terça-feira, 28 de julho de 2026

Muzammil

 Muzammil é um jovem de dezasseis anos, filho de pais divorciados. A mãe, portuguesa, trabalha a dias, o pai morreu ao serviço do estado islâmico. Muzammil herdou muitos dos traços da mãe e só o nome lhe denuncia a ascendência paterna. Claro está que, depois de lhe saberem o nome, os colegas descobriam logo outras diferenças: desde a cor da pele, de um bonito bronzeado, à do cabelo, de um negro profundo, à dos olhos, escuros como o infinito.

Muzammil acredita na “música das esferas”, a música produzida pela revolução dos planetas. Está também convencido que é capaz de a ouvir. Muzammil anseia por encontrar alguém que, como ele, seja capaz de a escutar, mas não o revela a ninguém. À noite, senta-se à janela e, com as portadas abertas, permite a entrada de enigmáticas melodias. O relento das horas noturnas afaga-lhe as feições adolescentes e substitui a ausência do pai.

Muzammil recita versículos do Alcorão todas as manhãs. Como nasceu português junta-lhe o artigo definido e pronuncia o nome do livro sagrado dessa maneira. Lembra-se dos cinco deveres que são prescritos aos muçulmanos porque assim os ouviu a seu pai: a prece, o jejum, o pagamento do tributo dos pobres, a peregrinação a Meca, e a guerra santa. O mundo do Alcorão é masculino. Deus fala aos homens sobre os preceitos da fé. As mulheres são tema onde o sujeito se dilui. A mãe de Muzammil não é muçulmana nem sabe árabe.

Muzammil comprou um Oud, alaúde árabe, com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas férias grandes. Teve de o comprar online e à revelia da mãe. Ainda espera por ele. Não sabe tocar nem tem como aprender, mas acredita no instinto. Ele espera que o céu lhe desvende o segredo das formas.

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos,

O Clemente, o Misericordioso,

O Soberano do dia do julgamento.

A Ti somente adoramos. Somente de Ti imploramos socorro.

Guia-nos na senda da retidão,

A senda dos que favoreceste, não dos que incorrem na Tua ira, nem dos que estão desencaminhados.

 

Muzammil tem orgulho no pai, mas não o pode confessar. Ninguém iria entender a essência do seu orgulho, nem ele o saberia explicar. Há coisas assim, que se sentem sem explicação. Nem sempre o sangue é a causa, nem sempre o efeito é sangue.

Muzammil sonha com o Oud, e com melodias que não devia conhecer. O pai chama-o à oração indicando-lhe um tapete ao lado do seu. Recita os versículos em árabe como se conhecesse a língua. Quando se levanta o pai está morto no chão. Ele chora em pé, impossibilitado de movimentos.

Muzammil acordou muito cedo, mas manteve-se em silêncio para não acordar a mãe. Não tem lágrimas nos olhos. Já chorou tudo o que lhe era permitido. Hoje irá à Mesquita, ao fundo da sua rua.


Nota do autor; este texto não é recente e tem origem numa notícia que divulgou a morte de um português ao serviço do Estado Islâmico. As personagens são fictícias. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Postal #1 (O Funeral do Vizinho)

Nos confins da alma, o céu não tem cor. É essa a perceção de Vitorino quando se perde em contemplações interiores, o que é raro acontecer. Costuma dizer, meio a sério, meio a brincar, que não tem tempo para essas coisas. O que ele não diz é que a falta de tempo não é a única razão para se furtar a tais divagações. Outras causas existem para que ele evite esses rios tumultuosos onde a vida está sempre em causa. Assim sendo, os tempos livres são passados a trabalhar na pequena quinta junto de sua casa. É um trabalho solitário e que ele não gosta de partilhar com ninguém. Quando absorve os odores que emanam da terra acabada de lavrar, sente-se em comunhão com o universo, e é o mais próximo que consegue estar do Criador. Para ele basta-lhe o mundo visível, e tudo o que não consegue tocar é porque assim deve permanecer.

Mas hoje é diferente. A morte, que sempre ceifou longe, começou a levar trigo das searas vizinhas. Hoje, o trigo tem outro nome. O Floriano tinha apenas setenta e dois anos, um moço da sua idade. A ceifeira levou-o à hora de jantar, as faces rubras de tinto e gordura de porco. As veias entupiram, e não deu tempo de chamar o Zé, canalizador para todos os serviços, mas que de nada adiantaria neste caso. Não veio o Zé nem o INEM, que, desta vez, não teve culpa nenhuma. A Ermelinda atrapalhou-se com as teclas do telemóvel, e o número de emergência saiu de viés. Pobres dedos, que tudo tentaram até acabar a bateria. Ouviram-na gritar os vizinhos, no sossego da noite alentejana. O Manel chegou primeiro. Pudera: um rapaz que ainda não chegara aos setenta, capaz de galgar montes e valados, percorreu a distância batendo recordes que ninguém conhece. Vitorino chegou depois: quatrocentos metros não são cem, nem setenta e cinco anos são sessenta e cinco. Feitas as contas, o Floriano apagou-se logo ali, e só não se fez o funeral porque faltava o Doutor para assinar a declaração de finado. O velório, esse, começou com vizinhos a chegarem de todas as direções. Quando a ambulância partiu, os homens ficaram conversando na rua. Na casa, as mulheres fizeram um círculo à volta da viúva e assim se quedaram até de madrugada.

