domingo, 24 de maio de 2026

O Que Fazer Com A Escuridão?

 No quarto escuro o silêncio escorre pelo meu corpo. Eu sou uma taça onde os ruídos noturnos repousam. Envolto num mar revolto respiro entre as ondas dos lençóis observando ao longe a tábua do horizonte encoberta por uma neblina de mantas coloridas. O meu corpo repleto de gemidos verte os seus fluidos às correntes gasosas para que a palavra se eleve, balão de matéria vermelha, por cima do que é eterno. Ao meu lado a voz é silêncio de campainha e os meus dedos são náufragos perdidos na escuridão.

O que fazer com a escuridão?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O NAPERON DE ESTALINE

 

Na imensidão da estepe russa o inverno tem por hábito pintar a paisagem de branco. Aí iremos encontrar dois complexos habitacionais. Quem os veja ao longe não conseguirá distingui-los no horizonte. Mais ao perto percebemos que nos encontramos na presença de uma construção militar a poucos quilómetros de uma habitação austera. Essa habitação está cercada por um muro branco com cerca de três metros de altura. A única abertura existente nesse muro está obstruída por uma cancela e uma guarita onde três soldados se encontram de sentinela. Uma extensa língua preta de asfalto percorre a distância entre o complexo militar e a habitação. Essa língua vai até à porta da habitação onde encontramos dois sentinelas imaculadamente vestidos.

Todos os dias uma limousine desloca-se desde o complexo militar até a habitação. Esta deslocação acontece sempre à mesma hora com a precisão de um relógio. Quando se imobiliza saem de lá dois oficiais. Um traz na mão uma pasta e o outro um ramo de flores. Dirigem-se à porta onde os soldados se colocam em sentido. No interior do edifício deslocam-se até uma secretária onde o oficial de dia lhes indica com um sinal de cabeça que podem subir. Estes, seguindo a indicação do camarada ascendem ao segundo andar do edifício onde um enorme corredor os leva até uma porta de madeira maciça sem ornamentos. Um deles, geralmente o que leva as flores, bate com os nós dos dedos na porta e ambos esperam por resposta. Do outro lado ouve-se um grunhido que lhes dá autorização para entrarem. Lá dentro o oficial das flores dirige-se a uma mesa-redonda onde um naperon de linho branco debruado com uma renda de crochet vermelha e bordado com uma foice e um martelo na mesma cor serve de base a uma jarra de cristal com flores murchas. Este substitui as flores murchas pelo ramo que leva na mão. Ao mesmo tempo que isto acontece o outro oficial entrega a Estaline a pasta que trazia debaixo do braço. Após terem cumprido a sua função retiram-se silenciosamente fechando a porta de forma cuidada e ficam a aguardar no corredor.

Estaline pega na pasta, levanta-se  e dirige-se à mesa-redonda sentando-se numa modesta cadeira de madeira. Arreda suavemente o naperon e a jarra. Após este gesto abre a pasta de onde retira treze folhas preenchidas com nomes. Analisa cuidadosamente cada uma das folhas sublinhando com lápis vermelho alguns dos nomes. Por cada nome sublinhado esboça um sorriso. Esta ação decorre invariavelmente durante cerca de meia hora. Quando termina volta a colocar as treze folhas dentro da pasta. As folhas com os nomes selecionados serão entregues aos dois oficiais que se encontram no corredor, mas só após um grunhido de comando que os faz aparecer solícitos e obedientes. Retiram-se de cabeça curvada deixando Estaline embrenhado nos seus pensamentos. Enquanto pensa volta a colocar o naperon e a jarra no centro da mesa. A sua mão direita, a mesma com que sublinhou os nomes, coloca-se agora sobre a renda deixando deslizar suavemente os dedos sobre o seu trabalho do mês passado. Estaline sofre de insónias e todas as noites, sentado à secretária, faz renda em crochet até a sonolência o atingir. O seu oficial de dia, invariavelmente, por volta das cinco da manhã verifica o estado do crochet para averiguar da sua finalização. Quando esta acontece borda um pano de linho com a foice e um martelo e coloca a renda à volta. Distribui estes naperons pela mobília do edifício o que muito agrada a Estaline.

