tornava difícil prever o desfecho do combate.

Sentado na cama, Vilsa transpira abundantemente. Está visivelmente cansado e começa a sentir dormência nos membros superiores. Petrov não desarma e continua a atacar com tremenda tenacidade, mas os seus golpes estão a perder eficácia. A experiência de Vilsa diz-lhe que, se aguentar os próximos minutos, terá hipótese de desferir o golpe de misericórdia no seu adversário.

O Presidente solta um grito de admiração ao ver Petrov cair inanimado no meio do recinto arenoso. Não estava à espera deste desfecho e viu a sua conta de MD (Moeda Digital) diminuir no mostrador de crédito. No entanto, podia dar-se por satisfeito: o combate tinha sido um espetáculo memorável. Os adeptos do lutador derrotado enxugaram rapidamente as lágrimas e gritavam, em uníssono, o nome de Vilsa.

A sua estratégia tinha resultado, mas o preço fora demasiado elevado. Não sabia se conseguiria recuperar a tempo do próximo combate. A pausa até ao recomeço dos combates da fase final era de três dias. Enfim, nunca tinha chegado tão longe. Seria esta a sua época?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa III (Vilsa)

O jogador veste um uniforme azul. Será essa a cor do seu uniforme enquanto permanecer no jogo. Para os vencidos, está reservado o cinzento. Do lado esquerdo, junto ao coração, uma pequena placa branca exibe o nome do jogador, com letras simples de cor preta. Podemos ler que o seu nome é Ulapo Vilsa. Vilsa ainda é do tempo em que as crianças nasciam com progenitores registados. Teve pai e mãe até à disrupção provocada pela IA. Os seus pais foram dos primeiros a ser dispensados, pois desempenhavam funções burocráticas na administração central. Quando isso aconteceu, ele foi entregue ao Departamento de Avaliação de Potencial (DAP), enquanto os seus pais integraram o enorme contingente de humanos passíveis de reconfiguração funcional. Vilsa tinha dez anos quando foi rejeitado pelo DAP. O destino dos rejeitados passava por novas triagens ocupacionais. Esta fase podia prolongar-se até à maioridade, altura em que lhes destinavam um cubículo habitacional individual (CHI). Durante o processo, eram cumpridas 16 horas obrigatórias de aprendizagem no mundo virtual, de modo a adaptá-los ao seu novo futuro.

Vilsa está preparado para o combate da manhã. O seu oponente é muito mais novo e utiliza um comando que lhe permite usar o corpo para o confronto. Esse sistema é recente, e ele ainda não se conseguiu habituar a ele, embora esteja disponível no seu equipamento. Dos oito lutadores que disputam o acesso à final a quatro, só Vilsa usa o comando antigo. Para ele, não se tem mostrado desvantajoso o seu uso; deve, no entanto, começar com todas as cautelas. Na última hora, dedicou grande parte do tempo a verificar o sistema de refrigeração do capacete. É fundamental que esteja totalmente operacional quando o combate começar.

Entrou na arena pela porta reservada aos lutadores e dirigiu-se à sala de preparação que lhe estava destinada. Os seus apoiantes tinham ficado lá fora e dirigiam-se agora para as bancadas do recinto. Com ele está o seu velho treinador. De repente, as trombetas soam. Está na hora de se apresentar junto da tribuna presidencial. Como sempre, estes últimos instantes antes do confronto passam sem que ele dê conta, totalmente concentrado nas técnicas de combate que irá utilizar. Vilsa é conhecido por ser um lutador frio e extremamente eficaz. Os seus últimos combates não têm ultrapassado a meia-hora, mas ele não acredita que isso vá suceder hoje. O ambiente nas bancadas está frenético e o público está dividido. As claques exibem as cores dos seus lutadores e entoam os seus nomes, numa cacofonia onde se misturam os sons de Vilsa e Petrov. O combate está prestes a começar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa II (O Lutador)

 O jogador levanta-se da cama. Passou as últimas seis horas a preparar os pormenores do combate. Se vencer, ficará qualificado para a final a quatro. Não sai de casa desde que começou a competição. Por cima da sua porta, um painel luminoso indica que ainda está em jogo. Ao lado deste painel, pisca uma luz vermelha. Este borbulhar de contorno vibrante é um grito que avisa quem o observa: nesta casa, vive alguém que está offline. De contrário, o pulsar lançaria um murmúrio constante, em tons de verde tranquilizador. Sim, este guerreiro precisa de descansar e de um banho. O alarme de limpeza já o alertou para a existência de odores impróprios. Mesmo com uma autorização especial, não deve abusar. Ainda terá de se ligar à rede corporativa se quiser receber a sua dose diária de substâncias nutricionais. Só depois desta tarefa obrigatória poderá dormir. Terá de aproveitar as seis horas de sono que lhe foram concedidas.

