Alhures alguém vigia. Ser superior a todos os nomes,
entidade apenas intuída, é alma sem ser alma. Criador primordial, porque alguém
tinha de desempenhar esse papel, ocorre num espaço e num tempo que cada um de
nós identifica de maneira individual. Existem no entanto casos de mistificação
coletiva onde, de forma organizada, se venera o espaço e o tempo moldando-o
criador. Sendo omnipresente por necessidade de aceitação atua
indiscriminadamente movido por vontades ocultas. As Deusas-pagãs-maiores
buscam-nas nos presságios que se encontram codificados nos cetros divinos. Os
Deuses-criadores-menores analisam a atuação divina e assimilam-na como norma.
Utilizam os seus cetros como meio de normalizar, através de protocolos
iniciáticos, o caos criativo que resulta das Ações indiscriminadas do supremo
ser, suposto criador por necessidade de haver alguém que desempenhe esse papel,
como atrás já foi referido. Alhures alguém vigia, frase obviamente
desnecessária porque faz parte da natureza desse alguém exercer essa vigilância
contínua, resulta da necessidade de uma redundância. As redundâncias são uma
espécie de lembretes, o sublinhado nos livros de estudo, o Bold agressivo nas mensagens panfletárias. Esta em particular dá
enfase à ação seguinte, o que acontece porque alguém vigia. Neste caso o que
acontece é um apagar de luzes, um fechar de pano. Os atores desaparecem e com
eles desaparece também a narrativa. O ser superior a todos os nomes, entidade
apenas intuída, exerceu a sua ação indiscriminada na vontade do
Deus-criador-menor, responsável pela palavra escrita. Com essa ação secou-lhe
o verbo e indicou-lhe o caminho para a decima quarta perspetiva. O ecrã do
portátil apaga-se e, tal como uma cocha, encerra-se sobre si mesmo. O
deus-criador-menor levanta-se sem rumo tentando a comunhão apaziguadora de um
cigarro. A decima quarta perspetiva dissipar-se-á no fumo nicotizado do vício…
sexta-feira, 25 de junho de 2021
Perspetivas (decima quarta…última abordagem)
Perspetivas (decima terceira abordagem)
Dois deuses aposentados descem pausados a rua. Entre si dividem mais de centena e meia de anos. Vêm em silêncio e deles não deriva nenhuma perturbação. Aproximam-se do café e atravessam a esplanada com reverenda dignidade. O degrau que os separa do interior do estabelecimento é um obstáculo. Ultrapassado com vagar meticuloso permite-lhes uma entrada serena e cautelosa. Escolhem cuidadosamente a mesa onde irão repousar os seus físicos gastos. A luminosidade e o recato de uma mesa junto à janela serão critérios primordiais para que a escolha se concretize. A abordagem é realizada solenemente e com gestos de elevada teatralidade que revelam a importância dada ao momento. Os deuses aposentados vivem cada momento com uma intensidade insuspeita e pouco compreendida. Os deuses aposentados sabem que a cada segundo que passa ficam um segundo mais perto. O fim não é um acontecimento longínquo mas antes uma convocação anunciada. A rapariga-feiticeira observa, com olhar meigo, os gestos dos deuses aposentados. A futura mulher-criadora não precisa de grandes cuidados na sua abordagem. Poderá permitir-se ser ela, bonita, de sorriso fácil, olhar puro que transpira juventude em cada pigmento colorido da sua íris. Não precisará de aproximações cautelosas, nem de jogadas ludibriosas. Não necessitará de escusadas reverências nem de subserviências encenadas. Aproximar-se-á da mesa e desejará um “bom dia” luminoso e insinuará os “dois cafezinhos” do costume. Receberá o habitual elogio à sua beleza e á sua simpatia, elogios honestos de quem já não precisa mentir. A cena decorre de tal forma serena que em nenhum momento os dois Deuses-criadores-menores e a Deusa-pagã-maior sentiram necessidade de desviar a atenção dos seus cetros para a observar. A rapariga serve com satisfação os dois deuses aposentados. A futura Deusa-pagã-maior inveja o desprendimento com que os deuses aposentados usufruem do seu café.