Ao mesmo tempo que Estaline passa os dedos pela renda vermelha um dos prisioneiros evadidos de uma prisão na Sibéria está a ser retalhado pelos seus parceiros de fuga. Calhou-lhe a ele ser a fonte de alimento para os outros três. Na neve imaculada restam agora pedaços humanos ensanguentados… ~

 

P. Guerreiro

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Sempre a mesma estrada

 Sempre a mesma estrada, o mesmo asfalto lunar que desafia a perícia dos condutores de playstation. Eu, que não fui bafejado por tais capacidades, entretenho-me a acertar em todos os buracos que têm a coragem de me fazer frente. A estrada leva-me ao trabalho serpenteando pela serra e eu, agarrado ao seu pescoço, cavalgo esse monstro meigo. Trinta minutos de solidão onde tento reorganizar a minha vida. Levo sempre a rádio ligada, "Antena 1" por lealdade, "Antena 1" por ser generalista, "Antena 1" porque a associo a uma coisa primeira, a rádio original. São coisas que me vêm à memória talvez porque as tenha ouvido. Na verdade, é mais a preguiça que me leva a deixar a sintonia em paz e a entregar-me aos sons que me quiserem dar. Sim, a rádio para mim é uma companhia. Não tenho que lhe responder, não tenho que sorrir. Posso manter a minha boca fechada sem vomitar opiniões, posso perder-me nos tristes chaparros meio despidos que, perfilados aleatoriamente, tentam preencher a paisagem. Nos dias chuvosos de inverno imagino-me plantado no meio deles, também eles silenciosos e sem conversa fiada. Ouço na rádio que lhes deram caça. Sem direito a refúgio, e sem estatuto, são abatidos pela raiz. Parece que vêm ai uns painéis, umas coisas meio feias, de baixo porte, que cobrem o solo e põem as coisas eléctricas a funcionar. Energia verde, é o que dizem. Melhor seria se os pintassem de verde. Talvez que as fotos no Google Earth ficassem mais engraçadas. Há dias mostraram-me umas imagens, no PC lá do trabalho, em que se viam umas manchas castanhas junto ao Guadiana, e que me disseram ser esses tais painéis. Parecia mais o chão da sala do meu ex-amigo André, uma coisa a imitar madeira, mas que não é madeira. Mas também, hoje tudo o que parece não é. Quando vou na estrada esqueço-me das mentiras. Das mentiras da minha mulher quando me traiu com o João, com o António e com o André. Sim, o André ficou com ela. Se calhar foi por causa do chão da sala. Bem, do chão da sala e do mercedes em segunda mão, uma bomba, que foi buscar à Alemanha, e também da vivenda que construiu com o dinheiro que a tia lhe deixou de herança. A puta levou-me a minha Aninhas, a mais nova, e deixou-me o Pedro que, com quinze anos, se lembrou de meter umas merdas. Raio do gaiato fica sem dormir noites inteiras com as cenas que toma. Podia fumar umas coisas, mas não, tinha logo de nadar num lago com piranhas. Também ele me mente. O que me chateia nas suas mentiras é que nem se dá ao luxo de mentir bem. Está-se cagando para mim, o pai que continua a bulir no duro para lhe manter os vícios. A cabra da minha ex foi esperta, levou-me a minha Aninhas, a luz dos meus olhos, e deixou-me o raio do rapaz. Não saiu a mim, eu que tudo fiz com comedimento, que remédio, com o que o meu pai bebia tinha que cuidar de tudo, da minha mãe e dos meus três irmãos mais novos. Sacanas de uns ingratos, foram todos para a Europa e nem um telefonema. 