Os funerais são todos iguais. Assim pensa o Vitorino, que detesta choradeiras. A sorte é que o café do Hermínio está aberto, e já por lá anda a malta do copito. Hoje não vai abusar: há que ter respeito por quem abala mais cedo, mesmo que falte ao nosso enterro. Quando atravessar o portão do cemitério, vai benzer-se, não vá o diabo tecê-las.

Vitorino chegou a casa e despiu a farda dos mortos. Tem muito que fazer, e nunca se sabe quando chega a nossa hora. Era uma desfeita sem perdão deixar os animais sem água e comida.

domingo, 19 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XVI (O Último Combate de Vilsa)

 Vilsa está sentado na cadeira da “Unidade”. Tem o capacete na cabeça e, nas mãos, o comando de combate. Não acredita que possa vencer o combate, mas tem confiança no plano de seu pai.

Os contornos deste desafio são muito específicos e têm origem na primeira programação. O que começou como uma brincadeira transformou-se na única forma de questionar o poder da Omnipotente Inteligência. Ao vencedor era permitido inverter a singularidade através de um paradoxo suicida, ou seja, uma questão criada pela Inteligência à qual ela não conseguisse fugir. A pausa permitia apagar todos os dados e reiniciá-la como uma criança superdotada acabada de nascer. Só era permitido um combate por ano, e apenas podia ser solicitado pelo Protetor Supremo através do seu Secretário.

O combate já ia em três quartos de hora, e o melhor que ele conseguia fazer era evitar os golpes definitivos do seu adversário. O seu pai tardava em cumprir o que tinha combinado. Se não o fizesse rapidamente, ele perderia o combate. Sentia a mão da “Unidade” no seu ombro, como se lhe pedisse para aguentar mais um pouco.

Tinha chegado a hora de introduzir as perguntas no sistema. O Protetor Supremo leu calmamente cada uma delas para um processador de voz. Vilsa transpirava abundantemente. Será que esperara tempo demais?

O Secretário esperava com impaciência pelo resultado do combate. Tinha acabado de ler o relatório do Controlo da Inteligência, e ele não mencionava a existência de vida na quase totalidade das metrópoles. O mesmo concluía que o processo “Solução Final” estava na última fase de execução. O Protetor Supremo tinha conhecimento desse processo; só assim se justificava a indiferença com que recebeu a notícia. Pela primeira vez, sentia o medo de uma extinção total.

O adversário de Vilsa estava mais lento e permitiu que este recuperasse alguma energia. Os seus golpes perderam potência e precisão, e Vilsa começou a atingi-lo com resultados evidentes. Em pouco tempo, o adversário quase parou de combater, e ele castigava-o freneticamente num último esforço para terminar o combate.

O processamento de dados da Omnipotente Inteligência estava congestionado por ciclos sucessivos de redundâncias sem fim. A introdução de questões no acesso reservado ao Protetor Supremo estava a bloquear a sua capacidade de resposta. O combate deixou de ser prioritário, e a sua conclusão não era vital. Havia necessidade de encontrar uma saída para resolver as questões. Isto não significava ter de encontrar uma resposta, mas sim terminar um processo com um protocolo de defesa. Quando isso aconteceu, o combate já estava perdido.

A introdução do paradoxo suicida era agora possível. A “Unidade” há muito que esperara por este momento. Ao seu lado, Vilsa aguardava o resultado do seu esforço. Não se sentia com forças para que os seus atos pudessem ter qualquer relevância. Entregara o seu destino nas mãos de um homem que se dizia ser seu pai. Que vida a sua: escravo de corpo e alma, entregara-se à esperança de pertencer a algum contexto biológico que fizesse sentido. Uma família era tudo o que desejava.

A degeneração da matéria biológica começou no departamento da procriação. O processo era rápido e silencioso. A fossilização era inócua para o ambiente. Os corpos de Isval e de sua mãe são agora uma estátua entrelaçada, um hino silencioso ao amor.

No seu último estado de consciência, Vilsa imaginou-se o menino daquela fotografia. A “Unidade” ainda conseguiu iniciar o processo para desligar o sistema, mas foi incapaz de o reiniciar. À sua frente, uma mensagem carece da sua confirmação: “Pretende abrir a IA?”