Perspetivas (decima segunda abordagem)
A vida não se resume a deuses precoces. Também não se esgota nas deambulações maduras de deuses experimentados. Os deuses aposentados representam parte significativa da sociedade divina. Têm uma postura cansada, disfarçada de benevolente lentidão. Muitos deles exerceram o seu poder de forma oral, recorrendo à leitura de livros, revistas e jornais. Os novos cetros são objetos de assimilação difícil. Sentem os constrangimentos normais de quem viveu sem esta nova forma de “ser” divino. O upgrade divino apresenta-lhes inúmeras dificuldades, ecrãs de pequena dimensão, luminosidade incorreta, botões minúsculos e dissimulados em designs de gosto em constante mutação, palavras e instruções enigmáticas. Os seus dedos tateiam os cetros de forma lenta e errática fazendo sair das suas bocas diversas interjeições de desagrado, despejadas em murmúrios de falsa oração. Mas também eles se renderam ao upgrade divino e não se coíbem em mostrar tais preciosos artefactos aprendidos em segredo, em longas soirées de desespero, com a preciosa ajuda da sua prole divina. De entre todos são eles os que demonstram, através de gestos de cuidada reverência, o maior respeito por tão poderoso objeto. Têm noção de que nunca conseguirão extrair na totalidade os novos feitiços disponíveis, quanto muito conseguirão manipular alguma magia corriqueira e isso bastará para um ego moldado por uma modéstia esculpida pelo passar dos anos. Os deuses aposentados tendem, na sua maioria, para a assexualidade física. Dificilmente o Deus aposentado masculino admitirá tal facto. O orgulho e a memória de antigos feitos levam-no a um estado de negação que, não sendo pernicioso, gera alguns equívocos. A deusa aposentada prefere não falar no assunto deixando que o seu mundo sensorial derive por outros universos. Os deuses aposentados, cuja homossexualidade foi assumida numa altura da vida em que o ato sexual é necessidade premente, têm uma relação aparentemente mais saudável com este facto, mas só quem leva o fardo é que sabe o que lhe pesa.
sexta-feira, 28 de maio de 2021
Perspetivas (décima primeira abordagem)
A rapariga apercebe-se do desconforto dos Deuses. Pensa, talvez seja tarde demais. Gostava de ter poderes de mulher-feiticeira, fazer desaparecer os jovens adolescentes que se aproximam do balcão. Não sendo esse o caso resta-lhe enfrentar a tormenta. Com a vela de tempestade ao vento a rapariga manobra habilmente a situação. Numa jogada de antecipação dirige-se aos machos imberbes adivinhando-lhes o pedido. Com um gesto insinuador digno de prestidigitadora profissional oferece os croissants acabados de fazer. Adiciona-lhes creme de chocolate e uma lata de poção mágica, Cola original sem restrições. A estocada revela-se perfeita. Os dois jovens entregam-se, numa rendição incondicional, às mãos da Deusa precoce. Para a prestidigitação ser completa só falta fazê-los desaparecer. A ordem, mascarada de solicitude, é largada de maneira inocente, três palavras apenas, É para levar? Totalmente enfeitiçados, os príncipes em formação, anuem com jeito bovino. Tudo corre bem. Com o alvoroço controlado, a fúria dos Deuses dissipa-se perante o domínio da situação exercido pela jovem. No mesmo passe de magia a futura Deusa-pagã-maior fornece aos jovens as duas doses hipercalóricas. Entrega com uma mão, recebe com a outra. O valor a pagar também já tinha sido divulgado. Meio aturdidos com a solicitude eficiente da rapariga os jovens abalam, já não preocupados com os seus cetros luminosos, completamente ganhos pelo cheiro adocicado da guloseima disfarçada de pequeno-almoço. A saída dos machos imberbes faz-se silenciosa e apressada. A rapariga lança um último olhar aos jovens. A ingestão calórica ocupa agora as suas mentes irrequietas. Afastam-se de boca cheia e latas na mão. A rapariga-feiticeira, futura Mulher-criadora, está orgulhosa do seu domínio. Este tipo de controlo irá permitir-lhe muitos sucessos num futuro, que assim se adivinha, promissor.
terça-feira, 25 de maio de 2021
Perspetivas (décima abordagem)
Na esplanada os dois Homens-criadores apercebem-se da chegada dos adolescentes. Trocam entre si olhares de suave censura. São Deuses-criadores-menores , como tal, têm conhecimento da poderosa energia que emana dos dois machos imberbes. Invejam-na pelas sensações há muito perdidas. A consolidação do seu poder como Deuses retirou-lhes essa energia primordial. Hoje, sabem que ela existe, sabem que nunca a poderão recuperar. Os cetros que transportam consigo são prolongamentos úteis das suas memórias, dessas construções sedimentares cujas camadas protetoras impedem essa energia de fluir nos seus corpos. Os dois jovens entram no estabelecimento comercial. Demoram-se um pouco à entrada enquanto comentam sobre coisas visionadas. Fazem-no em voz alta, entoação juvenil em formação, modelação periódica com anomalias de descontrolo arrebatado. Após breve período de condescendência os Homens-criadores manifestam agora o seu enfado que rapidamente se converte em desconforto. Os adolescentes são alheios convictos à perturbação provocada. Numa avaliação superficial poder-se-ia facilmente chegar à conclusão de que, primeiro, a perturbação fazia parte dos seus intentos, jogo iniciático de testa limites, segundo, o objetivo da sua visita ao estabelecimento de consumo calórico tinha intenções puramente lúdicas e poderia perfeitamente ter sido evitado e em terceiro lugar que, de acordo com as duas primeiras premissas, os dois jovens imberbes, tendo cumprido os seus desígnios, sairiam pela porta fora rindo satisfeitos, convictos de ter destabilizado o mundo castrador dos Deuses-criadores. Embora racionais e possíveis estas conclusões não se adaptam a este caso concreto.