Sim, saiu ao avô, talvez morra cedo como ele. Assim evita foder os miolos de alguma pobre rapariga, como o meu pai fez à minha mãe e que a deixou num caco. Não posso esquecer-me de ir à Santa Casa fazer-lhe uma visita. Qualquer dia apaga-se e ainda sou eu que vou carregar com a culpa, parvo como sou é o mais certo. Ainda bem que a hora atrasou. Gosto de ver o nascer do sol por detrás da planície, o ar limpo e o cheiro a terra que me entra pelo nariz. Gosto de conduzir com os vidros meio abertos, não é bem meio, é para ai um terço, o suficiente para me manter acordado. Ok, confesso que comecei a abusar um bocadinho do álcool, tinto ao jantar e uns medronhitos para atamancar. Ultimamente tenho adormecido no sofá a ver televisão. Acordo com o moço a chegar a casa. Muitas vezes tomo um banho e arranco para o trabalho sem tomar o pequeno-almoço. Compro uma bucha no café, que fica ao pé da oficina, e lá vou eu vergar a mola. Ainda pensei acabar com esta merda toda com a porra de um tiro nos cornos, mas aqui há uns dias, quando vinha do trabalho, acabado de fazer um curva apertada, dei com um corpo de um homem pendurado numa árvore. Já lá estavam dois GNR's, que tentavam afastar uma moça que gritava desesperada. Depois contaram-me a história; parece que a mulher do homem o tinha abandonado, a ele e à filha, a jovem rapariga que gritava, levando-lhes todo o dinheiro. Certo é, que aquela imagem tirou-me aquelas ideias da cabeça. 

Ainda gosto dela. Sempre gostei. Se ela voltasse, e me pedisse com jeito, eu aceitava-a. Talvez o miúdo atinasse e eu deixasse de beber... 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

OS OLHOS DO GATO VI

Estou à janela. Deixo o meu olhar perder-se no voo da ave de rapina. A silhueta feminina lança no ar um aceno. Inconscientemente levanto a mão direita numa resposta pouco convincente. Será um sorriso aquilo que pressinto? Sorrio também. Pelo canto do olho procuro a ave que, aparentemente, se perdeu no céu. 

-Procuras Ártemis? 

-Sim, não sei, quem é Ártemis?

-A minha caçadora, o meu anjo da guarda.

-Para onde foi ela?

-Caçar, é o que ela faz, é a sua natureza.

-O que caça ela, a tua caçadora?

-Caça olhares.

-Olhares?

-Sim. Eu não vejo sem eles.

-Sem olhares?

-Não tenho olhos. Nasci sem eles. No seu lugar tenho os buracos mais negros do mundo.

-Então como me consegues ver?

-Eu não te estou a ver. Sei apenas que estás ai, sinto a tua presença na imensa escuridão do meu mundo. Há pouco pude olhar para ti com os olhos do gato, mas agora já não os tenho, deitei-os fora. Ártemis foi procura-me um novo olhar.

A voz feminina insinua-se no interior da minha cabeça. Sem saber porquê respondo-lhe em voz alta, mas tenho a certeza que me ouviria mesmo que não o fizesse. 

-Um novo olhar?

-Um novo olhar. Pedi-lhe um olhar de criança. Quero ver um nascimento, um seio materno e a cor do seu leite. Quero ver o que perdi.

-E como vai Ártemis desenvencilhar-se para conseguir esse olhar?

-Trazendo-me os olhos de uma criança.

Fiquei sem resposta. Não conseguia acreditar na voz feminina que ecoava nas paredes do meu craneo, deixando um rasto de nojo e indignação. Tentei um esboço de revolta que me morreu na boca. Tal como eu desconfiava o vulto ouviu o que eu calei.

-Ficaste chocado? Não consegues acreditar no que ouviste?

-.....

-Não me respondes?

-Não sei o que dizer.

-Achas que sou cruel?

-Acho que não és humana.

-...

