sábado, 6 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa I (A Arena)

 Terminado o combate, os adversários afastam-se, cada um para o seu canto. As luvas são retiradas e os homens recuperam os dedos de ambas as mãos. Dois funcionários da arena semeiam areia por cima do sangue espalhado. A multidão uiva, numa agitação animalesca, enquanto se ouvem petardos no exterior do recinto. Os lutadores são chamados a comparecer junto à tribuna presidencial. Ouvem-se trombetas que anunciam a presença da polícia de choque. Um dos lutadores apresenta graves ferimentos, não conseguindo abrir os olhos; mesmo assim, encaminha-se para a tribuna, coxeando da perna direita. Um deles vai ser escolhido.

No sofá, o homem manobra um comando. Enverga um capacete que não lhe deixa ver os olhos. Noutro local, outro homem está sentado numa cama. Tal como o primeiro, também este usa um capacete e manobra um comando. Ambos estão defronte da tribuna e esperam uma decisão.

O Presidente levanta-se e faz um gesto à multidão para que se acalme. Antecipando a decisão, a arena silenciou-se. A voz do Presidente ouviu-se nos altifalantes, anunciando o vencedor.

O homem sentado no sofá pousou o comando e tirou o capacete. Tinha lágrimas nos olhos e um ar desiludido. Esta época não terá outra oportunidade e tem consciência desse facto.

O lutador derrotado é levado numa jaula para o interior das instalações. A sua vida deixou de estar nas suas mãos. Ao vencedor, a glória. A carruagem dourada irá passeá-lo pela cidade até ao templo dos heróis.

O homem sentado na cama treme de excitação. Tem uma mão no comando, enquanto agita a outra num gesto de agradecimento.

No final do dia, a corporação anuncia os jogadores que passaram de nível. Enormes painéis digitais apresentam listas de nomes, enquanto multidões aguardam, ansiosas, pelos resultados. Estas são as últimas eliminatórias. Para breve, está o final da época, com uma disputa entre os quatro melhores. As claques preparam-se para os combates finais, aglutinando os derrotados. Este processo garante que todos se identifiquem com um dos lutadores ainda em combate.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Relojoeiro IV

 Nota: Quem manda sou eu. Deixei-a brincar um pouco e ela desviou-se do curso natural dos rios que nascem da minha imaginação. Demasiado erudito, comercial e moralmente correto o seu caminho retirou-lhe a minha alma. Prefiro as minhas imperfeições pois são reflexo de quem eu sou, e a minha moral não é paginada por regras impostas. Eu navego nas águas agitadas de um oceano sem limites. Muito embora a minha escrita não seja refinada serve o meu propósito. As repetições desnecessárias, a pontuação ortográfica errática, os sobressaltos narrativos não existem para facilitar a vida ao leitor, mas para lhe tirar o chão debaixo dos pés e provocar o desconforto, ou não, e perplexidade. Sou assim, informal e simples, esta é a minha voz e é assim que vou terminar o meu conto. No entanto, não sou mal-agradecido, é por esse motivo que expresso aqui o meu especial agradecimento à IA. Sem a sua colaboração este conto nunca seria o mesmo. Percebo que teria um longo caminho a percorrer até ficar legível e vendável, mas não tenho tempo nem espaço. Talvez seja melhor assim. Continuemos então para o último capítulo deste conto.

 

Marcelino trabalhou a noite inteira. Foi o sol que o despertou. Insinuou-se vindo da loja e introduziu-se na oficina através de uma pequena janela com cortinas verdes. Demorou algum tempo até que as caricias solares fizessem efeito. Foi preciso que lhe perturbassem a visão para o fazer pousar os braços na bancada de trabalho. Teria valido a pena?

Marcelino observou com atenção o relógio que tinha à sua frente como que procurando uma resposta, mas este permaneceu silencioso. Esta noite saberia a resposta. Não fosse o cansaço e o seu rosto teria manifestado sinais de alguma ansiedade. Por agora já não havia mais nada a fazer senão espera. Sendo assim iria para casa. Um banho bem quente, uma caneca de café com leite e uma torrada com manteiga seriam suficientes para o deixar dormir.