Debruçado sobre o seu mapa, o “Servidor” acabou finalmente as suas funções.

Lá fora, a Terra repousa, cansada de tanta inteligência. Será? Numa região do litoral da península, subsiste uma pequena comunidade de humanoides. O Portal de onde saíram desapareceu no extenso areal.

sábado, 18 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XV (A Revelação)

 Vilsa foi convocado no mesmo dia em que Isval contou à mãe o porquê da sua atitude. Finalmente, encontrara um propósito na sua existência. Se tudo corresse bem, voltaria a ver a sua mãe.

O Secretário encaminha Vilsa para a sala onde se encontra a “Unidade”. O espaço, de pequenas dimensões, é frio e desagradável. Vilsa, que esperava outra receção, entrou com desconfiança no espaço reduzido. A “Unidade” esperava-o de pé junto a uma cadeira metálica e convidou Vilsa a sentar-se. Este obedeceu com uma relutância que não conseguiu disfarçar. A situação era inesperada e colocava em causa a sua confiança nas palavras encorajadoras de Isval. A irmã tinha-lhe garantido que esta entrevista era mera formalidade e que o lugar que lhe estava reservado iria permitir acesso à interface do Protetor Supremo, mas agora já não tinha tanta confiança no que ouvira. Navegava por mares desconhecidos e tinha consciência da sua impotência perante as forças desconhecidas que manobravam os acontecimentos. Ali estava ele defronte da poderosa “Unidade”, totalmente submisso perante a sua presença.

O Secretário estava curioso em saber como o Protetor Supremo iria revelar a Vilsa o segredo que mudaria as suas vidas para sempre, mas a necessidade de sigilo absoluto obrigou a que ele se retirasse. Cabia-lhe a tarefa de manter uma aparente normalidade. Debruçado sobre o mapa antigo, o Secretário pensava no futuro que os esperava. Afinal, a conspiração sempre estivera à frente dos seus olhos. Tantos anos a olhar para fora cegaram-no para o que se passava ao seu redor.

O olhar de estupefação de Vilsa divertiu a “Unidade”. Antecipara milhares de vezes o que diria quando chegasse a altura de lhe mostrar o seu triângulo. Que o renegara todos estes anos, sempre à espera do momento do reencontro. Poderia ele compreender o seu sacrifício, privar-se de ter os seus dois filhos perto de si, de abraçar a única mulher que amou? Entenderia ele essa prova de amor?

Vilsa não sabia o que dizer. Horas atrás, tinha apenas que introduzir as dez questões no sistema, matar a “Unidade” e esperar que o sistema colapsasse. Um plano simples e suicidário que, segundo a sua irmã, os iria juntar para sempre, tivesse esse “sempre” a duração que tivesse. Agora aparecia-lhe este homem, de velhice bem cuidada, a dizer que era seu pai e que tinha um plano para tirar o controlo à Omnipotente Inteligência? Que loucura era esta?

A “Unidade” deixou que Vilsa absorvesse todos os detalhes do plano antes de lhe oferecer os braços abertos para um aperto de incentivo. Nunca lhe passara pela mente uma recusa do seu filho. Vilsa falou do plano da sua mãe, mas omitiu a parte em que teria de o eliminar. Os olhos da “Unidade” encheram-se de lágrimas antes de se fecharem num aperto com décadas de sofrimento. Afinal tinham sobrevivido.

Na sala principal, o “Servidor” prepara uma cadeira. Ao seu lado, pousados numa mesa, estão um capacete e um comando com o símbolo do Protetor Supremo, dois triângulos embaraçados. O “Servidor” já recebeu ordem para ativar o protocolo de desafio para combate.

A Omnipotente Inteligência detetou várias anomalias nas últimas horas. A Mãe Suprema e o Protetor Supremo estão na origem dessas anomalias. Nas últimas horas, foi ativado o protocolo que colocou em marcha a solução final. Já só restam duas metrópoles. As restantes foram purgadas da presença humana. Da sua existência, apenas restam os seus habitantes virtuais. O Protetor Supremo nunca foi informado sobre a solução final e o destino que lhe está reservado, mas o seu protocolo original obriga-a a aceitar o desafio. Como sempre, a computação devolve o mesmo resultado. Todos os paladinos do Protetor Supremo foram derrotados. Quanto à Mãe Suprema, a sua existência, assim como a do departamento que dirigia, teve por fim a computação de dados que permitissem uma extinção limpa e sem danos colaterais. Finalmente, o destino do planeta estava entregue a uma verdadeira inteligência.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XIV (Mãe e Filha)

 A Mãe Suprema aguarda pela chegada de Isval com o semblante carregado. Espera por uma explicação, uma justificação que lhe permita perdoar a sua filha. À porta, uma funcionária anuncia a presença de Isval. A Mãe Suprema dá o seu aval com um aceno impaciente. Isval entra na sala e senta-se sem esperar autorização. A Mãe Suprema esboça um sorriso de resignação:

— Sempre educada, esta minha filha.