A arena apresenta agora um ar tranquilo. Com areia limpa e penteada, está novamente pronta para os combates. Lá fora, ouvem-se sons de um quotidiano antigo. Anoiteceu, e as lanternas de azeite começam a acender-se nas ruas que circundam a arena. Este bairro nunca dorme. Na zona das tabernas, o ar rançoso convida ao consumo de gorduras e de álcool. É nas tabernas que podemos encontrar os vencedores e os seus apoiantes. Fora da arena, apenas os seus adeptos podem confrontar-se. A corporação tolera estas escaramuças, desde que não sejam utilizados instrumentos de morte imediata. Estas são as regras para esta época.

O homem dorme profundamente. A cidade, lá fora, permanece escura e silenciosa. Apenas nos bairros corporativos se nota alguma azáfama. Estas são ilhas de luz no meio do negrume noturno. Num deles, destaca-se uma imponente torre espelhada, que espalha fragmentos de luz em diversas direções. No seu interior, um homem não dorme. Está sentado a uma velha secretária de mogno envernizado, em excelente estado de conservação. À sua frente, encontra-se aberto o que parece ser um mapa-mundo de contornos indecifráveis. Da sua boca sai uma ladainha quase impercetível. Por detrás dele, dois triângulos embaraçados simulam um estranho brasão.

 

sábado, 6 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa I (A Arena)

 Terminado o combate, os adversários afastam-se, cada um para o seu canto. As luvas são retiradas e os homens recuperam os dedos de ambas as mãos. Dois funcionários da arena semeiam areia por cima do sangue espalhado. A multidão uiva, numa agitação animalesca, enquanto se ouvem petardos no exterior do recinto. Os lutadores são chamados a comparecer junto à tribuna presidencial. Ouvem-se trombetas que anunciam a presença da polícia de choque. Um dos lutadores apresenta graves ferimentos, não conseguindo abrir os olhos; mesmo assim, encaminha-se para a tribuna, coxeando da perna direita. Um deles vai ser escolhido.

No sofá, o homem manobra um comando. Enverga um capacete que não lhe deixa ver os olhos. Noutro local, outro homem está sentado numa cama. Tal como o primeiro, também este usa um capacete e manobra um comando. Ambos estão defronte da tribuna e esperam uma decisão.

O Presidente levanta-se e faz um gesto à multidão para que se acalme. Antecipando a decisão, a arena silenciou-se. A voz do Presidente ouviu-se nos altifalantes, anunciando o vencedor.

O homem sentado no sofá pousou o comando e tirou o capacete. Tinha lágrimas nos olhos e um ar desiludido. Esta época não terá outra oportunidade e tem consciência desse facto.

O lutador derrotado é levado numa jaula para o interior das instalações. A sua vida deixou de estar nas suas mãos. Ao vencedor, a glória. A carruagem dourada irá passeá-lo pela cidade até ao templo dos heróis.

O homem sentado na cama treme de excitação. Tem uma mão no comando, enquanto agita a outra num gesto de agradecimento.