Chegou a casa já o relógio da Igreja anunciava as dez da manhã. Deitou-se por volta do meio-dia. Ainda não tinha adormecido quando a sirene dos bombeiros ecoou pelas paredes nuas do seu quarto. Antes de se deitar deu corda a um velho despertar de campainha e levou o ponteiro do alarme até ao número nove, três quartos de tarde antes de terminar o dia.

Marcelino sonhou e o sonho que lhe povoou o sono teria sido revelador se ele conseguisse recordá-lo, mas isso não aconteceu. Sabe apenas o que o corpo lhe contou, que transpirou como se tivesse purgado pelos seus poros todas as enfermidades do mundo. De tal forma suou que sentiu necessidade de tomar outro banho mal acordou. Ainda tinha tempo suficiente pois era um homem avisado e nunca deixava as horas sem margens para subir. Mal estamos nós quando o tempo nos arrasta nesse turbilhão horário que é o atraso. Isso não acontece com Marcelino que é um mestre do tempo e sabe como navegar em todos os fusos. Mas voltemos ao nosso mestre. Depois do banho vestiu-se com meticuloso critério. Cobriu-se com um sobretudo e colocou um chapéu de copa alta, ambos pretos. Saiu de casa e verificou duas vezes se a porta estava fechada, mas não se apercebeu do seu gesto.

Demorou cinco minutos a chegar à loja. Mal entrou dirigiu-se à oficina onde se encontrava o relógio de parede e depositou no seu interior o fino fio de prata. Pegou na fotografia do velho senhor e guardou-a na carteira. Abriu um estojo de veludo preto e retirou de lá um relógio de bolso de um metal desconhecido e finamente trabalhado. Saiu de casa e dirigiu-se em direção ao bairro velho. O caminho já era conhecido e ele desta vez não precisou de ajuda para chegar ao destino. A noite estava fresca e Marcelino sentiu necessidade de levantar a gola do sobretudo. Hoje o caminho pareceu-lhe mais curto e pareceu admirado quando se viu defronte do portão da moradia. Ao longe lá estava a janela com a luz acesa. Marcelino atravessou a rua e consultou o relógio de bolso. Sim, tinha calculado o tempo com precisão. Olhou para o céu limpo e respirou fundo. Já falta pouco, pensou. Fixou o olhar na janela iluminada e esperou. Passado algum tempo sentiu uma vibração no ar que lhe provocou um arrepio de calor. No mesmo instante a luz da janela apagou-se. Marcelino tirou o relógio e confirmou a hora. Os ponteiros encontravam-se imobilizados nas 11 horas e 13 minutos. Voltou a guardar o relógio e olhou uma última vez para a janela da moradia que permanecia às escuras antes de desaparecer nas sombras da cidade. O serviço estava concluído.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Relojoeiro III

 Nota: parceria entre o autor e a IA


Marcelino ficou imóvel diante do portão entreaberto, escutando. Da janela do andar de cima vinha mais do que o atraso de um relógio: vinha uma desordem miúda, insistente, como se os segundos ali dentro tropeçassem uns nos outros antes de cair. Levou a mão ao bolso do casaco e sentiu, sob os dedos, a corrente de prata estremecer como um nervo vivo. Erguer os olhos para o céu foi um gesto antigo, quase involuntário. As nuvens passavam baixas, espessas, deixando entre si apenas breves clareiras onde as estrelas surgiam e desapareciam com a impaciência de quem não deseja ser vista. Marcelino não precisou de pensar muito para compreender que chegara tarde demais para uma simples avaliação. Havia casas onde o tempo adoecia devagar; naquela, porém, alguma coisa começara já a desfazer-se. O tremor subiu-lhe pelas pernas sem aviso, obrigando-o a apoiar-se ao poste mais próximo. À luz baça do candeeiro, o seu rosto pareceu subitamente mais velho, como se a noite lhe tivesse acrescentado anos. Passou a língua pelos lábios secos, fechou por um instante os olhos e deixou que o corpo recuperasse a obediência. Depois tornou a fitar a janela acesa, com a atenção austera de quem reconhece, antes de lhe ver o nome, a natureza de um perigo.

