sábado, 29 de julho de 2023

OS OLHOS DO GATO I

 Da janela do meu quarto a cidade que se estende perante os meus olhos não é minha. Num prédio afastado algumas dezenas de metros uma janela aberta permite que a figura de uma jovem seja visível a partir do local onde me encontro. Vejo a sua silhueta, uma sombra escura provocada pela luz interior, braços ao longo do corpo e cabeça levantada numa postura cismática. Num relance pressinto uma figura voante libertando-se. No crepúsculo do entardecer a forma alada perde-se em direção ao astro-rei que procura repouso no horizonte. Nas ruas desertas acumulam-se destroços de paredes em ruinas. Lentamente as trevas cobrem a cidade. O céu estrelado dá lugar ao manto plúmbeo que se ergue um pouco acima dos edifícios mais elevados. No meio deste manto abre-se uma fresta de onde sai um raio de luz que atinge a cidade num ponto específico. A silhueta permanece imóvel na janela. Alguns dos pormenores que a poderiam identificar, estão agora cobertos pela escuridão. O seu contorno, no entanto, acentuou-se, e ganhou vida no contraste entre a luz do quarto e o negrume exterior.

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

sábado, 30 de abril de 2022

CICLO II (Linear)

 

Miguel está reformado há dois anos e ainda não se habituou às novas rotinas. Os primeiros meses passaram como uma agradável disrupção perante uma rotina que o ocupava, mas mantinha infeliz. Os últimos anos tinham-lhe arruinado o casamento levando-o a um divórcio sem traições mas com muitos ressentimentos. Das partilhas amigáveis ficou com o suficiente para o ajudar na compra de um pequeno apartamento, em segunda mão, no centro da cidade. A filha, com vida feita e curso acabado, decidiu emigrar e divide as duas semanas que passa em Portugal entre a praia, Lisboa e a casa da mãe. Para ele sobram dois dias, dois dias para despedidas ou para algum pedido de última hora. Têm uma relação cordial, mas a filha nunca lhe perdoou o abandono do casamento e a mãe foi sempre muito mais que uma mãe, enquanto ele, limitou-se a ser um pai. Faltaram as cumplicidades que criam os verdadeiros laços de amizade. Agora, sozinho, arranjou a companhia de um rafeiro que lhe preenche as rotinas em falta. Assim sendo, a vida de Miguel é monótona e solitária. Hoje, em particular, o dia apresenta-se como um longo calvário onde as rotinas se comportam como sedativos ecológicos, atenuadores do espaço e do tempo. Tomou o pequeno-almoço seguindo todas as regras a que se impôs e arrumou a cozinha com um perfecionismo exagerado que quase roça a paranoia. O rafeiro de pelo curto, a única imposição que fez quando o foi buscar ao canil municipal, segue sem trela e ao seu lado. Dir-se-ia que adaptou a personalidade melancólica do dono e que a sua presença nada mais é do que a versão canina do homem. Miguel nunca chegou a dar-lhe um nome. Passou duas semanas remoendo entre nomes absurdamente humanos e nomes estupidamente animais. Ao fim de um mês apercebeu-se que não precisava deles para se fazer entender, no fim de contas o cachorro também não se incomodava com a ausência identificadora, muito embora, e para fins de registo legal, o animal tivesse ficado com o nome de “Cão”. A relação entre estes dois seres não é sustentada em palavras mas sim em afetos silenciosos. Os passeios matinais são expurgações da alma para o dono e alívio para o animal, no entanto, o dia de hoje trouxe algo diferente à rotina de Miguel. Ele não saberá explicar o porquê de ter olhado para a saída daquele prédio amarelo de três andares precisamente no momento em que aquela mulher, extremamente magra, vagamente desalinhada e com uma criança pela mão, descia as escadas vagarosa e de cabeça baixa. Isso ele não saberá explicar assim como o fascínio que esta aparição exerceu sobre ele no momento em que ela levantou a cabeça e a imagem de fragilidade desapareceu por completo. Dir-se-ia que estava na presença de outra pessoa. Até a criança, inicialmente tão submissa, parecia ganhar outra vida. O Miguel não era homem de assombros e muito menos de deixar transparecer as suas emoções perante algo que o deixasse verdadeiramente perturbado mas, esta visão de poder numa mulher aparentemente tão frágil, fez com que permanecesse parado e sem conseguir afastar o olhar. O próprio cachorro, alma gémea do dono, sentou-se e de forma cúmplice uniu-se à contemplação de Miguel. Ficou a observá-las enquanto elas desciam a rua. Mesmo sem as conhecer pessoalmente sabia um pouco da sua vida, devido às conversas que ouvia no café que ambos frequentavam. Eram vidas banais, daquelas que só têm importância para quem as vive. As vizinhas, que viam na história daquela mulher um alívio para as suas próprias desgraças, falavam de toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica, infidelidade, dificuldade em manter um emprego e um sem número de outros problemas que ornamentavam com comentários, algumas vezes abonatórios e muitas vezes acusatórios, numa versão deturpada da justiça Salomónica. Miguel pensava em tudo isto enquanto as via afastarem-se até que, sem uma razão para a qual encontrasse uma explicação, decidiu segui-las. A explicação irá encontra-la mais tarde, quando dela precisar para justificar as suas ações.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Cíclo I (descendente)