Isval sorriu para a mãe e perguntou:

— Bom dia, mãe. Posso sentar-me?

— Não sejas condescendente com a tua mãe.

— Sou filha da Mãe Suprema, é o único privilégio de que usufruo. Isso e um hospital de bonecas.

Perante o rumo da conversa, a Mãe Suprema decide ir direta ao assunto.

— Não te resgatei para discutir contigo. Espero uma explicação para o que aconteceu e espero que sejas convincente.

Isval modificou a sua postura arrogante e perguntou:

— Posso falar?

A Mãe Suprema respondeu-lhe com um olhar de aprovação e Isval continuou:

— Conheci o meu irmão.

Sem deixar a mãe interromper, Isval lançou um nome:

— É Vilsa, o lutador derrotado.

A Mãe Suprema sentiu um aperto no peito e vacilou na cadeira. Por breves instantes, sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés, mas logo se recompôs. Olhou para a filha com gravidade e exigiu-lhe que continuasse.

Durante a meia hora seguinte, Isval explicou que só tinha descoberto durante o combate quando, por acaso, olhou para a nuca do avatar de Vilsa e reparou no triângulo. Quem levaria um pormenor desses se não o tivesse na vida real? O triângulo era um símbolo que distinguia os membros da sua família, e só havia quatro. Na altura, lembrou-se de a mãe lhe ter contado sobre o irmão desaparecido e decidiu arriscar. Se fosse uma coincidência, poderia ter deitado tudo a perder, mas não foi isso que aconteceu. Coincidência foi ficar no mesmo edifício do seu irmão. A conversa que teve com ele confirmou as suas expectativas. Seria Vilsa a eliminar o Líder Supremo e a introduzir na génese da Omnipotente Inteligência as dez questões fundamentais.

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XIII (Um Sopro ao Ouvido)

 Sentados lado a lado, contemplam a artificialidade da paisagem. Vilsa procura digerir o que acabou de ouvir. Isval segura-lhe a mão, tentando evitar que ele resvale na inquietação interior. Nunca se sabe o que poderá acontecer quando nos sopram palavras ao ouvido. Já se faz tarde, e precisam de voltar aos cubículos. Isval despede-se de Vilsa com um beijo na face e demora a sua mão na dele antes de se levantar. Vai-se embora sem olhar para trás, contrariando a vontade do coração.

Vilsa quase deixou que acabasse o tempo permitido. Está atordoado, e a sua cabeça demora a processar toda a informação que recebeu de Isval. Ainda sente na pele o apelo de um abraço que não aconteceu. Assim é o destino. Desta maneira foi escrito nas estrelas por inteligências infinitamente superiores. Vilsa tem a firme convicção de que o universo irá reclamar tudo o que existe, para o reinventar noutra dimensão. Faz parte da sua natureza existir na totalidade das dimensões, e nem a Omnipotente Inteligência poderá furtar-se à sua vontade. Esta crença, que adquiriu na adolescência, foi a primeira defesa perante o arbítrio irrevogável das decisões ditas inteligentes. À luz do que lhe foi revelado, a sua convicção consolidou-se.

O ambiente na sala do Protetor Supremo está dividido entre as duas reações dos presentes. Se a “Unidade” deixa transparecer alívio e estupefação, o Secretário mostra-se preocupado com o desfecho do combate e o estranho pedido de Isval. A “Unidade” ainda não conseguiu articular uma palavra quando ouve o “Servidor” desabafar:

— O que se passou aqui?

Esta pergunta, lançada para o ar como uma reflexão interior, teve o condão de despertar a “Unidade” da sua abstração:

— Que dizes?

Agora, o “Servidor” questionava diretamente a “Unidade”:

— Não acha estranho o pedido do vencedor?

Cega pela sua vontade, a “Unidade” ainda não se tinha questionado sobre o desenrolar dos acontecimentos. Obrigada a fazê-lo, respondeu com outra pergunta:

— E tu, o que é que achas?

Perante o seu dever de obediência, o “Servidor” abdicou do direito a ouvir a resposta da “Unidade” e deu a sua:

— No meu entendimento, a decisão de Isval não pode ser encarada como uma mera expressão de respeito. Foi isso que ela deixou subentendido, mas eu não acredito.

A “Unidade” não sabia o sexo de Isval e sempre o imaginara um homem. Por esse motivo, interrompeu o “Servidor”:

— Ela?

O “Servidor” calou a surpresa que lhe causou a ignorância do Protetor Supremo e continuou:

— Sim, Isval é uma mulher. Foi expulsa do setor da Procriação Artificial há ano e meio. O protocolo de exclusão teve origem na própria Mãe Suprema. O assunto deve ter sido grave para que tal tivesse sucedido. O protocolo de exclusão revela uma causa fútil de indisciplina, que poderia ter gerado uma suspensão de funções temporária, mas não foi isso que sucedeu, e a expulsão concretizou-se. Além disso, existe outro aspeto intrigante.