Marcelino voltou à loja incapaz de regressar a casa. No bolso interior do casaco, o fio de prata brilhava com uma intensidade febril, como se tivesse recolhido alguma coisa da tempestade. Só agora o trabalho começaria verdadeiramente. Entrou sem acender a luz e atravessou a loja às escuras, guiado apenas por aquele fulgor ténue e persistente. Na oficina, deixou-se cair numa cadeira de madeira diante da bancada, mais vencido do que sentado. Fechou os olhos por um instante, sentindo nos ossos o peso da noite e daquilo que ainda faltava fazer. Depois murmurou para si, sem ironia nem queixa, como quem reconhece uma verdade antiga: já estou velho para isto.

 


quinta-feira, 28 de maio de 2026

O Relojoeiro II

Do outro lado da porta, a casa prolongava a loja como se fosse o seu avesso. Ali o ar era mais frio e cheirava a verniz antigo, óleo fino e madeira encerrada há demasiado tempo. Marcelino acendeu um candeeiro de mesa com abat-jour verde, pousou a fotografia junto de um torno de precisão e abriu o papel dobrado com a morada. Leu-a duas vezes, não por desconfiança, mas por respeito. Havia nomes e ruas que exigiam uma segunda leitura, como se só à segunda vez consentissem em existir.

A oficina das traseiras não recebia clientes. Era um compartimento estreito, sem janelas, onde os relógios que não pertenciam inteiramente a este mundo repousavam em gavetas baixas, etiquetados por datas, iniciais ou pequenos sinais que só ele compreendia. Sobre a bancada, alinhavam-se pinças, lupas, molas, chaves minúsculas e três caixas de metal sem inscrição. Marcelino tirou o colete, arregaçou as mangas e ficou por instantes imóvel diante da fotografia do velho senhor, como um médico que escuta um silêncio antes de diagnosticar a doença.

Pegou então num relógio sem mostrador, liso como uma pedra de rio, e pousou-o ao lado da fotografia. Era com aquele instrumento que se verificava se um caso estava apenas atrasado ou se, pelo contrário, já tinha entrado na zona das perdas definitivas. Marcelino encostou dois dedos ao metal, fechou os olhos e esperou. Ao fim de alguns segundos, sentiu um estremecimento breve, quase uma pulsação envergonhada, e soube que ainda restava margem. O velho senhor não estava perdido; estava apenas desencontrado do seu próprio tempo.

Sem surpresa, Marcelino abriu uma das caixas de metal e retirou dela uma bússola de ponteiro escurecido, um relógio de pulso parado nas onze e treze, e uma corrente de prata tão fina que parecia feita de cabelo branco. Colocou os três objetos dentro dos bolsos interiores do casaco. Depois tornou a pegar na fotografia. O retratado tinha a rigidez dos homens que, durante toda a vida, se habituaram a ser pontuais por medo do caos. Marcelino reconheceu logo esse género de gente: quando desapareciam, nunca era por acaso.

Apagou o candeeiro, regressou à loja e saiu para a rua já deserta. A noite descera sobre a Amadora com um calor imóvel, de trovoada adiada, e as fachadas pareciam guardar a respiração. Marcelino caminhou sem pressa, mas sem hesitar, como quem obedece a um itinerário antigo. A cada esquina, confirmava o rumo com a mão dentro do bolso, sentindo a vibração surda da bússola. Só parou quando chegou diante da morada escrita no papel: uma vivenda baixa, recuada da estrada, com o portão entreaberto e todas as janelas apagadas, exceto uma, no andar de cima, onde um relógio batia as horas com um atraso impossível.