 A janela aberta deixa entrar os aromas da primavera. Lá dentro o quarto fede a odores humanos, excreções noturnas, produtos resultantes das reações químicas que mantém a vida. Na cama um corpo nu e desarticulado repousa como um despojo, marionete largada depois de um espetáculo milhentas vezes repetido. Breves espasmos intermitentes emprestam um movimento inusitado ao corpo naufragado nesta serena letargia onde o pensamento é ausência. A porta do quarto abre-se muito lentamente e da fresta escura surge o rosto de uma mulher. Os seus olhos negros percorrem o corpo do homem numa espécie de avaliação. A mulher baixa a cabeça e talvez feche os olhos em resignação. Pudesse o seu cabelo longo deixar antever o gesto e teríamos a confirmação. Certo é que a porta, ainda agora aberta, acaba por se fechar. Pressentem-se passos que se afastam, passos leves de alguém leve ou então de alguém com total controlo sobre a sua leveza. Existem pessoas assim, existem sem existir e mesmo que a sua volumetria as imponha visualmente, acabam por passar totalmente despercebidas. Entretanto o corpo adormecido, como que afetado pela presença fugaz da mulher, começa a despertar. O espreguiçar lento e sofrido é acompanhado de gemidos indecifráveis, lamentos de coisas esquecidas, resquícios de uma noite etilizada. O sol entra radiante pela janela aberta e o chilrear dos pássaros junta-se aos aromas atrás referidos. O homem encontra-se agora sentado na cama. De cabeça baixa e de costas voltadas para a janela pragueja baixinho. Da boca saem-lhe palavras renovadoras, o “foda-se” redentor, o “cona da mãe” como local de refúgio, o “caralhos ma fodam” como penitência para confissões não assumidas e por fim um “puta que pariu a merda da luz” como justificação para a cegueira e a inércia. Sem forças para se levantar procura na memória uma âncora, uma referência que possa servir de ponto de partida, mas os pontos de partida são sempre os mesmos e as chegadas também. A saída do trabalho como momento libertador, a mesa da cervejaria como desculpa, os que chegam e os que partem e ele que fica e resiste. Alguém o leva para uma última ronda e depois o esquecimento, o corpo cansado e sem forças, o enjoo constante, pronuncio de lesões graves no fígado. O homem tem um nome, João. Poderia ser Paulo, Pedro, Tiago, José, mas não, o seu nome é João, João de Jesus Batista. João não batizou Jesus mas levou a sua filha à pia batismal onde lhe concedeu o nome de Maria e Maria, que não ficou Jesus, ficou Batista. Tem também o nome de família da mãe, mas a mãe encontra-se na cozinha a chorar e por respeito vamos deixar a descendente dos Pereira com a sua mágoa, até porque, quando o João entrar na cozinha, já não a encontrará. Aliás poderia afirmar, com grandes hipóteses de acertar, que o ruido seco ainda agora percebido foi provocado pelo fechar cuidadoso de uma porta, mais concretamente a porta da rua. João não tem ouvidos para tamanhas subtilezas. O João tem o estomago azedo, a garganta seca, a cabeça num eco perpétuo e a bexiga cheia que o obriga a uma ida apressada à casa de banho. A trajetória enviesada leva-o a embater nalguns obstáculos inocentes entre os quais se encontram, uma cómoda, uma cadeira e o cesto da roupa, último entrave para o acesso à sanita. O João está nu e num último arremedo de decisão decide aliviar-se dentro da banheira ao mesmo tempo que liga a água quente. O banho foi demorado. Não foi um banho higiénico com pormenores de limpeza dignos desse nome. Foi antes um deixar escorrer a água quente pelo corpo entorpecido, um acordar aquoso, um expurgar de suores. Saiu da banheira e mal se secou. Largou a toalha ao acaso no chão do corredor e dirigiu-se à cozinha. Não estranhou o silêncio, não estranhou a louça por lavar, não reparou no bilhete preso na porta do frigorífico por um íman-Mickey sorridente. Limitou-se a abrir a porta do frigorífico e a retirar do seu interior uma das inúmeras garrafas de cerveja espalhadas por todas as prateleiras. Largou-se numa das cadeiras junto da mesa e aproveitando um talher desarrumado abriu a garrafa levando-a à boca. Despejou-a pela metade e pousou-a com alguma violência, mais provocada pelo desmazelo do que por outro motivo qualquer. Depois debruçou-se sobre a mesa e adormeceu.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Perspetivas (decima quarta…última abordagem)