quinta-feira, 20 de maio de 2021
Perspectivas (nona abordagem)
A mulher sentada à mesa desfruta do sabor ligeiramente
adocicado da torrada acabada de fazer. Permite-se um ligeiro cerrar dos olhos.
Assim embevecida solta um impercetível gemido de prazer. É nos momentos em que liberta os sentidos do
espartilho do dever divino, e só nesses momentos, que a Deusa-pagã-maior se
revela mulher. A sensualidade com que se entrega aos sabores, a plenitude do
estomago saciado, o desligar do mundo ligando-se a si mesma, faz com sinta um
arrepio que lhe desce ao ventre. Agora, com a pessoa certa e as circunstâncias
alinhadas com os astros, deixaria o seu corpo abandonar-se a carícias. Por
momentos imagina mãos hábeis manuseando os seus pontos sensíveis. Imagina essas
mãos demorando-se, espantadas, nesses pontos recém descobertos. Prazer sem
opressão ou domínio, apenas abandono. A Mulher-criadora acorda para a realidade
de forma desconfortável. Dois jovens machos, plenos de vitalidade pós pueril,
avançam ruidosos pelo estabelecimento em direção ao balcão. A Mulher-criadora
reconhece num dos jovens a cria masculina de uma Deusa-pagã-maior sua
conhecida. A mulher-feiticeira não tem dúvidas quando decide usar o seu poder.
quarta-feira, 19 de maio de 2021
Perspetivas (oitava abordagem)
O mundo tem centros desconhecidos. O mundo dos adolescentes
tem centros de grande intensidade. A energia gerada por esses centros pode
mover o mundo assim como o pode destruir. A rapariga, projeto precoce de
Deusa-pagã-maior, tem tremores de vidente incompleta. A leve penugem dos seus
braços desnudados apresenta sinais de arrepio. A premonição capilar não é
descabida e concretiza-se na imagem juvenil de dois machos imberbes em
trejeitos desengonçados. O alarido por eles produzido é algazarra espontânea,
encenação improvisada. Os jovens têm o odor de hormonas em desenvolvimento e
espalham-no testando limites, demarcando terreno. São príncipes em formação,
aprendendo a criar através caos. Os seus
ecrãs luminosos são manipulados com exuberância e desleixada perícia. A
rapariga sabe com o saber de quem já viu, de quem já experienciou. Sabe que os
dois machos imberbes, príncipes em formação, entrarão ruidosos transpirando
juventude, exalando energia mal contida. Antecipa, numa previsão correta e
assertiva, que essa manifestação de vida em crescimento irá incomodar os
Deuses. Olha, como se visse o futuro, a imagem perturbada desses seres
superiores interrompendo o seu visionamento divino. Imagina-os vertendo olhares
reprovadores, primeiro para os machos imberbes, de seguida em sua direção
solicitando a sua intervenção. Como a rapariga sabe, com a mestria de quem
possui esse conhecimento, irá proceder em antecipação. Não irá evitar, antes mitigar, as consequências
antevistas.
terça-feira, 18 de maio de 2021
Perspetivas (sétima abordagem)
A rapariga por detrás do balcão deteta o odor morno do pão torrado. De olho no seu cetro prepara o pedido da Deusa-pagã-maior. Coloca cuidadosamente o chá e as torradas numa bandeja metálica de forma circular. A rapariga examina com pormenor a bandeja assim preparada. A mulher, Deusa-pagã-maior, manipula com destreza o ecrã do seu cetro. O mundo rende-se ao poder calmo e assertivo da mulher feiticeira. A rapariga aproxima-se com a bandeja. Com experiência de saber feito insinua o reflexo da sua imagem no ecrã-cetro da Mulher-criadora. Ligeiramente incomodada a Deusa-pagã levanta o olhar com uma expressão que não transmite nenhuma emoção facilmente percetível. A rapariga insinua a bandeja o que faz a mulher-feiticeira sorrir. De forma cuidada e reverente distribui pela mesa o prato com as torradas e a chávena de chá. A Mulher-criadora pousa o seu cetro e aconchega o pequeno-almoço para perto de si. A rapariga retira-se satisfeita com a sensação de dever cumprido. A Deusa-pagã-maior manipula os hidratos de carbono. Ingere-os com elegância e ajuda a deglutição com delicadas transferências da infusão aromática. A mulher-feiticeira guarda a mão direita para a sua obrigação criadora. A rapariga está novamente por detrás do balcão e tenta, com trejeitos forçados, as poses manipuladoras da Deusa-pagã-maior. Lá fora ouve-se o chilreio da animália voadora.