No final do dia, a corporação anuncia os jogadores que passaram de nível. Enormes painéis digitais apresentam listas de nomes, enquanto multidões aguardam, ansiosas, pelos resultados. Estas são as últimas eliminatórias. Para breve, está o final da época, com uma disputa entre os quatro melhores. As claques preparam-se para os combates finais, aglutinando os derrotados. Este processo garante que todos se identifiquem com um dos lutadores ainda em combate.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Relojoeiro IV

 Nota: Quem manda sou eu. Deixei-a brincar um pouco e ela desviou-se do curso natural dos rios que nascem da minha imaginação. Demasiado erudito, comercial e moralmente correto o seu caminho retirou-lhe a minha alma. Prefiro as minhas imperfeições pois são reflexo de quem eu sou, e a minha moral não é paginada por regras impostas. Eu navego nas águas agitadas de um oceano sem limites. Muito embora a minha escrita não seja refinada serve o meu propósito. As repetições desnecessárias, a pontuação ortográfica errática, os sobressaltos narrativos não existem para facilitar a vida ao leitor, mas para lhe tirar o chão debaixo dos pés e provocar o desconforto, ou não, e perplexidade. Sou assim, informal e simples, esta é a minha voz e é assim que vou terminar o meu conto. No entanto, não sou mal-agradecido, é por esse motivo que expresso aqui o meu especial agradecimento à IA. Sem a sua colaboração este conto nunca seria o mesmo. Percebo que teria um longo caminho a percorrer até ficar legível e vendável, mas não tenho tempo nem espaço. Talvez seja melhor assim. Continuemos então para o último capítulo deste conto.

 

Marcelino trabalhou a noite inteira. Foi o sol que o despertou. Insinuou-se vindo da loja e introduziu-se na oficina através de uma pequena janela com cortinas verdes. Demorou algum tempo até que as caricias solares fizessem efeito. Foi preciso que lhe perturbassem a visão para o fazer pousar os braços na bancada de trabalho. Teria valido a pena?

Marcelino observou com atenção o relógio que tinha à sua frente como que procurando uma resposta, mas este permaneceu silencioso. Esta noite saberia a resposta. Não fosse o cansaço e o seu rosto teria manifestado sinais de alguma ansiedade. Por agora já não havia mais nada a fazer senão espera. Sendo assim iria para casa. Um banho bem quente, uma caneca de café com leite e uma torrada com manteiga seriam suficientes para o deixar dormir.

Chegou a casa já o relógio da Igreja anunciava as dez da manhã. Deitou-se por volta do meio-dia. Ainda não tinha adormecido quando a sirene dos bombeiros ecoou pelas paredes nuas do seu quarto. Antes de se deitar deu corda a um velho despertar de campainha e levou o ponteiro do alarme até ao número nove, três quartos de tarde antes de terminar o dia.

Marcelino sonhou e o sonho que lhe povoou o sono teria sido revelador se ele conseguisse recordá-lo, mas isso não aconteceu. Sabe apenas o que o corpo lhe contou, que transpirou como se tivesse purgado pelos seus poros todas as enfermidades do mundo. De tal forma suou que sentiu necessidade de tomar outro banho mal acordou. Ainda tinha tempo suficiente pois era um homem avisado e nunca deixava as horas sem margens para subir. Mal estamos nós quando o tempo nos arrasta nesse turbilhão horário que é o atraso. Isso não acontece com Marcelino que é um mestre do tempo e sabe como navegar em todos os fusos. Mas voltemos ao nosso mestre. Depois do banho vestiu-se com meticuloso critério. Cobriu-se com um sobretudo e colocou um chapéu de copa alta, ambos pretos. Saiu de casa e verificou duas vezes se a porta estava fechada, mas não se apercebeu do seu gesto.

Demorou cinco minutos a chegar à loja. Mal entrou dirigiu-se à oficina onde se encontrava o relógio de parede e depositou no seu interior o fino fio de prata. Pegou na fotografia do velho senhor e guardou-a na carteira. Abriu um estojo de veludo preto e retirou de lá um relógio de bolso de um metal desconhecido e finamente trabalhado. Saiu de casa e dirigiu-se em direção ao bairro velho. O caminho já era conhecido e ele desta vez não precisou de ajuda para chegar ao destino. A noite estava fresca e Marcelino sentiu necessidade de levantar a gola do sobretudo. Hoje o caminho pareceu-lhe mais curto e pareceu admirado quando se viu defronte do portão da moradia. Ao longe lá estava a janela com a luz acesa. Marcelino atravessou a rua e consultou o relógio de bolso. Sim, tinha calculado o tempo com precisão. Olhou para o céu limpo e respirou fundo. Já falta pouco, pensou. Fixou o olhar na janela iluminada e esperou. Passado algum tempo sentiu uma vibração no ar que lhe provocou um arrepio de calor. No mesmo instante a luz da janela apagou-se. Marcelino tirou o relógio e confirmou a hora. Os ponteiros encontravam-se imobilizados nas 11 horas e 13 minutos. Voltou a guardar o relógio e olhou uma última vez para a janela da moradia que permanecia às escuras antes de desaparecer nas sombras da cidade. O serviço estava concluído.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Relojoeiro III