-Não dizes nada?

-Tem cuidado.

-Estás a ameaçar-me?

-Posso querer o teu olhar, ver o mundo com os teus olhos, perceber o teu ponto de vista. Sabes, eu sou muito curiosa.

-Ninguém tem culpa da tua deficiência.

-Tal como todos os seres que existem no mundo, eu sou um produto do criador. Ele permitiu-me sem olhos e curiosa, ele permitiu o desenvolvimento da minha natureza, ele criou o caos no mundo onde vivo, ele observa o espectáculo da minha vida desde a primeira cena. Acredito que o pano irá cair qualquer dia, e que ele irá aplaudir a sua criação. 

Não a vi chegar, não pressenti o vulto que se insinuou e que me arrancou os olhos. Gritei de dor e desespero. Deixei-me cair enquanto sentia o sangue escorrer pela cara. Assim fiquei, chorando líquidos que não consegui identificar. De repente ouvi novamente o vulto.

-Sim, agora consigo compreender-te. Acho que tu também me compreendes.

Sim, conseguia compreende-la. Conseguia sentir a angustia negra da ausência de luz. Levantei-me e cheguei-me à janela. Pressentia a sua presença na janela. Virado na sua direção murmurei:

-Podes pedir a Ártemis um olhar para mim?

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 16 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO V

A ave de rapina levanta voo, carregando consigo, nas garras, dois pequenos objectos redondos. De cada um destes objectos pende um fio. A ave eleva-se no ar por cima dos edifícios mais elevados. No seu voo circular parece procurar algo. O vulto na janela agita-se em convulsões. Como que respondendo a esse frenético movimento, a ave início um movimento descendente em direção à janela onde se encontra o vulto. Da minha janela observo a cena apreensivo. Tento um grito de aviso que me morre na garganta, um aceno de urgência que não se concretiza. Tudo em mim é imobilidade, à excepção do meu olhar. Por duas vezes a ave circunda a janela numa avaliação criteriosa. De repente, um gesto convidativo do vulto provoca a investida da ave que recolhe as asas na sua aproximação ao parapeito. Pouco antes de poisar, larga, à vez, cada um dos objectos redondos na mão da silhueta que parece agradecer-lhe. A ave volta a erguer-se nos ares. Pairando a pouca altitude, parece aguardar instruções. Entretanto, o vulto parece colocar os dois objectos no lugar dos seus olhos. Num primeiro movimento de cabeça parece olhar para mim como se há muito me tivesse pressentido. Sinto-me tentado a ocultar a minha presença por detrás do cortinado, mas desisto dessa intenção quando o vulto, num movimento brusco, se coloca de costas voltadas. Assim permanece durante alguns segundos até que, num repente, começa uma espécie de dança. De braços no ar, agita-os freneticamente, enquanto rodopia o corpo, fazendo-o dobrar de forma pouco natural. "Consigo ver-te. Agora sei quem tu és.". Ouço esta voz e, sem saber porquê, tenho a noção exata da sua origem. Sem abrir a boca sinto que lhe respondo, "Também eu consigo ver-te, mas não sei quem és". Assim como começou, o vulto termina bruscamente a sua dança. Leva as duas mãos ao rosto e lança dois objectos na escuridão. Retoma a sua posição inicial no mesmo instante que a ave de rapina, interrompendo o seu movimente circular, se lança aos céus por cima dos edifícios mais altos. "Procura Ártemis, trás-me um outro olhar, um olhar de criança". Quero ir-me embora e fechar a janela, mas não sou capaz. "...um olhar de criança...de criança...criança". Procuro a ave no céu e espero...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 2 de setembro de 2023