sábado, 15 de maio de 2021
Perspetivas (sexta abordagem)
Os dois Homens-criadores, Deuses-criadores-menores, sorriem
complacentes. As suas ligações revelam-se competentes permitindo um fluxo
continuo de informação. O manuseamento dos seus cetros pessoais é executado com
mestria por dedos treinados cuja memória
muscular permite uma simbiose perfeita entre o Homem-criador e o éter digital.
Alguns seres vivos voadores tentam a concentração destes Deuses-criadores-menores.
Fazem-no de forma orgânica e animal com tiques de intuição evolutiva. Chilreiam
comunicações numa cifra aparentemente abstrata intercalando vibrações sonoras
com deslocações aéreas de elevada intensidade. Um dos Homens é atraído pela
animália esvoaçante. Tenta identificá-la mas não tem certezas. Com um movimento
ágil e competente dirige o seu cetro para a matéria duvidosa e capta a sua
imagem. Com o animal assim guardado pode agora dissecá-lo. O semblante do Homem-criador
revela satisfação. Está na presença de
um Passer Domesticus. Olha para o segundo homem e comenta, pardal do
telhado. Este repete as palavras do primeiro deixando no ar uma interrogação,
pardal do telhado? Assim interrogado o primeiro homem executa algumas manobras
digitais fazendo fluir a informação do seu cetro para o do segundo homem. Devidamente
esclarecido o segundo homem murmura embevecido, pardal do telhado. Em total
sincronia ambos inspiram profundamente. A expiração, também ela sincronizada,
termina num suspiro coral. A ação conclui-se simultânea. O movimento dos órgãos
da visão faz com que eles repousem serenamente nos respetivos cetros.
sexta-feira, 14 de maio de 2021
Perspetivas (quinta abordagem)
Uma mulher aproxima-se do balcão. De mala a tiracolo e com o
braço ligeiramente fletido, leva na mão o cetro de Deusa-pagã-maior. A cabeça
da mulher encontra-se ligeiramente inclinada na direção do cetro. O cetro
brilha e reflete imagens indefinidas nos olhos da mulher. A rapariga por detrás
do balcão tenta adivinhar a direção visual que os olhos da mulher irão escolher
quando esta levantar a cabeça. Ambas permanecem imóveis durante alguns
segundos. A mulher junto do balcão levanta a cabeça e encontra o olhar da
rapariga. A rapariga sorri com o olhar ao qual acrescenta uma ligeira curvatura
dos lábios. Sente-se agradada com a sua intuição. A mulher também acrescenta uma pequena
curvatura à sua boca enquanto ergue o seu cetro, impingindo-o, de forma
amigável, à rapariga. Esta observa o trabalho realizado pela Mulher-criadora
recém chegada e sorri mostrando uns bonitos dentes brancos. A ligação foi
estabelecida. A mulher pode agora sentar-se e despejar a mala na outra cadeira
da mesa sem largar de vista o seu cetro. Por sua vez a rapariga prepara um chá
e torradas. Enquanto espera, passa suavemente com a ponta do dedo indicador no
ecrã do seu cetro, tentando-se Mulher-criadora.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
Perspetivas (quarta abordagem)
A rapariga não está ligada. Tem ímpetos de Mulher-criadora.
A Mulher-criadora é Deusa-pagã-maior, o Deus único sempre circuncisou a mulher.
A rapariga coloca-se estrategicamente por detrás do balcão. A sua visão
abrangente domina a esplanada, o interior do café e a bancada do balcão onde, em
local programado, o seu objeto comunicacional repousa num apelo silencioso. A
Mulher-criadora, experiente na execução de diferentes tarefas simultâneas, acaricia
o ecrã de forma subtil. O contato das unhas com o vidro do objeto devolve um
som intermitente. A Mulher-criadora, Deusa-pagã-maior, exerce o seu poder com delicadeza
e rapidez. Há urgência no seu ato criador, aproveitamento de uma pausa,
consciência da natureza breve de que é feita a sua conexão.
Preso à Parede
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