Alhures alguém vigia. Ser superior a todos os nomes, entidade apenas intuída, é alma sem ser alma. Criador primordial, porque alguém tinha de desempenhar esse papel, ocorre num espaço e num tempo que cada um de nós identifica de maneira individual. Existem no entanto casos de mistificação coletiva onde, de forma organizada, se venera o espaço e o tempo moldando-o criador. Sendo omnipresente por necessidade de aceitação atua indiscriminadamente movido por vontades ocultas. As Deusas-pagãs-maiores buscam-nas nos presságios que se encontram codificados nos cetros divinos. Os Deuses-criadores-menores analisam a atuação divina e assimilam-na como norma. Utilizam os seus cetros como meio de normalizar, através de protocolos iniciáticos, o caos criativo que resulta das Ações indiscriminadas do supremo ser, suposto criador por necessidade de haver alguém que desempenhe esse papel, como atrás já foi referido. Alhures alguém vigia, frase obviamente desnecessária porque faz parte da natureza desse alguém exercer essa vigilância contínua, resulta da necessidade de uma redundância. As redundâncias são uma espécie de lembretes, o sublinhado nos livros de estudo, o Bold agressivo nas mensagens panfletárias. Esta em particular dá enfase à ação seguinte, o que acontece porque alguém vigia. Neste caso o que acontece é um apagar de luzes, um fechar de pano. Os atores desaparecem e com eles desaparece também a narrativa. O ser superior a todos os nomes, entidade apenas intuída, exerceu a sua ação indiscriminada na vontade do Deus-criador-menor, responsável pela palavra escrita. Com essa ação secou-lhe o verbo e indicou-lhe o caminho para a decima quarta perspetiva. O ecrã do portátil apaga-se e, tal como uma cocha, encerra-se sobre si mesmo. O deus-criador-menor levanta-se sem rumo tentando a comunhão apaziguadora de um cigarro. A decima quarta perspetiva dissipar-se-á no fumo nicotizado do vício…


Perspetivas (decima terceira abordagem)