OS OLHOS DO GATO IV

 Na penumbra algo se agita. A silhueta furtiva de um corpo alado desloca-se no ar morno da noite deixando um rasto de ausência. Percorre os espaços vazios, deixados pelos prédios abandonados, deslizando silenciosa na direção do feixe de luz. O gato, totalmente iluminado, permanece imóvel. Exibe a sua pose com orgulho felino. Os seus olhos, repletos de luz, revelam-se verdes. Liberto de receios contrai as pupilas até que estas se reduzam a dois riscos negros. A silhueta alada revela-se aos poucos. Dois metros de envergadura suportam um corpo preparado para matar. Num repente, e após uma curva apertada, inicia um voo picado em direção ao gato que permanece inerte. Num último instante mostra as suas garras afiadas que penetram no corpo do felino. Aproveitando o impulso assassino, a água disfere violentas bicadas na cabeça do animal capturado até que este se queda, imóvel, espalhado no chão. Junto dele a águia ergue-se juntando as asas ao corpo. O vulto feminino, que permanece na janela, solta um grito de satisfação. É um grito solitário e que não originou qualquer movimento a quem o soltou. Apenas a ave de rapina reagiu ao apelo e, como que agradecendo, baixou a cabeça por três vezes antes de se debruçar sobre o cadáver do felino. Tento perceber o que se passa, mas sem sucesso. Apercebo-me de que efetua um trabalho minucioso com o seu bico afiado. São gestos delicados que tentam retirar qualquer coisa da cabeça do gato. Ambos permanecem sob o intenso feixe de luz. Não consigo evitar a comparação com uma mesa de operações. A analogia causa-me desconforto pelas memórias que me induziu. Tento libertar-me do sufoco, causado por essas imagens do passado, procurando a silhueta feminina na janela. Sem perceber porquê, visto que ela permanece imóvel, a sua visão revela-se sinistra. Novamente uma frase me é sugerida...o que achas de Ártemis? Incapaz de responder desvio o olhar para a ave de rapina. Novamente levantada,  segura no seu bico um fio com uma pequena bola na ponta.  Olha para mim? Não sei...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre) 

sábado, 12 de agosto de 2023

OS OLHOS DO GATO III

Sob a estrutura metálica o animal observa o feixe de luz. No seu olhar a curiosidade e o receio misturam-se. O seu corpo, totalmente imóvel, apresenta a postura de uma estátua decorativa. Para além do zumbido metálico omnipresente ouvem-se esparsos estalidos vindos dos escombros amontoados no interior dos edifícios em redor. No meio da aparente ausência de vida estes sons são testemunho da existência clandestina, raramente visível, de seres menores habituados a ocupar a obscuridade do mundo. Entretanto, o deslizar corpóreo de uma silhueta nocturna percorre o céu em círculos de epicentro indefinido. A imobilidade do animal é finalmente quebrada. Saído de uma reentrância na parede de um dos edifícios, o animal felino, agora revelado na sua plenitude, avança silencioso em direção ao feixe de luz. Cuidadosamente, circunda o circulo luminoso desenhado no chão até que se imobiliza sentando-se junto dele e permanecendo na penumbra. Experimenta-o, à vez, com ambas as patas dianteiras, retirando-as de imediato e aguardando expectante pelo efeito provocado. Parecendo satisfeito com o resultado ergue-se e penetra totalmente no circulo luminoso, deixando-se banhar pela luz o que o leva a cerrar os olhos ao mesmo tempo que cessa o movimento. Após esse breve momento de hesitação abre os olhos e percorre o interior do circulo até se imobilizar no seu centro. Senta-se, e ai permanece numa pose natural de felino satisfeito. Lá no alto, por cima dos mais altos edifícios da cidade, algo se agita. Da janela do meu quarto observo a silhueta da mulher que permanece aparentemente imóvel. Num repente apercebo-lhe um ligeiro movimento de cabeça que não consigo confirmar. Nos meus ouvidos uma frase não ouvida, aparentemente sugerida, traduz-se em qualquer coisa de perceptível...é agora...rápido minha guardiã alada...