Nota do autor: este capítulo foi entregue à IA segundo instruções do autor.


terça-feira, 26 de maio de 2026

O Relojoeiro

 Marcelino é relojoeiro. Tem estabelecimento montado numa rua escondida da Amadora. Marcelino trata das ferrugens do tempo. É arqueólogo de raridades temporais. Ele dá vida ao testemunho que perdura nas rodas dentadas dos mecanismos alheios. Não falta trabalho a Marcelino que se encontra sempre ocupado a reparar o tempo dos outros. Um de cada vez para não os misturar, para isso já basta o destino. Neste momento está ocupado a reparar um relógio de bolso que pertenceu ao avô de uma cliente. O trabalho está quase concluído e ele encontra-se satisfeito com a sua execução, para além disso irá cumprir o prazo de entrega. Uma velha senhora, quase tão velha quanto ele, entra na loja e dirige-se ao balcão. O espanta-espíritos de bambu assinalou a sua chegada e o relojoeiro veio recebê-la, solícito. A velha senhora tem uns óculos escuros postos e não os retira. O relojoeiro regista esse pormenor e faz uma avaliação rápida da sua cliente. Com um sorriso educado dirige-se à velha senhora e pergunta:

-Em que posso ajudá-la, minha senhora?

A mulher respondeu:

-Preciso dos seus serviços.

Ao que o relojoeiro retorquiu:

-Tem consigo o artefacto que pretende reparar?

A velha senhora respondeu sem hesitar:

- Não é desse serviço que eu necessito.

Então a velha senhora tirou os óculos escuros revelando dois olhos negros. O relojoeiro, sem desviar o olhar, perguntou:

-Podia fazer o favor de me dizer quem lhe falou nos meus serviços?

Ela respondeu que tinha sido uma amiga comum a sugerir o seu nome. De seguida revelou a identidade da amiga comum. O relojoeiro, após um breve silêncio, perguntou:

-Pretende, pelo que eu percebo, um serviço Idêntico?

Ao que a velha senhora respondeu:

-O caso é em tudo igual.

E o relojoeiro respondeu:

-O serviço será efetuado até ao final da semana, só então eu receberei os meus honorários.

A velha senhora despediu-se deixando no balcão a fotografia de um velho senhor. Junto com a fotografia deixou também um papel com uma morada. O relojoeiro pegou na fotografia e no papel, e dirigiu-se à porta da loja encerrando-a. Após virar uma tabuleta desapareceu por uma porta que se encontrava por detrás do balcão. 


domingo, 24 de maio de 2026

O Que Fazer Com A Escuridão?

 No quarto escuro o silêncio escorre pelo meu corpo. Eu sou uma taça onde os ruídos noturnos repousam. Envolto num mar revolto respiro entre as ondas dos lençóis observando ao longe a tábua do horizonte encoberta por uma neblina de mantas coloridas. O meu corpo repleto de gemidos verte os seus fluidos às correntes gasosas para que a palavra se eleve, balão de matéria vermelha, por cima do que é eterno. Ao meu lado a voz é silêncio de campainha e os meus dedos são náufragos perdidos na escuridão.

O que fazer com a escuridão?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O NAPERON DE ESTALINE

 

Na imensidão da estepe russa o inverno tem por hábito pintar a paisagem de branco. Aí iremos encontrar dois complexos habitacionais. Quem os veja ao longe não conseguirá distingui-los no horizonte. Mais ao perto percebemos que nos encontramos na presença de uma construção militar a poucos quilómetros de uma habitação austera. Essa habitação está cercada por um muro branco com cerca de três metros de altura. A única abertura existente nesse muro está obstruída por uma cancela e uma guarita onde três soldados se encontram de sentinela. Uma extensa língua preta de asfalto percorre a distância entre o complexo militar e a habitação. Essa língua vai até à porta da habitação onde encontramos dois sentinelas imaculadamente vestidos.