Dois deuses aposentados descem pausados a rua. Entre si dividem mais de centena e meia de anos. Vêm em silêncio e deles não deriva nenhuma perturbação. Aproximam-se do café e atravessam a esplanada com reverenda dignidade.  O degrau que os separa do interior do estabelecimento é um obstáculo. Ultrapassado com vagar meticuloso permite-lhes uma entrada serena e cautelosa. Escolhem cuidadosamente a mesa onde irão repousar os seus físicos gastos. A luminosidade e o recato de uma mesa junto à janela serão critérios primordiais para que a escolha se concretize.  A abordagem é realizada solenemente e com gestos de elevada teatralidade que revelam a importância dada ao momento. Os deuses aposentados vivem cada momento com uma intensidade insuspeita e pouco compreendida. Os deuses aposentados sabem que a cada segundo que passa ficam um segundo mais perto. O fim não é um acontecimento longínquo mas antes uma convocação anunciada.  A rapariga-feiticeira observa, com olhar meigo, os gestos dos deuses aposentados. A futura mulher-criadora não precisa de grandes cuidados na sua abordagem. Poderá permitir-se ser ela, bonita, de sorriso fácil, olhar puro que transpira juventude em cada pigmento colorido da sua íris. Não precisará de aproximações cautelosas, nem de jogadas ludibriosas. Não necessitará de escusadas reverências nem de subserviências encenadas. Aproximar-se-á da mesa e desejará um “bom dia” luminoso e insinuará os “dois cafezinhos” do costume. Receberá o habitual elogio à sua beleza e á sua simpatia, elogios honestos de quem já não precisa mentir.  A cena decorre de tal forma serena que em nenhum momento os dois Deuses-criadores-menores e a Deusa-pagã-maior sentiram necessidade de desviar a atenção dos seus cetros para a observar. A rapariga serve com satisfação os dois deuses aposentados. A futura Deusa-pagã-maior inveja o desprendimento com que os deuses aposentados usufruem do seu café. 

Perspetivas (decima segunda abordagem)

 A vida não se resume a deuses precoces. Também não se esgota nas deambulações maduras de deuses experimentados. Os deuses aposentados representam parte significativa da sociedade divina. Têm uma postura cansada, disfarçada de benevolente lentidão. Muitos deles exerceram o seu poder de forma oral, recorrendo à leitura de livros, revistas e jornais. Os novos cetros são objetos de assimilação difícil. Sentem os constrangimentos normais de quem viveu sem esta nova forma de “ser” divino. O upgrade divino apresenta-lhes inúmeras dificuldades, ecrãs de pequena dimensão, luminosidade incorreta, botões minúsculos e dissimulados em designs de gosto em constante mutação, palavras e instruções enigmáticas. Os seus dedos tateiam os cetros de forma lenta e errática fazendo sair das suas bocas diversas interjeições de desagrado, despejadas em murmúrios de falsa oração. Mas também eles se renderam ao upgrade divino e não se coíbem em mostrar tais preciosos artefactos aprendidos em segredo, em longas soirées de desespero, com a preciosa ajuda da sua prole divina. De entre todos são eles os que demonstram, através de gestos de cuidada reverência, o maior respeito por tão poderoso objeto. Têm noção de que nunca conseguirão extrair na totalidade os novos feitiços disponíveis, quanto muito conseguirão manipular alguma magia corriqueira e isso bastará para um ego moldado por uma modéstia esculpida pelo passar dos anos. Os deuses aposentados tendem, na sua maioria, para a assexualidade física. Dificilmente o Deus aposentado masculino admitirá tal facto. O orgulho e a memória de antigos feitos levam-no a um estado de negação que, não sendo pernicioso, gera alguns equívocos. A deusa aposentada prefere não falar no assunto deixando que o seu mundo sensorial derive por outros universos. Os deuses aposentados, cuja homossexualidade foi assumida numa altura da vida em que o ato sexual é necessidade premente, têm uma relação aparentemente mais saudável com este facto, mas só quem leva o fardo é que sabe o que lhe pesa.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Perspetivas (décima primeira abordagem)