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

sábado, 5 de agosto de 2023

OS OLHOS DO GATO II

 Por entre os escombros da cidade vazia a sombra furtiva procura uma vítima. O raio de luz atrai a presa e o predador. Na noite, um zumbido eléctrico embala o ar tépido. A presa aproxima-se lentamente do circulo luminoso traçado no chão. Pequenos objectos mecânicos dispersam os seus fragmentos ao acaso. A integridade comprometida não reage, inanimada que é, rende-se ao ser vivo que caminha entre as suas partes. Um emaranhado de cabos pende de uma janela vizinha derramando-se pelo chão. Pressente-se neles uma ligeira vibração. De pelo negro, a figura animalesca funde-se na noite, atenta aos sinais de perigo. Do seu focinho saem pequenas antenas que procuram no ar a dimensão de todas as coisas. O seu movimento não provoca o mais pequeno ruído e funde-se na essência dimensional do que existe. A sua pequena cabeça surge por detrás de uma esquina gerando uma sombra que se funde na parede, provocando a ilusão de estarmos na presença de uma única entidade, simbiose perfeita entre a matéria viva e a matéria inanimada. Lá em cima, outro ser se dilui na escuridão. Dele apenas a presunção de movimento, a ligeira deslocação do ar camuflada de brisa nocturna. A vida esconde-se no meio do caos silencioso e da destruição consumada. O acto fica registado na memória do observador que no entanto nada viu para além da silhueta da janela. A negra figura permanece imóvel obrigando-me a suspender a respiração. Quanto tempo poderei aguentar suspenso no tempo, preso na teia da imobilidade visualizada? Entretanto a cabeça do felino mantém-se estática e eu, tal como ele, perfilo-me em estátua tentando-me invisível. 

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

sábado, 29 de julho de 2023

OS OLHOS DO GATO I

 Da janela do meu quarto a cidade que se estende perante os meus olhos não é minha. Num prédio afastado algumas dezenas de metros uma janela aberta permite que a figura de uma jovem seja visível a partir do local onde me encontro. Vejo a sua silhueta, uma sombra escura provocada pela luz interior, braços ao longo do corpo e cabeça levantada numa postura cismática. Num relance pressinto uma figura voante libertando-se. No crepúsculo do entardecer a forma alada perde-se em direção ao astro-rei que procura repouso no horizonte. Nas ruas desertas acumulam-se destroços de paredes em ruinas. Lentamente as trevas cobrem a cidade. O céu estrelado dá lugar ao manto plúmbeo que se ergue um pouco acima dos edifícios mais elevados. No meio deste manto abre-se uma fresta de onde sai um raio de luz que atinge a cidade num ponto específico. A silhueta permanece imóvel na janela. Alguns dos pormenores que a poderiam identificar, estão agora cobertos pela escuridão. O seu contorno, no entanto, acentuou-se, e ganhou vida no contraste entre a luz do quarto e o negrume exterior.

(A partir do livro "Os Olhos do Gato" de Moebius & Jodorowsky. Interpretação livre)

sábado, 30 de abril de 2022

CICLO II (Linear)

 