Todos os dias uma limousine desloca-se desde o complexo militar até a habitação. Esta deslocação acontece sempre à mesma hora com a precisão de um relógio. Quando se imobiliza saem de lá dois oficiais. Um traz na mão uma pasta e o outro um ramo de flores. Dirigem-se à porta onde os soldados se colocam em sentido. No interior do edifício deslocam-se até uma secretária onde o oficial de dia lhes indica com um sinal de cabeça que podem subir. Estes, seguindo a indicação do camarada ascendem ao segundo andar do edifício onde um enorme corredor os leva até uma porta de madeira maciça sem ornamentos. Um deles, geralmente o que leva as flores, bate com os nós dos dedos na porta e ambos esperam por resposta. Do outro lado ouve-se um grunhido que lhes dá autorização para entrarem. Lá dentro o oficial das flores dirige-se a uma mesa-redonda onde um naperon de linho branco debruado com uma renda de crochet vermelha e bordado com uma foice e um martelo na mesma cor serve de base a uma jarra de cristal com flores murchas. Este substitui as flores murchas pelo ramo que leva na mão. Ao mesmo tempo que isto acontece o outro oficial entrega a Estaline a pasta que trazia debaixo do braço. Após terem cumprido a sua função retiram-se silenciosamente fechando a porta de forma cuidada e ficam a aguardar no corredor.

Estaline pega na pasta, levanta-se  e dirige-se à mesa-redonda sentando-se numa modesta cadeira de madeira. Arreda suavemente o naperon e a jarra. Após este gesto abre a pasta de onde retira treze folhas preenchidas com nomes. Analisa cuidadosamente cada uma das folhas sublinhando com lápis vermelho alguns dos nomes. Por cada nome sublinhado esboça um sorriso. Esta ação decorre invariavelmente durante cerca de meia hora. Quando termina volta a colocar as treze folhas dentro da pasta. As folhas com os nomes selecionados serão entregues aos dois oficiais que se encontram no corredor, mas só após um grunhido de comando que os faz aparecer solícitos e obedientes. Retiram-se de cabeça curvada deixando Estaline embrenhado nos seus pensamentos. Enquanto pensa volta a colocar o naperon e a jarra no centro da mesa. A sua mão direita, a mesma com que sublinhou os nomes, coloca-se agora sobre a renda deixando deslizar suavemente os dedos sobre o seu trabalho do mês passado. Estaline sofre de insónias e todas as noites, sentado à secretária, faz renda em crochet até a sonolência o atingir. O seu oficial de dia, invariavelmente, por volta das cinco da manhã verifica o estado do crochet para averiguar da sua finalização. Quando esta acontece borda um pano de linho com a foice e um martelo e coloca a renda à volta. Distribui estes naperons pela mobília do edifício o que muito agrada a Estaline.

Ao mesmo tempo que Estaline passa os dedos pela renda vermelha um dos prisioneiros evadidos de uma prisão na Sibéria está a ser retalhado pelos seus parceiros de fuga. Calhou-lhe a ele ser a fonte de alimento para os outros três. Na neve imaculada restam agora pedaços humanos ensanguentados… ~

 