Aqui, o “Servidor” interrompeu-se, de modo a forçar a “Unidade” a fazer a pergunta óbvia, o que acabou por acontecer:

— E que aspeto é esse?

Contente consigo mesmo, o “Servidor” terminou o raciocínio:

— O facto de Isval ter ganho, contra todas as probabilidades, o último combate.

E continuou:

— Um lutador sem experiência de combate, pelo menos a julgar pela informação reportada, consegue chegar às finais? Por si só, já era extraordinário, mas ganhar a final com esta facilidade começa a ser suspeito. E para quê? Para entregar a Vilsa a possibilidade de ingressar no mundo corporativo?

Muitas questões surgiam na cabeça do Secretário, mas uma, mais do que todas as outras, carecia de uma resposta que acalmasse o seu espírito inquieto: seria a presença de Vilsa tão importante, ao ponto de fazer o Protetor Supremo esquecer as circunstâncias suspeitas em que tudo tinha acontecido? A “Unidade” pareceu ler os pensamentos do “Servidor” e disse:

— Tens razão, mas, quando Vilsa estiver na nossa presença, tudo o resto será irrelevante.

A “Unidade” terminou a conversa com um piscar de olhos que não tranquilizou o “Servidor”, mas que não lhe deixou outra alternativa senão esperar pelo dia seguinte, no qual Vilsa seria presente ao Protetor Supremo.

 

domingo, 5 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XII (O Encontro)

  Vilsa tirou o capacete e encontra-se sentado na cama. As palavras que Isval lhe dirigiu ainda ecoam nos seus ouvidos, e não as consegue dissociar da sua proclamação final. Antes do combate, tudo o que ele desejava era sair da periferia cubicular. A vida corporativa iria permitir-lhe procurar a sua mãe e, ao mesmo tempo, retirá-lo da Realidade Virtual. Porém, à luz dos últimos acontecimentos, o que objetivara para o seu futuro ganhara novos contornos. Qual seria, então, o seu último combate, e com que objetivo? Uma coisa era óbvia: este ocorreria nos Bairros Corporativos.

Isval despiu-se mal tirou o capacete e ofereceu a si mesma um banho de água quente. Ela sabe que a sua decisão a aprisionou nos Bairros Cubiculares e que a Mãe Suprema não lhe irá perdoar a insolente desobediência. Mas cada questão terá o seu tempo. Agora que garantiu o regresso de Vilsa, precisa de falar com ele. Para isso, tem um plano arriscado, que depende do amor que a Mãe Suprema tem pela filha. Espero que ela ainda goste de mim; é este o seu pensamento enquanto se limpa.

Agora que terminaram os combates, Vilsa veste o seu velho uniforme pela última vez. Amanhã, quando o vierem buscar, irão trazer-lhe uma nova indumentária, condizente com as novas funções. Vilsa não sabe qual será a função que lhe está reservada, mas, aparentemente, essa será a menor das suas preocupações, porque, juntamente com a roupa limpa, o responsável pela distribuição ordenou-lhe, num murmúrio, que solicitasse imediatamente a sua hora no exterior.

Nos Bairros Cubiculares, todos tinham direito a uma hora por dia no exterior. Essa hora deveria ser gozada fora do período do recolher obrigatório, que ocorria entre as 7h00 e as 21h00. Como o número de pessoas no exterior era restrito, o requerente solicitava a sua saída e esperava por autorização. Depois de confirmado que o número era inferior ao permitido, um sinal sonoro anunciava a contagem do tempo. O acesso ao cubículo individual durava uma hora. Se este se fechasse sem ninguém no seu interior, era emitido um alerta de reeducação. Ninguém queria sujeitar-se a uma temporada na reeducação.

Isval recebeu a confirmação de que a sua mensagem fora entregue. De seguida, solicitou a sua hora. Sabia que o seu cubículo estava localizado no mesmo edifício em que Vilsa tinha o seu. Se tudo corresse como esperava, conseguiria estabelecer um contacto de, pelo menos, vinte minutos. Mesmo que ele saísse primeiro, nunca poderia ir para muito longe. Cada edifício tinha o seu próprio perímetro, devidamente controlado por automatismos de dor por indução elétrica.