 A rapariga apercebe-se do desconforto dos Deuses. Pensa, talvez seja tarde demais. Gostava de ter poderes de mulher-feiticeira, fazer desaparecer os jovens adolescentes que se aproximam do balcão. Não sendo esse o caso resta-lhe enfrentar a tormenta. Com a vela de tempestade ao vento a rapariga manobra habilmente a situação. Numa jogada de antecipação dirige-se aos machos imberbes adivinhando-lhes o pedido. Com um gesto insinuador digno de prestidigitadora profissional oferece os croissants acabados de fazer. Adiciona-lhes creme de chocolate e uma lata de poção mágica, Cola original sem restrições. A estocada revela-se perfeita. Os dois jovens entregam-se, numa rendição incondicional, às mãos da Deusa precoce. Para a prestidigitação ser completa só falta fazê-los desaparecer. A ordem, mascarada de solicitude, é largada de maneira inocente, três palavras apenas, É para levar? Totalmente enfeitiçados, os príncipes em formação, anuem com jeito bovino. Tudo corre bem. Com o alvoroço controlado, a fúria dos Deuses dissipa-se perante o domínio da situação exercido pela jovem. No mesmo passe de magia a futura Deusa-pagã-maior fornece aos jovens as duas doses hipercalóricas. Entrega com uma mão, recebe com a outra. O valor a pagar também já tinha sido divulgado. Meio aturdidos com a solicitude eficiente da rapariga os jovens abalam, já não preocupados com os seus cetros luminosos, completamente ganhos pelo cheiro adocicado da guloseima disfarçada de pequeno-almoço. A saída dos machos imberbes faz-se silenciosa e apressada. A rapariga lança um último olhar aos jovens. A ingestão calórica ocupa agora as suas mentes irrequietas. Afastam-se de boca cheia e latas na mão. A rapariga-feiticeira, futura Mulher-criadora, está orgulhosa do seu domínio. Este tipo de controlo irá permitir-lhe muitos sucessos num futuro, que assim se adivinha, promissor.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Perspetivas (décima   abordagem)

 Na esplanada os dois Homens-criadores apercebem-se da chegada dos adolescentes. Trocam entre si olhares de suave censura. São Deuses-criadores-menores , como tal, têm conhecimento da poderosa energia que emana dos dois machos imberbes. Invejam-na pelas sensações há muito perdidas. A consolidação do seu poder como Deuses retirou-lhes essa energia primordial. Hoje, sabem que ela existe, sabem que nunca a poderão recuperar. Os cetros que transportam consigo são prolongamentos úteis das suas memórias, dessas construções sedimentares cujas camadas protetoras impedem essa energia de fluir nos seus corpos. Os dois jovens entram no estabelecimento comercial. Demoram-se um pouco à entrada enquanto comentam sobre coisas visionadas. Fazem-no em voz alta, entoação juvenil em formação, modelação periódica com anomalias de descontrolo arrebatado. Após breve período de condescendência os Homens-criadores manifestam agora o seu enfado que rapidamente se converte em desconforto. Os adolescentes são alheios convictos à perturbação provocada. Numa avaliação superficial poder-se-ia facilmente chegar à conclusão  de que, primeiro, a perturbação fazia parte dos seus intentos, jogo iniciático de testa limites, segundo, o objetivo da sua visita ao estabelecimento de consumo calórico tinha intenções puramente lúdicas e poderia perfeitamente ter sido evitado e em terceiro lugar que, de acordo com as duas primeiras premissas, os dois jovens imberbes, tendo cumprido os seus desígnios, sairiam pela porta fora rindo satisfeitos, convictos de ter destabilizado o mundo castrador dos Deuses-criadores. Embora racionais e possíveis estas conclusões não se adaptam a este caso concreto.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Perspectivas (nona abordagem)