P. Guerreiro

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Sempre a mesma estrada

 Sempre a mesma estrada, o mesmo asfalto lunar que desafia a perícia dos condutores de playstation. Eu, que não fui bafejado por tais capacidades, entretenho-me a acertar em todos os buracos que têm a coragem de me fazer frente. A estrada leva-me ao trabalho serpenteando pela serra e eu, agarrado ao seu pescoço, cavalgo esse monstro meigo. Trinta minutos de solidão onde tento reorganizar a minha vida. Levo sempre a rádio ligada, "Antena 1" por lealdade, "Antena 1" por ser generalista, "Antena 1" porque a associo a uma coisa primeira, a rádio original. São coisas que me vêm à memória talvez porque as tenha ouvido. Na verdade, é mais a preguiça que me leva a deixar a sintonia em paz e a entregar-me aos sons que me quiserem dar. Sim, a rádio para mim é uma companhia. Não tenho que lhe responder, não tenho que sorrir. Posso manter a minha boca fechada sem vomitar opiniões, posso perder-me nos tristes chaparros meio despidos que, perfilados aleatoriamente, tentam preencher a paisagem. Nos dias chuvosos de inverno imagino-me plantado no meio deles, também eles silenciosos e sem conversa fiada. Ouço na rádio que lhes deram caça. Sem direito a refúgio, e sem estatuto, são abatidos pela raiz. Parece que vêm ai uns painéis, umas coisas meio feias, de baixo porte, que cobrem o solo e põem as coisas eléctricas a funcionar. Energia verde, é o que dizem. Melhor seria se os pintassem de verde. Talvez que as fotos no Google Earth ficassem mais engraçadas. Há dias mostraram-me umas imagens, no PC lá do trabalho, em que se viam umas manchas castanhas junto ao Guadiana, e que me disseram ser esses tais painéis. Parecia mais o chão da sala do meu ex-amigo André, uma coisa a imitar madeira, mas que não é madeira. Mas também, hoje tudo o que parece não é. Quando vou na estrada esqueço-me das mentiras. Das mentiras da minha mulher quando me traiu com o João, com o António e com o André. Sim, o André ficou com ela. Se calhar foi por causa do chão da sala. Bem, do chão da sala e do mercedes em segunda mão, uma bomba, que foi buscar à Alemanha, e também da vivenda que construiu com o dinheiro que a tia lhe deixou de herança. A puta levou-me a minha Aninhas, a mais nova, e deixou-me o Pedro que, com quinze anos, se lembrou de meter umas merdas. Raio do gaiato fica sem dormir noites inteiras com as cenas que toma. Podia fumar umas coisas, mas não, tinha logo de nadar num lago com piranhas. Também ele me mente. O que me chateia nas suas mentiras é que nem se dá ao luxo de mentir bem. Está-se cagando para mim, o pai que continua a bulir no duro para lhe manter os vícios. A cabra da minha ex foi esperta, levou-me a minha Aninhas, a luz dos meus olhos, e deixou-me o raio do rapaz. Não saiu a mim, eu que tudo fiz com comedimento, que remédio, com o que o meu pai bebia tinha que cuidar de tudo, da minha mãe e dos meus três irmãos mais novos. Sacanas de uns ingratos, foram todos para a Europa e nem um telefonema. 

Sim, saiu ao avô, talvez morra cedo como ele. Assim evita foder os miolos de alguma pobre rapariga, como o meu pai fez à minha mãe e que a deixou num caco. Não posso esquecer-me de ir à Santa Casa fazer-lhe uma visita. Qualquer dia apaga-se e ainda sou eu que vou carregar com a culpa, parvo como sou é o mais certo. Ainda bem que a hora atrasou. Gosto de ver o nascer do sol por detrás da planície, o ar limpo e o cheiro a terra que me entra pelo nariz. Gosto de conduzir com os vidros meio abertos, não é bem meio, é para ai um terço, o suficiente para me manter acordado. Ok, confesso que comecei a abusar um bocadinho do álcool, tinto ao jantar e uns medronhitos para atamancar. Ultimamente tenho adormecido no sofá a ver televisão. Acordo com o moço a chegar a casa. Muitas vezes tomo um banho e arranco para o trabalho sem tomar o pequeno-almoço. Compro uma bucha no café, que fica ao pé da oficina, e lá vou eu vergar a mola. Ainda pensei acabar com esta merda toda com a porra de um tiro nos cornos, mas aqui há uns dias, quando vinha do trabalho, acabado de fazer um curva apertada, dei com um corpo de um homem pendurado numa árvore. Já lá estavam dois GNR's, que tentavam afastar uma moça que gritava desesperada. Depois contaram-me a história; parece que a mulher do homem o tinha abandonado, a ele e à filha, a jovem rapariga que gritava, levando-lhes todo o dinheiro. Certo é, que aquela imagem tirou-me aquelas ideias da cabeça. 