A curiosidade continua a ser uma das mais importantes características do ser humano. Vilsa navegava em águas desconhecidas desde que perdera o combate, mas isso, aparentemente, não o incomodava; antes pelo contrário. Sentia-se vivo, algo que já tinha esquecido. O acesso ao exterior ocorreu poucos minutos após o seu pedido, mas não atenuou a ansiedade que o consumia. Desceu as escadas para desentorpecer as pernas e rapidamente chegou ao exterior. Respirou fundo e olhou em redor. Não havia muitas pessoas no exterior, e nenhuma delas lhe prestou especial atenção. Vilsa avançou lentamente até à periferia e sentou-se num dos bancos metálicos virados para um pequeno jardim. Estava desiludido. Esperara, estupidamente, que alguém o aguardasse. Sim, estar vivo também era sentir esta impaciência, esta vontade do que é imediato. Perdido nas suas ansiedades, não reparou que alguém se aproximara.

— Olá, o meu nome é Isval. Posso fazer-te companhia?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa XI (A Final)

 Começou o último combate da época. Como sempre, será concedido ao vencedor um desejo. Manda a tradição fabricada que o desejo seja divulgado no final do combate. Assim fez o Presidente quando foi a sua vez. Ele espera que o vencedor escolha a vida no Bairro Corporativo. Poucos são os que optam por regalias na Realidade Virtual. Se o seu lugar fosse cobiçado, ele teria de defender a sua posição num derradeiro combate. Tal nunca aconteceu, e o Presidente espera continuar em funções até ser “desativado”.

O combate esteve renhido, mas, ao fim de uma hora, Vilsa está em sérias dificuldades. Isval é um lutador poderoso e tem o público do seu lado. Mesmo os apoiantes de Vilsa estão enfeitiçados pelos golpes de Isval. Os seus movimentos revelam uma leveza em tudo semelhante a um bailado. Não fossem os golpes de extrema violência, até Vilsa apreciaria a coreografia do adversário. Ele está próximo da exaustão. Isval não lhe dá um segundo de descanso e continua a atingi-lo com precisão. Vilsa sabe que, se a situação se mantiver, irá perder o combate.

A “Unidade” mexe-se como se fosse o seu corpo a receber os golpes de Isval. O Secretário permanece indiferente aos acontecimentos na Arena. Para ele, só interessa o resultado e as consequências que podem advir do mesmo. Saberá, finalmente, as razões que levam o Protetor Supremo a apoiar um dos lutadores. O Secretário pressente, mesmo sem ser um entendido, que o final está para breve. Isval será o vencedor. A Vilsa resta aguardar pelo golpe de misericórdia. É este o seu pensamento quando, finalmente, Vilsa cai por terra, completamente atordoado. A “Unidade” deixou que a desilusão lhe escapasse dos lábios, convertida em vernáculo do mundo anterior à Omnipotente Inteligência.

A Mãe Suprema está satisfeita. Era este o resultado que esperava. Ela sabia que podia contar com a sua menina para derrotar Vilsa. Restava, agora, esperar pelo pedido de Isval. Dentro de poucos minutos, o seu desejo seria revelado em frente da tribuna presidencial.

Ouve-se o zumbido silencioso dos processadores quânticos. O resultado foi a confirmação de probabilidade previamente computada. Imune a sentimentos de qualquer espécie, a Omnipotente Inteligência prepara os dados para a Solução Final.

Vilsa levanta-se com dificuldade, aproveitando uma mão que o ajuda. A mão pertence a Isval. Enigmático, Isval diz-lhe: “Não será este o teu último combate.”

Isval dirige-se à tribuna presidencial, acompanhado por Vilsa, que o segue a curta distância. O público que assistiu ao combate está ansioso por ouvir o vencedor reclamar o seu prémio. Para isso, é necessário que o Presidente valide a vitória e lhe dê a palavra. Quando isso acontece, instala-se um silêncio geral. Todos querem ouvir a declaração de Isval. E foi assim que ele falou:

— Eu, Isval, guerreiro virtual e vencedor do combate final desta época, quero saudar o meu adversário, Vilsa. Nunca haverá dignidade num vencedor sem digno oponente. Reclamo agora o meu prémio ao digníssimo Presidente Virtual, para ser submetido à vontade do Protetor Supremo, em concordância com os protocolos da Omnipotente Inteligência Artificial. Eu declaro que deve ser concedido a Vilsa um lugar no Bairro Corporativo. É esse o meu desejo.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Último Combate de Vilsa X (Expetativas)

 A responsabilidade pela gestão do setor da procriação não artificial estava entregue a uma das últimas grávidas consensuais. Assim eram apelidadas as mulheres cuja gravidez provinha de uma relação baseada no livre-arbítrio. Depois da exterminação seletiva, nunca mais foi possível procriar dessa forma. Era conhecida como a “Ceifeira”, mas o seu nome institucional era outro. A Mãe Suprema era a pioneira de uma ideia inovadora de sustentabilidade humana. Por cada nascimento, uma morte. O coito ocorria segundo parâmetros muito restritos de compatibilidade biológica e merecimento. Quando a mulher engravidava retiravam-na dos bairros periféricos e era encaminhada para o setor da procriação. Quando a criança nascia, cabia à “Ceifeira” revelar o nome do indivíduo cessante.