Miguel está reformado há dois anos e ainda não se habituou às novas rotinas. Os primeiros meses passaram como uma agradável disrupção perante uma rotina que o ocupava, mas mantinha infeliz. Os últimos anos tinham-lhe arruinado o casamento levando-o a um divórcio sem traições mas com muitos ressentimentos. Das partilhas amigáveis ficou com o suficiente para o ajudar na compra de um pequeno apartamento, em segunda mão, no centro da cidade. A filha, com vida feita e curso acabado, decidiu emigrar e divide as duas semanas que passa em Portugal entre a praia, Lisboa e a casa da mãe. Para ele sobram dois dias, dois dias para despedidas ou para algum pedido de última hora. Têm uma relação cordial, mas a filha nunca lhe perdoou o abandono do casamento e a mãe foi sempre muito mais que uma mãe, enquanto ele, limitou-se a ser um pai. Faltaram as cumplicidades que criam os verdadeiros laços de amizade. Agora, sozinho, arranjou a companhia de um rafeiro que lhe preenche as rotinas em falta. Assim sendo, a vida de Miguel é monótona e solitária. Hoje, em particular, o dia apresenta-se como um longo calvário onde as rotinas se comportam como sedativos ecológicos, atenuadores do espaço e do tempo. Tomou o pequeno-almoço seguindo todas as regras a que se impôs e arrumou a cozinha com um perfecionismo exagerado que quase roça a paranoia. O rafeiro de pelo curto, a única imposição que fez quando o foi buscar ao canil municipal, segue sem trela e ao seu lado. Dir-se-ia que adaptou a personalidade melancólica do dono e que a sua presença nada mais é do que a versão canina do homem. Miguel nunca chegou a dar-lhe um nome. Passou duas semanas remoendo entre nomes absurdamente humanos e nomes estupidamente animais. Ao fim de um mês apercebeu-se que não precisava deles para se fazer entender, no fim de contas o cachorro também não se incomodava com a ausência identificadora, muito embora, e para fins de registo legal, o animal tivesse ficado com o nome de “Cão”. A relação entre estes dois seres não é sustentada em palavras mas sim em afetos silenciosos. Os passeios matinais são expurgações da alma para o dono e alívio para o animal, no entanto, o dia de hoje trouxe algo diferente à rotina de Miguel. Ele não saberá explicar o porquê de ter olhado para a saída daquele prédio amarelo de três andares precisamente no momento em que aquela mulher, extremamente magra, vagamente desalinhada e com uma criança pela mão, descia as escadas vagarosa e de cabeça baixa. Isso ele não saberá explicar assim como o fascínio que esta aparição exerceu sobre ele no momento em que ela levantou a cabeça e a imagem de fragilidade desapareceu por completo. Dir-se-ia que estava na presença de outra pessoa. Até a criança, inicialmente tão submissa, parecia ganhar outra vida. O Miguel não era homem de assombros e muito menos de deixar transparecer as suas emoções perante algo que o deixasse verdadeiramente perturbado mas, esta visão de poder numa mulher aparentemente tão frágil, fez com que permanecesse parado e sem conseguir afastar o olhar. O próprio cachorro, alma gémea do dono, sentou-se e de forma cúmplice uniu-se à contemplação de Miguel. Ficou a observá-las enquanto elas desciam a rua. Mesmo sem as conhecer pessoalmente sabia um pouco da sua vida, devido às conversas que ouvia no café que ambos frequentavam. Eram vidas banais, daquelas que só têm importância para quem as vive. As vizinhas, que viam na história daquela mulher um alívio para as suas próprias desgraças, falavam de toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica, infidelidade, dificuldade em manter um emprego e um sem número de outros problemas que ornamentavam com comentários, algumas vezes abonatórios e muitas vezes acusatórios, numa versão deturpada da justiça Salomónica. Miguel pensava em tudo isto enquanto as via afastarem-se até que, sem uma razão para a qual encontrasse uma explicação, decidiu segui-las. A explicação irá encontra-la mais tarde, quando dela precisar para justificar as suas ações.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Cíclo I (descendente)