A mulher sentada à mesa desfruta do sabor ligeiramente adocicado da torrada acabada de fazer. Permite-se um ligeiro cerrar dos olhos. Assim embevecida solta um impercetível gemido de prazer. É  nos momentos em que liberta os sentidos do espartilho do dever divino, e só nesses momentos, que a Deusa-pagã-maior se revela mulher. A sensualidade com que se entrega aos sabores, a plenitude do estomago saciado, o desligar do mundo ligando-se a si mesma, faz com sinta um arrepio que lhe desce ao ventre. Agora, com a pessoa certa e as circunstâncias alinhadas com os astros, deixaria o seu corpo abandonar-se a carícias. Por momentos imagina mãos hábeis manuseando os seus pontos sensíveis. Imagina essas mãos demorando-se, espantadas, nesses pontos recém descobertos. Prazer sem opressão ou domínio, apenas abandono. A Mulher-criadora acorda para a realidade de forma desconfortável. Dois jovens machos, plenos de vitalidade pós pueril, avançam ruidosos pelo estabelecimento em direção ao balcão. A Mulher-criadora reconhece num dos jovens a cria masculina de uma Deusa-pagã-maior sua conhecida. A mulher-feiticeira não tem dúvidas quando decide usar o seu poder.

 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Perspetivas (oitava  abordagem)

O mundo tem centros desconhecidos. O mundo dos adolescentes tem centros de grande intensidade. A energia gerada por esses centros pode mover o mundo assim como o pode destruir. A rapariga, projeto precoce de Deusa-pagã-maior, tem tremores de vidente incompleta. A leve penugem dos seus braços desnudados apresenta sinais de arrepio. A premonição capilar não é descabida e concretiza-se na imagem juvenil de dois machos imberbes em trejeitos desengonçados. O alarido por eles produzido é algazarra espontânea, encenação improvisada. Os jovens têm o odor de hormonas em desenvolvimento e espalham-no testando limites, demarcando terreno. São príncipes em formação, aprendendo a criar através  caos. Os seus ecrãs luminosos são manipulados com exuberância e desleixada perícia. A rapariga sabe com o saber de quem já viu, de quem já experienciou. Sabe que os dois machos imberbes, príncipes em formação, entrarão ruidosos transpirando juventude, exalando energia mal contida. Antecipa, numa previsão correta e assertiva, que essa manifestação de vida em crescimento irá incomodar os Deuses. Olha, como se visse o futuro, a imagem perturbada desses seres superiores interrompendo o seu visionamento divino. Imagina-os vertendo olhares reprovadores, primeiro para os machos imberbes, de seguida em sua direção solicitando a sua intervenção. Como a rapariga sabe, com a mestria de quem possui esse conhecimento, irá proceder em antecipação. Não  irá evitar, antes mitigar, as consequências antevistas.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Perspetivas (sétima  abordagem)

 A rapariga por detrás do balcão deteta o odor morno do pão torrado. De olho no seu cetro prepara o pedido da Deusa-pagã-maior. Coloca cuidadosamente o chá e as torradas numa bandeja metálica de forma circular. A rapariga examina com pormenor  a bandeja assim preparada. A mulher, Deusa-pagã-maior, manipula com destreza o ecrã do seu cetro. O mundo rende-se ao poder calmo e assertivo da mulher feiticeira. A rapariga aproxima-se com a bandeja. Com experiência de saber feito insinua o reflexo da sua imagem no ecrã-cetro da Mulher-criadora. Ligeiramente incomodada a Deusa-pagã levanta o olhar com uma expressão que não transmite nenhuma emoção facilmente percetível. A rapariga insinua a bandeja o que faz a mulher-feiticeira sorrir. De forma cuidada e reverente distribui pela mesa o prato com as torradas e a chávena de chá. A Mulher-criadora pousa o seu cetro e aconchega o pequeno-almoço para perto de si. A rapariga retira-se satisfeita com a sensação de dever cumprido. A Deusa-pagã-maior manipula os hidratos de carbono. Ingere-os com elegância e ajuda a deglutição com delicadas transferências  da infusão aromática. A mulher-feiticeira  guarda a mão direita para a sua obrigação criadora. A rapariga está novamente por detrás do balcão e tenta, com trejeitos forçados, as poses manipuladoras da Deusa-pagã-maior. Lá fora ouve-se o chilreio da animália voadora.

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...