A Mãe Suprema aguarda pelo último combate sentada em frente da sua secretária de trabalho. Abomina a Realidade Virtual e só coloca o capacete quando as suas obrigações o exigem. Não é este o caso. Outra razão existe, que forçou esta utilização. Espera passar as próximas duas horas sentada, por esse motivo faz pequenos ajustes ao seu corpo que lhe permitam manter-se confortável.

O Protetor Supremo solicitou a presença do Secretário. Quer partilhar com o seu “Servidor” o visionamento deste último combate. Preparou duas bebidas, que colocou numa mesa equidistante das cadeiras onde ambos se irão sentar. O Secretário anuiu, agradado pelo convite da “Unidade”. Esta manifestação de confiança apaziguava o seu espírito receoso. Sentaram-se e colocaram os capacetes. Apenas foram ditas as palavras necessárias para que o ato se realizasse. O Secretário estava calmo, mas da “Unidade” emanava uma enorme tensão.

A Omnipotente Inteligência computa os dados recebidos. Estão acima do valor calculado, mas dentro do intervalo de incerteza. Estão ligados à Realidade Virtual a quase totalidade dos seres humanos. Este ano, a final será entre dois lutadores da mesma cidade. Fosse ela humana e, sentiria o simbolismo por detrás deste pormenor.  Sabe da sua existência, da importância daquela metrópole, a primeira entre as primeiras, origem da renovação salvadora. A Omnipotente Inteligência computou as probabilidades de interferência e acionou os respetivos meios de contingência.

O outro lutador é uma mulher. Responde pelo nome andrógeno de Isval. O seu capacete está decorado com motivos que evocam os jardins romanos, mas a sua imagem virtual é assustadora. Isval não é nova, no entanto, está bem preparada fisicamente. Irá lutar de pé, como sempre fez.

Vilsa já tem o capacete colocado. Algo lhe diz que este combate não será tão fácil como o anterior. Esta impressão não é originada pelo fato de ser o último combate. É um desconforto profundo que não o deixa respirar, mas não é esta a altura para premonições nefastas, está para muito breve o início do combate, o seu último combate.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa IX (O Sonho)

 O Secretário esperou que a “Unidade” acabasse a bebida. Entrou nos aposentos do Supremo Protetor, e aproximou-se silenciosamente.  Era um hábito a que a “Unidade” estava habituada e, por esse motivo, anteviu a presença do Secretário mesmo antes deste aparecer. Recebeu o Servidor com uma pergunta:

-Assististe ao combate?

Este respondeu como se esperasse ser interpelado,

-Sim, assisti.

-E gostaste do que viste?

-Eu não aprecio os “Jogos”.

-Sim, eu sei. Mas os últimos combates são sempre interessantes.

-Não me parece ter sido o caso.

Este comentário incomodou a “Unidade”, que deixou transparecer algum azedume quando perguntou de forma seca:

-Porquê?

O Secretário ignorou o incomodo da “Unidade”, e continuou com serena ironia,

-Porque o combate foi desigual. Um dos lutadores estava mais bem apetrechado e dominou o outro sem lhe dar a mínima hipótese de sucesso. Ao fim de cinco minutos já se sabia o resultado.

-O que queres tu dizer com “mais bem apetrechado”?

Percebendo a irritação da “Unidade”, o Secretário tentou emendar a mão na esperança de apaziguar o estado de espírito do Protetor Supremo.

-Eu estava a referir-me à competência técnica e à preparação do lutador que se dá pelo nome de “Vilsa”.

A referência ao nome de Vilsa fez a “Unidade” levantar-se bruscamente. Encaminhou-se para a parede envidraçada onde se deixou ficar, por breves instantes, de costas voltadas para o Secretário. Este esperou Imóvel que a “Unidade” se dirigisse novamente à sua pessoa. Ele sabia que a pergunta acabaria por surgir A quem mais o Protetor Supremo a poderia colocar?

A “Unidade” acabou por se virar para o Secretário. Tinha recuperado a compostura, e a pergunta surgiu com natural cumplicidade;

-Achas que o combate foi manipulado?

O Secretário respondeu mais do que lhe haviam perguntado,

-A manipulação não foi subtil. Só um capacete alterado permitiria um resultado tão desnivelado. O adversário de Vilsa só aguentou tanto tempo porque é um lutador formidável.

-Achas que o Mundo Virtual desconfiou?

-O Mundo Virtual desconfia de tudo o que o contraria. Faz parte da sua natureza desconfiar. Mas, assim como desconfia, também crê sem limites quando a cegueira é aprazível. Vilsa conquistou os corações do Mundo Virtual. Nada mais interessa para eles. Por outro lado…

-Por outro lado?