 A janela aberta deixa entrar os aromas da primavera. Lá dentro o quarto fede a odores humanos, excreções noturnas, produtos resultantes das reações químicas que mantém a vida. Na cama um corpo nu e desarticulado repousa como um despojo, marionete largada depois de um espetáculo milhentas vezes repetido. Breves espasmos intermitentes emprestam um movimento inusitado ao corpo naufragado nesta serena letargia onde o pensamento é ausência. A porta do quarto abre-se muito lentamente e da fresta escura surge o rosto de uma mulher. Os seus olhos negros percorrem o corpo do homem numa espécie de avaliação. A mulher baixa a cabeça e talvez feche os olhos em resignação. Pudesse o seu cabelo longo deixar antever o gesto e teríamos a confirmação. Certo é que a porta, ainda agora aberta, acaba por se fechar. Pressentem-se passos que se afastam, passos leves de alguém leve ou então de alguém com total controlo sobre a sua leveza. Existem pessoas assim, existem sem existir e mesmo que a sua volumetria as imponha visualmente, acabam por passar totalmente despercebidas. Entretanto o corpo adormecido, como que afetado pela presença fugaz da mulher, começa a despertar. O espreguiçar lento e sofrido é acompanhado de gemidos indecifráveis, lamentos de coisas esquecidas, resquícios de uma noite etilizada. O sol entra radiante pela janela aberta e o chilrear dos pássaros junta-se aos aromas atrás referidos. O homem encontra-se agora sentado na cama. De cabeça baixa e de costas voltadas para a janela pragueja baixinho. Da boca saem-lhe palavras renovadoras, o “foda-se” redentor, o “cona da mãe” como local de refúgio, o “caralhos ma fodam” como penitência para confissões não assumidas e por fim um “puta que pariu a merda da luz” como justificação para a cegueira e a inércia. Sem forças para se levantar procura na memória uma âncora, uma referência que possa servir de ponto de partida, mas os pontos de partida são sempre os mesmos e as chegadas também. A saída do trabalho como momento libertador, a mesa da cervejaria como desculpa, os que chegam e os que partem e ele que fica e resiste. Alguém o leva para uma última ronda e depois o esquecimento, o corpo cansado e sem forças, o enjoo constante, pronuncio de lesões graves no fígado. O homem tem um nome, João. Poderia ser Paulo, Pedro, Tiago, José, mas não, o seu nome é João, João de Jesus Batista. João não batizou Jesus mas levou a sua filha à pia batismal onde lhe concedeu o nome de Maria e Maria, que não ficou Jesus, ficou Batista. Tem também o nome de família da mãe, mas a mãe encontra-se na cozinha a chorar e por respeito vamos deixar a descendente dos Pereira com a sua mágoa, até porque, quando o João entrar na cozinha, já não a encontrará. Aliás poderia afirmar, com grandes hipóteses de acertar, que o ruido seco ainda agora percebido foi provocado pelo fechar cuidadoso de uma porta, mais concretamente a porta da rua. João não tem ouvidos para tamanhas subtilezas. O João tem o estomago azedo, a garganta seca, a cabeça num eco perpétuo e a bexiga cheia que o obriga a uma ida apressada à casa de banho. A trajetória enviesada leva-o a embater nalguns obstáculos inocentes entre os quais se encontram, uma cómoda, uma cadeira e o cesto da roupa, último entrave para o acesso à sanita. O João está nu e num último arremedo de decisão decide aliviar-se dentro da banheira ao mesmo tempo que liga a água quente. O banho foi demorado. Não foi um banho higiénico com pormenores de limpeza dignos desse nome. Foi antes um deixar escorrer a água quente pelo corpo entorpecido, um acordar aquoso, um expurgar de suores. Saiu da banheira e mal se secou. Largou a toalha ao acaso no chão do corredor e dirigiu-se à cozinha. Não estranhou o silêncio, não estranhou a louça por lavar, não reparou no bilhete preso na porta do frigorífico por um íman-Mickey sorridente. Limitou-se a abrir a porta do frigorífico e a retirar do seu interior uma das inúmeras garrafas de cerveja espalhadas por todas as prateleiras. Largou-se numa das cadeiras junto da mesa e aproveitando um talher desarrumado abriu a garrafa levando-a à boca. Despejou-a pela metade e pousou-a com alguma violência, mais provocada pelo desmazelo do que por outro motivo qualquer. Depois debruçou-se sobre a mesa e adormeceu.

Preso à Parede

  Saco da carteira e disparo cart õ es em todas as dire çõ es. Vejo corpos tombar, corpos que se desfazem ao cair no ch ã o. De dentro desse...