Ainda gosto dela. Sempre gostei. Se ela voltasse, e me pedisse com jeito, eu aceitava-a. Talvez o miúdo atinasse e eu deixasse de beber... 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

OS OLHOS DO GATO VI

Estou à janela. Deixo o meu olhar perder-se no voo da ave de rapina. A silhueta feminina lança no ar um aceno. Inconscientemente levanto a mão direita numa resposta pouco convincente. Será um sorriso aquilo que pressinto? Sorrio também. Pelo canto do olho procuro a ave que, aparentemente, se perdeu no céu. 

-Procuras Ártemis? 

-Sim, não sei, quem é Ártemis?

-A minha caçadora, o meu anjo da guarda.

-Para onde foi ela?

-Caçar, é o que ela faz, é a sua natureza.

-O que caça ela, a tua caçadora?

-Caça olhares.

-Olhares?

-Sim. Eu não vejo sem eles.

-Sem olhares?

-Não tenho olhos. Nasci sem eles. No seu lugar tenho os buracos mais negros do mundo.

-Então como me consegues ver?

-Eu não te estou a ver. Sei apenas que estás ai, sinto a tua presença na imensa escuridão do meu mundo. Há pouco pude olhar para ti com os olhos do gato, mas agora já não os tenho, deitei-os fora. Ártemis foi procura-me um novo olhar.

A voz feminina insinua-se no interior da minha cabeça. Sem saber porquê respondo-lhe em voz alta, mas tenho a certeza que me ouviria mesmo que não o fizesse. 

-Um novo olhar?

-Um novo olhar. Pedi-lhe um olhar de criança. Quero ver um nascimento, um seio materno e a cor do seu leite. Quero ver o que perdi.

-E como vai Ártemis desenvencilhar-se para conseguir esse olhar?

-Trazendo-me os olhos de uma criança.

Fiquei sem resposta. Não conseguia acreditar na voz feminina que ecoava nas paredes do meu craneo, deixando um rasto de nojo e indignação. Tentei um esboço de revolta que me morreu na boca. Tal como eu desconfiava o vulto ouviu o que eu calei.

-Ficaste chocado? Não consegues acreditar no que ouviste?

-.....

-Não me respondes?

-Não sei o que dizer.

-Achas que sou cruel?

-Acho que não és humana.

-...

-Não dizes nada?

-Tem cuidado.

-Estás a ameaçar-me?

-Posso querer o teu olhar, ver o mundo com os teus olhos, perceber o teu ponto de vista. Sabes, eu sou muito curiosa.

-Ninguém tem culpa da tua deficiência.

-Tal como todos os seres que existem no mundo, eu sou um produto do criador. Ele permitiu-me sem olhos e curiosa, ele permitiu o desenvolvimento da minha natureza, ele criou o caos no mundo onde vivo, ele observa o espectáculo da minha vida desde a primeira cena. Acredito que o pano irá cair qualquer dia, e que ele irá aplaudir a sua criação. 

Não a vi chegar, não pressenti o vulto que se insinuou e que me arrancou os olhos. Gritei de dor e desespero. Deixei-me cair enquanto sentia o sangue escorrer pela cara. Assim fiquei, chorando líquidos que não consegui identificar. De repente ouvi novamente o vulto.

-Sim, agora consigo compreender-te. Acho que tu também me compreendes.

Sim, conseguia compreende-la. Conseguia sentir a angustia negra da ausência de luz. Levantei-me e cheguei-me à janela. Pressentia a sua presença na janela. Virado na sua direção murmurei:

-Podes pedir a Ártemis um olhar para mim?