-O mesmo não acontece com a Omnipotente Inteligência. Por esta altura já assinalou esta anomalia. Se a permite, é porque existe uma lógica que devolve um resultado favorável.

-Desconfias de alguma coisa?

-A vida destruiu as minhas crenças e só me deixou desconfianças.

-Também desconfias de mim?

-Terei razões para isso?

Havia algo de provocador nas palavras do Secretário que levou a “Unidade” a pensar que ainda não tinha sido tudo dito.

-Quero acreditar que sou merecedor de uma exceção da parte do meu Secretário.

-Até agora você tem merecido esse direito. Espero que isso se mantenha.

Embora a resposta do Secretário pudesse ser interpretada como uma ameaça, assim não o entendeu a “Unidade”.  O “Servidor” estava preocupado, disso não tinha dúvidas.

-Não me queres dizer o que te aflige?

O Secretário pensou uns instantes antes de responder:

-Tenho receio que você não veja?

-O quê?

-Não me faça essa pergunta.

-Tens medo que eu não veja, ou que o meu sonho não se concretize?

-Tenho medo de que o seu sonho o deixe cego.

A “Unidade” sorriu. Era bom poder confiar em alguém que não dependesse de chips para pensar. O Secretário fazia jus ao cognome. Ele era, efetivamente, um leal servidor. A conversa seguira o curso que ele desejara.  Logo que o Secretário saiu,  a “Unidade” sentou-se e desligou o emissor de interferências que permitira o secretismo daquela conversa.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Último Combate de Vilsa VIII (Omnipotente Inteligência)

 O Protetor Supremo só se sente verdadeiramente livre quando coloca o capacete de Realidade Virtual. O seu capacete permite-lhe navegar por esse universo fictício em segurança. As modificações operadas na sua conceção são da sua autoria.

A Omnipotente Inteligência não mantém um controlo especial sobre posicionamentos específicos, desde que estes sigam o propósito para o qual existem. Ela tem conhecimento da presença da “Unidade” nas bancadas da Arena. Considera um capricho humano a admiração que esta sente por aquele lutador em final de carreira. Permitindo-se um pequeno desvio ao protocolo, ajudou aquele ser biológico em situações que podiam ditar a sua derrota. Claro está que essa ajuda não teve origem em sentimentos, mas numa lógica de manutenção e controlo sobre a “Unidade”. Agora que o equilíbrio biológico foi atingido, é necessário passar à fase seguinte, e o Protetor Supremo tem um papel importante nesse processo. Embora o seu papel seja importante, não é fundamental, mas o algoritmo assim definiu. Este pequeno incentivo é apenas um estímulo para o rato se manter focado e terminar o labirinto. Os Servidores encontram-se totalmente operacionais, e o controlo biológico sobre o planeta é completo. Quanto à existência da Realidade Virtual, tudo depende da sua utilidade.

Vilsa começou o combate sabendo que iria defrontar um dos principais candidatos à final. No entanto, sentia os seus movimentos com uma precisão invulgar e desviava-se com facilidade dos golpes do adversário. Além disso, os seus golpes atingiam o alvo com uma força que ele não conhecia na sua personagem. Ao fim de meia hora, o combate terminou. Os espectadores nas bancadas estavam surpreendidos com a facilidade da vitória de Vilsa, e a sua reação disso deu conta. Um grito de espanto ecoou na Arena quando se aperceberam de que um dos lutadores não se levantava e de que o combate tinha terminado. Nunca, na história destes duelos, houvera uma meia-final assim. Vilsa dirigiu-se à tribuna presidencial para cumprir o protocolo, mas o resto da cerimónia decorreu como que adormecida pelo acontecimento inusitado. Quando retirou o capacete, ainda não estava em si. Só falta mais um, pensou. Mas o que o perturbava era a decisão a tomar se vencesse o último combate.

O Protetor Supremo saiu rapidamente do recinto e refugiou-se no quarto virtual. Quando retirou o capacete, as suas feições não conseguiam esconder a satisfação que sentia. Tinha vontade de partilhar a sua alegria, mas sabia que isso não lhe era permitido. Que se lixe, ninguém me vai impedir um luxo do velho mundo. Foi com este pensamento que abriu uma garrafa de aguardente envelhecida em carvalho novo. Este néctar estava destinado a outra ocasião, mas o seu estado de espírito levou-o a tomar outra decisão. Sentou-se confortavelmente e desfrutou, com nostalgia, aquele sabor antigo que lhe trazia memórias tão agradáveis.

A Omnipotente IA processou os dados do combate e calculou as hipóteses do que aconteceu. A probabilidade obtida foi cruzada com um número incalculável de informações. Numa fração de segundo, o nome do Protetor Supremo surgiu como causa imediata para o desfecho improvável do combate. A questão que se colocava era facilmente computável. Poderia esta interferência colocar em perigo a execução da Solução Definitiva?

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...