 Nota: parceria entre o autor e a IA


Marcelino ficou imóvel diante do portão entreaberto, escutando. Da janela do andar de cima vinha mais do que o atraso de um relógio: vinha uma desordem miúda, insistente, como se os segundos ali dentro tropeçassem uns nos outros antes de cair. Levou a mão ao bolso do casaco e sentiu, sob os dedos, a corrente de prata estremecer como um nervo vivo. Erguer os olhos para o céu foi um gesto antigo, quase involuntário. As nuvens passavam baixas, espessas, deixando entre si apenas breves clareiras onde as estrelas surgiam e desapareciam com a impaciência de quem não deseja ser vista. Marcelino não precisou de pensar muito para compreender que chegara tarde demais para uma simples avaliação. Havia casas onde o tempo adoecia devagar; naquela, porém, alguma coisa começara já a desfazer-se. O tremor subiu-lhe pelas pernas sem aviso, obrigando-o a apoiar-se ao poste mais próximo. À luz baça do candeeiro, o seu rosto pareceu subitamente mais velho, como se a noite lhe tivesse acrescentado anos. Passou a língua pelos lábios secos, fechou por um instante os olhos e deixou que o corpo recuperasse a obediência. Depois tornou a fitar a janela acesa, com a atenção austera de quem reconhece, antes de lhe ver o nome, a natureza de um perigo.

Marcelino voltou à loja incapaz de regressar a casa. No bolso interior do casaco, o fio de prata brilhava com uma intensidade febril, como se tivesse recolhido alguma coisa da tempestade. Só agora o trabalho começaria verdadeiramente. Entrou sem acender a luz e atravessou a loja às escuras, guiado apenas por aquele fulgor ténue e persistente. Na oficina, deixou-se cair numa cadeira de madeira diante da bancada, mais vencido do que sentado. Fechou os olhos por um instante, sentindo nos ossos o peso da noite e daquilo que ainda faltava fazer. Depois murmurou para si, sem ironia nem queixa, como quem reconhece uma verdade antiga: já estou velho para isto.

 


quinta-feira, 28 de maio de 2026

O Relojoeiro II

Do outro lado da porta, a casa prolongava a loja como se fosse o seu avesso. Ali o ar era mais frio e cheirava a verniz antigo, óleo fino e madeira encerrada há demasiado tempo. Marcelino acendeu um candeeiro de mesa com abat-jour verde, pousou a fotografia junto de um torno de precisão e abriu o papel dobrado com a morada. Leu-a duas vezes, não por desconfiança, mas por respeito. Havia nomes e ruas que exigiam uma segunda leitura, como se só à segunda vez consentissem em existir.

A oficina das traseiras não recebia clientes. Era um compartimento estreito, sem janelas, onde os relógios que não pertenciam inteiramente a este mundo repousavam em gavetas baixas, etiquetados por datas, iniciais ou pequenos sinais que só ele compreendia. Sobre a bancada, alinhavam-se pinças, lupas, molas, chaves minúsculas e três caixas de metal sem inscrição. Marcelino tirou o colete, arregaçou as mangas e ficou por instantes imóvel diante da fotografia do velho senhor, como um médico que escuta um silêncio antes de diagnosticar a doença.

Pegou então num relógio sem mostrador, liso como uma pedra de rio, e pousou-o ao lado da fotografia. Era com aquele instrumento que se verificava se um caso estava apenas atrasado ou se, pelo contrário, já tinha entrado na zona das perdas definitivas. Marcelino encostou dois dedos ao metal, fechou os olhos e esperou. Ao fim de alguns segundos, sentiu um estremecimento breve, quase uma pulsação envergonhada, e soube que ainda restava margem. O velho senhor não estava perdido; estava apenas desencontrado do seu próprio tempo.