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 16 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO V

A ave de rapina levanta voo, carregando consigo, nas garras, dois pequenos objectos redondos. De cada um destes objectos pende um fio. A ave eleva-se no ar por cima dos edifícios mais elevados. No seu voo circular parece procurar algo. O vulto na janela agita-se em convulsões. Como que respondendo a esse frenético movimento, a ave início um movimento descendente em direção à janela onde se encontra o vulto. Da minha janela observo a cena apreensivo. Tento um grito de aviso que me morre na garganta, um aceno de urgência que não se concretiza. Tudo em mim é imobilidade, à excepção do meu olhar. Por duas vezes a ave circunda a janela numa avaliação criteriosa. De repente, um gesto convidativo do vulto provoca a investida da ave que recolhe as asas na sua aproximação ao parapeito. Pouco antes de poisar, larga, à vez, cada um dos objectos redondos na mão da silhueta que parece agradecer-lhe. A ave volta a erguer-se nos ares. Pairando a pouca altitude, parece aguardar instruções. Entretanto, o vulto parece colocar os dois objectos no lugar dos seus olhos. Num primeiro movimento de cabeça parece olhar para mim como se há muito me tivesse pressentido. Sinto-me tentado a ocultar a minha presença por detrás do cortinado, mas desisto dessa intenção quando o vulto, num movimento brusco, se coloca de costas voltadas. Assim permanece durante alguns segundos até que, num repente, começa uma espécie de dança. De braços no ar, agita-os freneticamente, enquanto rodopia o corpo, fazendo-o dobrar de forma pouco natural. "Consigo ver-te. Agora sei quem tu és.". Ouço esta voz e, sem saber porquê, tenho a noção exata da sua origem. Sem abrir a boca sinto que lhe respondo, "Também eu consigo ver-te, mas não sei quem és". Assim como começou, o vulto termina bruscamente a sua dança. Leva as duas mãos ao rosto e lança dois objectos na escuridão. Retoma a sua posição inicial no mesmo instante que a ave de rapina, interrompendo o seu movimente circular, se lança aos céus por cima dos edifícios mais altos. "Procura Ártemis, trás-me um outro olhar, um olhar de criança". Quero ir-me embora e fechar a janela, mas não sou capaz. "...um olhar de criança...de criança...criança". Procuro a ave no céu e espero...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 2 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO IV

 Na penumbra algo se agita. A silhueta furtiva de um corpo alado desloca-se no ar morno da noite deixando um rasto de ausência. Percorre os espaços vazios, deixados pelos prédios abandonados, deslizando silenciosa na direção do feixe de luz. O gato, totalmente iluminado, permanece imóvel. Exibe a sua pose com orgulho felino. Os seus olhos, repletos de luz, revelam-se verdes. Liberto de receios contrai as pupilas até que estas se reduzam a dois riscos negros. A silhueta alada revela-se aos poucos. Dois metros de envergadura suportam um corpo preparado para matar. Num repente, e após uma curva apertada, inicia um voo picado em direção ao gato que permanece inerte. Num último instante mostra as suas garras afiadas que penetram no corpo do felino. Aproveitando o impulso assassino, a água disfere violentas bicadas na cabeça do animal capturado até que este se queda, imóvel, espalhado no chão. Junto dele a águia ergue-se juntando as asas ao corpo. O vulto feminino, que permanece na janela, solta um grito de satisfação. É um grito solitário e que não originou qualquer movimento a quem o soltou. Apenas a ave de rapina reagiu ao apelo e, como que agradecendo, baixou a cabeça por três vezes antes de se debruçar sobre o cadáver do felino. Tento perceber o que se passa, mas sem sucesso. Apercebo-me de que efetua um trabalho minucioso com o seu bico afiado. São gestos delicados que tentam retirar qualquer coisa da cabeça do gato. Ambos permanecem sob o intenso feixe de luz. Não consigo evitar a comparação com uma mesa de operações. A analogia causa-me desconforto pelas memórias que me induziu. Tento libertar-me do sufoco, causado por essas imagens do passado, procurando a silhueta feminina na janela. Sem perceber porquê, visto que ela permanece imóvel, a sua visão revela-se sinistra. Novamente uma frase me é sugerida...o que achas de Ártemis? Incapaz de responder desvio o olhar para a ave de rapina. Novamente levantada,  segura no seu bico um fio com uma pequena bola na ponta.  Olha para mim? Não sei...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...