Sem surpresa, Marcelino abriu uma das caixas de metal e retirou dela uma bússola de ponteiro escurecido, um relógio de pulso parado nas onze e treze, e uma corrente de prata tão fina que parecia feita de cabelo branco. Colocou os três objetos dentro dos bolsos interiores do casaco. Depois tornou a pegar na fotografia. O retratado tinha a rigidez dos homens que, durante toda a vida, se habituaram a ser pontuais por medo do caos. Marcelino reconheceu logo esse género de gente: quando desapareciam, nunca era por acaso.

Apagou o candeeiro, regressou à loja e saiu para a rua já deserta. A noite descera sobre a Amadora com um calor imóvel, de trovoada adiada, e as fachadas pareciam guardar a respiração. Marcelino caminhou sem pressa, mas sem hesitar, como quem obedece a um itinerário antigo. A cada esquina, confirmava o rumo com a mão dentro do bolso, sentindo a vibração surda da bússola. Só parou quando chegou diante da morada escrita no papel: uma vivenda baixa, recuada da estrada, com o portão entreaberto e todas as janelas apagadas, exceto uma, no andar de cima, onde um relógio batia as horas com um atraso impossível.

Nota do autor: este capítulo foi entregue à IA segundo instruções do autor.


terça-feira, 26 de maio de 2026

O Relojoeiro

 Marcelino é relojoeiro. Tem estabelecimento montado numa rua escondida da Amadora. Marcelino trata das ferrugens do tempo. É arqueólogo de raridades temporais. Ele dá vida ao testemunho que perdura nas rodas dentadas dos mecanismos alheios. Não falta trabalho a Marcelino que se encontra sempre ocupado a reparar o tempo dos outros. Um de cada vez para não os misturar, para isso já basta o destino. Neste momento está ocupado a reparar um relógio de bolso que pertenceu ao avô de uma cliente. O trabalho está quase concluído e ele encontra-se satisfeito com a sua execução, para além disso irá cumprir o prazo de entrega. Uma velha senhora, quase tão velha quanto ele, entra na loja e dirige-se ao balcão. O espanta-espíritos de bambu assinalou a sua chegada e o relojoeiro veio recebê-la, solícito. A velha senhora tem uns óculos escuros postos e não os retira. O relojoeiro regista esse pormenor e faz uma avaliação rápida da sua cliente. Com um sorriso educado dirige-se à velha senhora e pergunta:

-Em que posso ajudá-la, minha senhora?

A mulher respondeu:

-Preciso dos seus serviços.

Ao que o relojoeiro retorquiu:

-Tem consigo o artefacto que pretende reparar?

A velha senhora respondeu sem hesitar:

- Não é desse serviço que eu necessito.

Então a velha senhora tirou os óculos escuros revelando dois olhos negros. O relojoeiro, sem desviar o olhar, perguntou:

-Podia fazer o favor de me dizer quem lhe falou nos meus serviços?

Ela respondeu que tinha sido uma amiga comum a sugerir o seu nome. De seguida revelou a identidade da amiga comum. O relojoeiro, após um breve silêncio, perguntou:

-Pretende, pelo que eu percebo, um serviço Idêntico?

Ao que a velha senhora respondeu:

-O caso é em tudo igual.

E o relojoeiro respondeu:

-O serviço será efetuado até ao final da semana, só então eu receberei os meus honorários.

A velha senhora despediu-se deixando no balcão a fotografia de um velho senhor. Junto com a fotografia deixou também um papel com uma morada. O relojoeiro pegou na fotografia e no papel, e dirigiu-se à porta da loja encerrando-a. Após virar uma tabuleta desapareceu por uma porta que se encontrava por detrás do balcão. 


domingo, 24 de maio de 2026

O Que Fazer Com A Escuridão?

 No quarto escuro o silêncio escorre pelo meu corpo. Eu sou uma taça onde os ruídos noturnos repousam. Envolto num mar revolto respiro entre as ondas dos lençóis observando ao longe a tábua do horizonte encoberta por uma neblina de mantas coloridas. O meu corpo repleto de gemidos verte os seus fluidos às correntes gasosas para que a palavra se eleve, balão de matéria vermelha, por cima do que é eterno. Ao meu lado a voz é silêncio de campainha e os meus dedos são náufragos perdidos na escuridão.

O que fazer com a escuridão?

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...